
Biblioteca de Véspera · o décimo romance
O Ferrolho
Dores salvou o marido, que bebia, e depois o filho, que herdou a sede do pai. Cobriu, pagou, deu sempre, até ter medo do próprio filho na sua própria casa, e até descobrir que o seu amor sem limite os afundava aos dois. É a história de uma mãe que confundiu amar com salvar, e que só aprende — com uma noite de medo, uma Guardiã e uma vizinha que já fez a travessia — que não é responsável pela doença de quem ama, que não a cura sacrificando-se, e que fechar a porta ao mal não é fechar o coração à pessoa. A frase do fim, ao correr o ferrolho: ao meu filho, quando vier são, está sempre aberta; mas eu não morro mais a salvá-lo.
Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.
Do registo de Véspera
No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:
Dores, filha de gente de Véspera, viúva de Aniceto, mãe de Joaquim. Passou a vida a salvar quem se afundava: primeiro o marido, que bebia, depois o filho, que herdou do pai a sede e a sombra. Segurou a casa sozinha à custa de se ir gastando, porque aprendera, em menina, que amar era isso, era salvar.
O nome foi promessa, das antigas e duras: a mãe quis-lhe o nome das dores, na esperança de uma filha com costas para as aguentar. E a vida deu uma mulher que aguentou as dores de todos e nunca as suas, até à noite em que teve de escolher entre o filho e si própria.
Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem partiu. Não dizem o que custa a uma mãe pôr um limite a um filho que ama, nem se há, do fundo de tanto amparo, porta que ainda se possa fechar ao mal sem se fechar a quem o traz. Para isso são precisos os livros como este.
capítulo um
A campainha
Houve um tempo, em casa de Dores, em que a campainha era uma alegria, porque anunciava quem chegava, uma vizinha, uma novidade, os filhos a entrar da rua; e houve outro tempo, o desta história, em que a campainha se tornou a coisa que Dores mais temia no mundo, porque quase só tocava para anunciar o filho, e o filho quase só vinha para pedir, e às vezes vinha de uma maneira que a deixava com medo na sua própria casa.
Há um som que as mães destas casas aprendem a temer, e é o som da campainha à hora errada, e Dores aprendera-o como se aprende uma língua, pela repetição e pela dor. A campainha, que para o resto do mundo é um som neutro, um simples anúncio de que alguém chegou, tornara-se para Dores um som carregado, um som que lhe disparava o coração antes mesmo de ela saber quem era, porque o corpo dela aprendera a associar a campainha ao filho e o filho à aflição. E havia uma tristeza nisto, a de um som comum se ter tornado, para ela, um som de medo; a de uma coisa tão banal como uma campainha lhe ter sido envenenada pela vida, transformada de anúncio neutro em ameaça. Dores invejava, sem o dizer, as casas onde a campainha era ainda só uma campainha, um som alegre de visitas, e media, por essa inveja, o quanto a sua vida se torcera, ao ponto de o som mais comum de uma casa se ter tornado, na sua, o som do que mais temia.
Dores aprendera a conhecer o toque do Quim. Havia o toque de dia, mais ou menos normal, que ainda assim lhe apertava o peito porque sabia que vinha pedir; e havia o toque de noite, insistente, repetido, o dedo no botão sem largar, e esse toque Dores conhecia-o bem, e ao ouvi-lo o corpo todo se lhe gelava, porque o toque de noite era o toque do Quim quando bebia, e o Quim quando bebia era outro, era um homem que a assustava, que não era o menino que ela criara nem o filho que ela amava, era a bebida com a cara do filho, e Dores, do outro lado da porta, ficava com o coração aos saltos, sem saber se abria, se não abria, se devia, se podia, presa entre o amor de mãe que quer sempre abrir ao filho e o medo de mulher que aprendera a temer aquele toque.
Houve um tempo, e Dores agarrava-se a essa memória como a uma prova de que nem sempre fora assim, em que o Quim era um menino bom, o seu menino, risonho, cheio de futuro, um rapaz como os outros, com sonhos, com jeito para umas coisas, com uma vida pela frente. Dores guardava esse Quim no coração, o Quim de antes, e era em parte por causa dele que não conseguia fechar a porta ao Quim de agora, porque via no homem afundado o menino que fora, e uma mãe que vê o menino dentro do homem não consegue tratar o homem como um estranho, por mais que o homem a assuste. E havia uma dor particular nisto, a de chorar um filho que estava vivo, a de ter saudades de um menino que se tornara aquele homem, a de amar ao mesmo tempo o que o Quim fora e o que o Quim era, e de não saber como salvar um sem se deixar destruir pelo outro.
