O Presente por Abrir

Biblioteca de Véspera · o décimo quarto romance

O Presente por Abrir

Dádiva cuida de meia vila e não aceita nada de ninguém: devolve os elogios antes de os sentir, recusa as prendas, e tem em casa, por abrir há três anos, o presente que a filha lhe deu. Receber, para ela, é descer. Este é o ano em que aprende que receber não é ficar a dever, é deixar-se amar.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Dádiva, filha de gente da vila, nascida num domingo de festa, e o nome foi promessa e foi profecia.

A mãe, que recebia o pão dos outros com uma vergonha que se via da rua, quis que a filha fosse dádiva para o mundo, que desse em vez de pedir, que estivesse sempre do lado de quem oferece e nunca do lado de quem estende a mão, porque do lado de quem estende a mão a mãe conhecia o frio, e quis poupar a filha a esse frio com um nome que a pusesse, desde o berço, a dar.

Os assentos dizem quem deu o nome a quem, quem cuidou de quem, quem ofereceu o quê. Não dizem porque é que há quem dê tudo e não aceite nada, nem que muralha se ergue do lado de receber, nem que presente é esse que fica em casa, por abrir, sem que ninguém saiba o que dentro dele espera. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

Não era preciso

Dádiva tinha uma frase que dizia mais vezes do que bom dia, e dizia-a sempre da mesma maneira, com o mesmo sorriso e o mesmo pequeno recuo do corpo, como quem apara um golpe com jeito: não era preciso.

Dizia-a quando lhe ofereciam alguma coisa, e ofereciam-lhe muito, porque Dádiva era a que cuidava de meia vila e a vila, à sua maneira, retribuía: uma vizinha trazia-lhe ovos em agradecimento de uns dias de companhia a um doente, e Dádiva dizia não era preciso, e fazia por não pegar nos ovos, ou pegava neles a recuar, como se fossem quentes; alguém lhe agradecia com um elogio, dizia-lhe és um anjo, Dádiva, não sei o que seria de nós sem ti, e Dádiva dizia não era preciso, deixa-te disso, qualquer um fazia, e devolvia o elogio antes de o sentir, antes de o deixar entrar, como quem devolve uma carta sem a abrir. Era essa a arte de Dádiva, a arte de uma vida: dar com as duas mãos e receber com nenhuma, estar sempre do lado de quem oferece e nunca, nunca, do lado de quem aceita, porque aceitar, para ela, tinha um sabor que ela não suportava, o sabor de ficar a dever, o sabor de descer do lugar de quem dá para o lugar de quem precisa, e desse lugar Dádiva fugia como se foge de uma coisa que faz mal de verdade.

E reparava-se, em Véspera, naquele pequeno recuo do corpo dela quando lhe ofereciam alguma coisa, embora ninguém soubesse lê-lo: era um meio passo atrás, um encolher dos ombros, uma maneira de pôr as mãos atrás das costas, gestos pequenos de quem se defende de uma coisa que vem na direção dela, e a coisa que vinha era só uma travessa, um agrado, um obrigada, mas Dádiva defendia-se dela como de um perigo, porque para Dádiva era um perigo, o perigo de receber, e o corpo dela, que nunca recuava para dar, que ia sempre para a frente a oferecer, recuava sempre para receber, como se receber e dar fossem, no corpo dela, dois movimentos opostos, um aberto e fácil, o de dar, e outro fechado e impossível, o de receber.

E fazia mal, é verdade, embora ela nunca tivesse dito a ninguém por quê, nem a si própria com palavras. Vinha de longe, o mal de receber, vinha da casa da mãe, mas disso falará o livro mais adiante; por agora basta dizer que Dádiva chegara aos quarenta e oito anos a ser, em Véspera, a personificação do dar: cuidava dos velhos que os filhos tinham longe, velava os doentes, fazia os recados de quem não podia, levava sopa a quem adoecia, ajudava nos partos e nos funerais, que são as duas pontas onde uma vila mais precisa de mãos, e fazia tudo isto sem cobrar, sem pesar, sem nunca dizer que estava cansada, com uma disponibilidade que parecia não ter fundo e que toda a vila tomava como uma bênção, sem reparar que uma fonte que dá sempre e nunca recebe não é uma bênção sem fundo: é uma fonte que se está a esvaziar por dentro, devagar, e que um dia, se ninguém a deixar encher, seca.

Os dias de Dádiva eram todos iguais e todos cheios, e cheios do mesmo: dos outros. Levantava-se cedo, e antes de pensar em si já pensava em quem precisava dela naquele dia, quem estava de cama, quem ficara só, quem tinha um filho longe e uma dor perto, e saía de casa com a lista dos outros na cabeça e nenhum lugar nela para si própria. E a lista era sempre comprida: havia o velho Aniceto, que perdera a mulher e não sabia fritar um ovo, e a quem Dádiva ia pôr o almoço ao lume; havia a Romana, presa a uma cadeira de rodas desde uma queda, a quem Dádiva ia abrir as janelas e mudar de posição para não criar feridas; havia a casa dos Tristão, onde a mãe morrera de parto e tinham ficado três crianças e um pai perdido, e onde Dádiva entrava como quem entra em casa própria, a lavar, a remendar, a pentear cabeças. Andava a vila de porta em porta, a dar, a fazer, a tratar, e voltava a casa à noite cansada de uma maneira que ela chamava boa, o cansaço de quem se gastou todo nos outros, e que era, na verdade, o cansaço de quem nunca se deixa encher, o cansaço seco de uma fonte que dá sem receber. E a vila amava-a por isto, e dizia-o, e Dádiva crescia com o amor da vila como uma planta cresce para o sol, mas era um amor de longe, o amor que se tem a quem nos serve, e Dádiva, que tinha o amor de toda a vila, não tinha o amor de ninguém de perto, porque para se ter o amor de perto é preciso deixar alguém chegar-se, e chegar-se é dar e receber, e Dádiva só deixava chegar-se quem vinha receber dela, nunca quem vinha dar-lhe.

Tinha sido viúva nova. O Bento, o marido, um homem bom e calado, carpinteiro de mãos boas, morrera havia uns anos de um mal no peito que o foi levando devagar, e desde então a casa de Dádiva ficara mais silenciosa e ela mais dada ainda, como se o dar fosse a maneira de não dar pela falta dele, de encher com os outros o vazio que ele deixara, e a vila, que reparava em tudo, dizia que a Dádiva, coitada, se atirara ao serviço dos outros para não pensar, e tinha meia razão; a outra meia, a que a vila não via, era que o Bento fora a única pessoa que Dádiva deixara, em vida, dar-lhe alguma coisa, cuidar dela um bocadinho.

E houvera, na morte dele, um sinal de tudo isto que a vila vira e não soubera ler. No dia do funeral do Bento, as vizinhas, que conheciam Dádiva e que a amavam à sua maneira, organizaram-se, como se organiza em Véspera à volta de quem perde, e encheram a casa de comida, e quiseram ficar, quiseram velar com ela, quiseram dar-lhe o colo que se dá às viúvas; e Dádiva, no dia em que mais precisou de ser amparada em toda a vida, no dia em que enterrava o único homem que sabia recebê-la, fez o que sempre fazia: agradeceu, e mandou-as para casa. Disse vão descansar, que vocês têm as vossas vidas, eu fico bem, e ficou sozinha na casa cheia de travessas que não tocou, a velar o marido sem ninguém ao lado, porque nem na sua maior dor Dádiva soube deixar que a viessem ter, e a vila comentou, à saída, que a Dádiva era forte, que aguentava tudo sozinha, sem perceber que aquela força era a mesma solidão de sempre, agora vestida de luto. E Dádiva passou a primeira noite de viúva sozinha, de propósito, e teve frio, o frio dos pés à lareira que já ninguém esfregava, e atribuiu-o à falta do Bento, sem ver que o frio era a sua própria porta, fechada até na noite em que mais precisava de a abrir.

E o Bento sabia fazê-lo de uma maneira que ninguém mais soube, com a manha mansa dos homens calados, sem nunca dar de frente, que de frente Dádiva recuava sempre. Lembrava-se ela, agora, de uma coisa que ele fazia e que na altura lhe parecera só um costume e que era, percebia-o tarde, a chave toda: quando a via cansada de um dia de cuidar dos outros, o Bento não dizia descansa, mulher, que tu fazes de mais, que isso era oferecer e Dádiva recusava o que se oferecia; o Bento sentava-se ao pé dela, à lareira, sem dizer nada, e punha-se a esfregar-lhe os pés com as mãos grossas de carpinteiro, devagar, em silêncio, como quem faz uma coisa que lhe apetece a ele e não um favor a ela, e Dádiva, que teria recuado de um favor, não recuava daquilo, porque aquilo não tinha cara de dádiva, tinha cara de costume, e o Bento, esperto à maneira dele, descobrira que a única forma de cuidar de Dádiva era cuidar dela sem que parecesse cuidado, era entrar-lhe por baixo da muralha em vez de bater à porta de cima. E assim, à lareira, com os pés nas mãos do marido, Dádiva, e só com ele, e só assim, deixava-se, de vez em quando, receber; e morto ele, fechou-se essa fresta, e morreu com o Bento a única pessoa que conhecia o caminho por baixo da muralha, e a muralha fechou-se de vez, sem ninguém do lado de dentro a saber abri-la, e os pés de Dádiva ficaram frios à lareira, e ela atribuía o frio à falta dele, sem perceber que o frio era mais antigo do que o Bento e que o Bento só o aquecera, por uns anos, sem nunca o ter curado.