Porque o Quim, o filho de Dores, herdara do pai a sede, e com a sede a sombra. Era um homem feito, com a idade de fazer a sua vida, e fazia-a mal, afundado na bebida como o pai se afundara, e a vida dele era um desfazer-se devagar que Dores via de fora, impotente, como se vê afundar um barco da margem. E nesse desfazer-se, o Quim aparecia em casa da mãe, e aparecia quase sempre pela mesma razão: para pedir. Dinheiro, sobretudo. Vinha com uma história, sempre uma história, uma dívida, um aperto, uma promessa de que era a última vez, e Dores ouvia a história, que já conhecia de cor porque era sempre a mesma com nomes trocados, e dava, dava o que tinha e o que não tinha, porque era o filho, porque não o sabia mandar embora de mãos vazias, porque uma parte dela ainda acreditava, contra toda a evidência, que daquela vez o dinheiro o ia safar, que daquela vez era mesmo a última.
As histórias do Quim eram sempre boas, é preciso dizê-lo, eram histórias que tocavam exatamente onde tinham de tocar, porque o Quim, mesmo na sombra da bebida, conhecia a mãe melhor do que ninguém e sabia que teclas premir. Uma vez era uma dívida a gente perigosa, que lhe podia trazer sarilhos sérios se não pagasse; outra era um trabalho que ia conseguir se tivesse com que se apresentar; outra era a saúde, um problema, um médico, um remédio. As histórias mudavam, mas tinham todas a mesma forma: uma emergência, uma desgraça iminente que só o dinheiro da mãe podia evitar, e uma promessa de que era a última vez, de que daquela se endireitava. E Dores, que já ouvira aquelas histórias dezenas de vezes, que sabia de cor que eram histórias, acreditava na mesma, ou fazia de conta que acreditava, porque queria acreditar, porque uma mãe quer acreditar no filho, porque era mais fácil dar acreditando do que dar sabendo que era mentira. E o Quim sabia disto, sabia que a mãe queria acreditar, e dava-lhe histórias em que ela pudesse acreditar, e assim os dois mantinham, sem o dizer, uma espécie de pacto: ele fingia que era a última vez, ela fingia que acreditava, e o dinheiro mudava de mãos, e a bebida continuava, e o pacto repetia-se na visita seguinte, igual, com uma história nova.
Nunca era a última. O dinheiro que Dores dava ao filho não o safava de nada; afundava-o um pouco mais, porque ia para a bebida, ou para tapar um buraco que a bebida abrira, e no fundo Dores sabia-o, sabia que estava a deitar dinheiro a um poço sem fundo, a alimentar a própria coisa que destruía o filho. Mas saber não a fazia parar, porque entre o saber da cabeça e o não conseguir do coração de mãe há um abismo, e Dores vivia nesse abismo, a dar o que sabia que fazia mal, incapaz de não dar, porque não dar parecia-lhe abandonar o filho, e abandonar o filho era a única coisa que ela, em toda a vida, nunca aprendera a fazer.
Os vizinhos viam o Quim entrar e sair de casa da mãe, e murmuravam, porque numa vila tudo se sabe, e havia quem censurasse Dores, ai a Dores que não põe aquele filho na ordem, dá-lhe sempre, faz-lhe as vontades, assim não admira; e havia quem tivesse pena, ai a Dores, coitada, o que aquele filho lhe faz passar. E Dores sentia as duas coisas, a censura e a pena, e as duas a feriam, porque a censura era injusta — não era falta de juízo, era um aperto fundo de que ninguém de fora fazia ideia — e a pena humilhava-a, ela que fora sempre a forte, a que segurava, a que ajudava os outros, ver-se agora objeto de pena da vila por causa de um filho. Mas Dores aguentava as duas, a censura e a pena, como aguentava tudo, calada, de cabeça erguida na rua e desfeita em casa, porque expor o que se passava, queixar-se, pedir ajuda, era coisa que ela não sabia fazer, que nunca aprendera, e assim carregava sozinha um peso que a esmagava, sem deixar ninguém ver o tamanho dele.