Restava-lhe a filha. A Estima vivia perto, casada, com a sua vida, e amava a mãe com um amor que tinha um espinho dentro, e o espinho era este: que a Estima nunca, em toda a vida, conseguira dar nada à mãe. Tudo o que tentava dar-lhe, Dádiva devolvia, com o não era preciso, com o guarda isso para ti que tens a tua casa, com o eu não preciso de nada, filha, e a Estima crescera e fizera-se mulher com aquela falta atravessada na garganta, a falta de uma mãe que se deixasse retribuir, que aceitasse dela, ao menos uma vez, o que a mãe lhe dera a vida toda. Porque a Estima queria pagar à mãe, não em dívida, mas em amor; queria ter, uma vez, o gosto de ser ela a dar, e a mãe, com o seu dar incansável, com a sua recusa terna de tudo, tirava-lhe sempre esse gosto, deixava-a sempre do lado de quem recebe, que é um lado bom quando se troca, mas que magoa quando é o único que nos deixam ocupar.

E havia, em casa de Dádiva, um sinal disto tudo, um sinal que estava à vista de quem entrasse e que ninguém via porque parecia só um objeto: em cima de um móvel da sala, encostado à parede, estava um embrulho. Era um embrulho de presente, com o papel já um bocado desbotado do tempo, e o laço ainda feito, e nunca tinha sido aberto. A Estima dera-o à mãe havia três anos, num aniversário, e Dádiva recebera-o, porque não se recusa um presente nas mãos de uma filha à frente dos outros, mas não o abrira ali, dissera depois abro com calma, e o depois não chegara, e o embrulho ficara em cima do móvel, três anos, com o laço feito, à espera de uma calma que Dádiva nunca achava, porque a calma não era o que faltava: o que faltava era a coragem de receber, de desembrulhar, de ver o que a filha lhe escolhera com amor e deixar que esse amor lhe entrasse, e Dádiva, que abria a porta a meia vila para dar, não conseguia abrir, havia três anos, um embrulho que uma filha lhe dera, porque abri-lo era recebê-lo, e receber era a única coisa que Dádiva não sabia fazer.

A Estima via o embrulho cada vez que ia a casa da mãe, e cada vez que o via levava no peito uma facada pequena, a facada de ver o seu presente por abrir, ano após ano, no mesmo sítio, com o mesmo laço, a juntar pó; e ao princípio perguntara, mãe, não abres?, e Dádiva dissera abro, abro, deixa estar; e depois deixara de perguntar, porque perguntar e ouvir o deixa estar era pior do que o silêncio, e o embrulho passara a ser, entre as duas, uma coisa de que não se falava, uma ferida embrulhada em papel de presente em cima de um móvel, a dizer, a quem soubesse ler, tudo o que faltava dizer entre aquela mãe e aquela filha, que era que uma sabia dar e não sabia receber, e a outra queria dar e não a deixavam, e que as duas se amavam por cima disso, mas com o embrulho sempre lá, fechado, entre elas. E o pó ia-se juntando no laço, fino, e cada camada de pó era um mês, eram seis meses, era um ano, e o embrulho ia ficando, de tão parado, de tão fiel ao seu sítio, quase um móvel ele próprio, uma coisa da casa, e Dádiva já quase não o via, da maneira como se deixa de ver o que está sempre no mesmo sítio, e era essa a pior das coisas, que o amor da filha tivesse ficado parado tempo suficiente para se tornar invisível, para passar a fazer parte da mobília, para deixar de doer de tão habitual.

Naquela manhã, Dádiva fora cedo a casa da Brandura, uma vizinha de idade que adoecera e que estava de cama. A Brandura morava no cimo da rua dos Cedros, numa casa pequena e arrumada de mulher que ficara sozinha, e Dádiva entrou como entrava sempre, sem bater, que já era de família, e fez o que fazia, com a eficiência de sempre: abriu as janelas ao sol da manhã, sacudiu os lençóis, mudou a roupa da cama com a doente ainda dentro dela, com aquele jeito que tinha de virar um corpo fraco sem o magoar, pôs água ao lume, fez o caldo, deu-lho à colher, devagar, a soprar em cada colherada como se dá a um menino. E a Brandura deixou-se fazer tudo, de olhos postos em Dádiva, com uma atenção que Dádiva não estava habituada a receber, porque os outros, quando ela os servia, agradeciam de passagem e voltavam-se para a sua dor; a Brandura, não, a Brandura olhava-a, seguia-a pelo quarto com os olhos, como quem lê. E Dádiva ia já a sair, com a tigela na mão, a pensar na casa seguinte, quando a Brandura, da cama, lhe pegou na mão com a mão fraca, e segurou-lha, e não a largou, e disse uma coisa que Dádiva não esperava e que a deixou desconcertada: obrigada, Dádiva. Deixas-me receber-te tão bem. E Dádiva, que dava sempre e a quem ninguém costumava dizer aquilo daquela maneira, com aquele peso, ia já a responder com o não era preciso de sempre, a recuar a mão, a pousar a tigela; mas a Brandura apertou-lhe a mão com a pouca força que tinha, e não a deixou recuar, e olhou-a de baixo, da almofada, e acrescentou, com a sabedoria mansa dos que estão de cama e têm tempo de pensar e já não têm tempo a perder: e tu, Dádiva, deixas-te receber por alguém? Ou és só tu a dar, sempre? Olha que eu reparo, sabes. Há semanas que tu entras aqui, fazes tudo, e nunca te sentas. Nunca me deixas dar-te nem um copo de água. Tu não te sentas, Dádiva. E quem não se senta na casa de ninguém é porque não se deixa receber em parte nenhuma. Porque quem só dá, minha filha, também cansa quem ama. Olha que receber também é um presente que se faz a quem nos quer.

Dádiva saiu de casa da Brandura com aquela frase atravessada, e foi a primeira vez na vida que uma coisa dita por uma pessoa a quem ela ia dar lhe ficou a dar voltas a ela própria. Receber também é um presente que se faz a quem nos quer. Não entendeu logo, ou entendeu e empurrou para longe, como empurrava tudo o que vinha na direção dela; mas a frase não se foi, ficou, e ao longo do dia, enquanto Dádiva fazia os seus serviços, a frase voltava, e voltava com a cara da Estima, com a falta atravessada na garganta da filha, com o embrulho por abrir em cima do móvel, e Dádiva começou a sentir, sem ainda o saber dizer, que talvez houvesse um lado da generosidade que ela nunca tinha visto, um lado em que dar de mais, e nunca deixar receber, não era a maior das bondades, era uma maneira fina de não deixar ninguém chegar-se, de ficar de pé, sozinha, no lugar alto de quem dá, com a mão sempre estendida para fora e nunca virada para receber.

À noite, em casa, sozinha, Dádiva sentou-se na sala, e os olhos foram, como iam sempre sem ela querer, para o embrulho em cima do móvel. Três anos. O papel desbotado, o laço feito, o presente da Estima por abrir. E Dádiva ficou a olhar para ele de outra maneira, com a frase da Brandura na cabeça, e viu, pela primeira vez, não um objeto que ela ainda não tivera calma para abrir, mas um retrato dela própria: viu-se a ela, embrulhada, com o laço feito, em cima de um móvel da vida, há anos, à espera de uma calma que não vinha, sem se deixar abrir por ninguém, com o amor dos outros do lado de fora do papel, a juntar pó. O embrulho era ela. E o que estava lá dentro, o que a filha lhe escolhera com amor há três anos, era a prova de um amor que ela, Dádiva, não deixara entrar, que recusara sem sequer ver, que pusera num móvel a apanhar pó, como pusera, a vida toda, todo o amor que os outros lhe quiseram dar e que ela devolveu com um sorriso e um não era preciso.

Não o abriu nessa noite. Ainda não. Mas pela primeira vez em três anos não o olhou como uma tarefa adiada; olhou-o como uma pergunta, a pergunta da Brandura feita objeto: e tu, Dádiva, deixas-te receber por alguém? E foi-se deitar com a pergunta, e dormiu mal, do sono de quem viu uma coisa que andava à frente dos olhos há três anos e que só naquela noite, à luz de uma frase dita por uma velha de cama a quem ela ia dar, começou enfim a ver. E no escuro, antes de adormecer, deu por si a pensar uma coisa que nunca pensara: que talvez não fosse a calma que lhe faltava para abrir o embrulho, talvez fosse a coragem, e que talvez a coragem de receber fosse uma coisa que se podia aprender, como ela aprendera a dar, e que talvez ainda fosse tempo, aos quarenta e oito anos, de aprender a outra metade do que toda a vila julgava que ela já sabia toda, que era amar.

· fim da amostra ·

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