Os dias bons, quando os havia, eram quase piores do que os maus, pela esperança que traziam. Quando o Quim aparecia sóbrio, com um resto do menino que fora, e prometia, com um ar sincero, que ia mudar, que ia tratar-se, que daquela era a sério, Dores enchia-se de uma esperança que lhe doía de tão grande, e acreditava, porque queria acreditar, porque uma mãe agarra-se a qualquer fio de esperança como um náufrago a uma tábua. E depois a esperança desfazia-se, porque a promessa não se cumpria, e Dores caía da esperança ao chão, e cada queda dessas era uma dor renovada, talvez a pior de todas, porque a esperança repetidamente desfeita gasta mais do que o desespero constante. Dores aprendera, com o tempo, a desconfiar das promessas do filho, a não se deixar subir muito alto para não cair de tão alto; mas nunca conseguia desconfiar de todo, porque desconfiar de todo seria desistir, e ela não desistia, e por isso continuava a subir um bocadinho na esperança a cada promessa, e a cair a cada quebra, num sobe e desce que a gastava mais do que qualquer linha reta de desgraça.
A bebida, é preciso dizê-lo com cuidado e com verdade, não fizera do Quim um monstro; fizera dele um homem doente, e isso é coisa diferente. Havia dias em que o Quim aparecia sóbrio, e nesses dias era ainda, por baixo do estrago, o menino que Dores criara, com um resto de ternura, de vergonha até do que se tornara, e esses dias partiam o coração de Dores mais do que os outros, porque mostravam-lhe o filho que ainda lá estava, soterrado, o filho que talvez se pudesse salvar se houvesse maneira. E era por causa desses dias, dos relâmpagos do filho são por baixo do filho doente, que Dores não conseguia desistir, porque via que o filho ainda lá estava, e uma mãe que vê o filho ainda lá dentro do estrago não consegue tratar o estrago como se fosse o filho todo. A doença e o filho conviviam no mesmo homem, e Dores amava o filho e temia a doença, e o drama era que vinham os dois no mesmo corpo, à mesma porta, no mesmo toque de campainha, e ela tinha de aprender, e ainda não sabia, a abrir a porta a um e fechá-la ao outro.
A casa, que fora um lar, tinha-se tornado um sítio de medo e de espera. Dores vivia atenta à campainha, atenta ao telefone, atenta a notícias do filho, num sobressalto permanente, e o sobressalto comia-a, tirava-lhe o sono, o apetite, a paz. Tinha emagrecido, Dores, andava com um ar de quem carrega um peso que não se vê, e as vizinhas notavam, ai a Dores, coitada, com aquele filho, está a dar cabo dela aquele filho, e tinham razão, o filho estava a dar cabo dela, mas não da maneira que pensavam, não por maldade do filho, mas por uma coisa mais funda e mais triste: o filho estava a dar cabo dela porque ela se deixava, porque ela carregava o filho às costas, porque ela fizera da salvação do filho a sua cruz, e uma cruz dessas, carregada anos a fio, esmaga quem a carrega.
Os dias de Dores organizavam-se, sem ela o querer, à volta do filho e do medo dele. De manhã, acordava já com o filho na cabeça, a perguntar-se se ele viria, se estaria bem, em que estado andaria. De tarde, vivia atenta, sobressaltava-se com qualquer toque, qualquer passo na rua, qualquer barulho que pudesse ser ele. De noite, era o pior, porque a noite era a hora do toque temido, e Dores deitava-se sem descansar, de ouvido à escuta, e dormia mal, de um sono leve que qualquer coisa quebrava. A vida toda dela girava à volta do Quim, do medo do Quim, da espera do Quim, e não lhe sobrava nada para si, nem um pensamento, nem uma hora, nem um descanso, porque o filho ocupava-lhe a cabeça inteira, de manhã à noite, presente quando vinha e presente quando não vinha, porque a ausência dele era tão ocupante como a presença, feita de espera e de medo. E assim Dores não tinha vida, tinha só o filho, tinha só o medo e a espera e a aflição de um filho que se afundava, e era uma não-vida, um existir suspenso à volta de outro, que a consumia sem lhe dar nada em troca a não ser mais medo.
E o mais terrível é que Dores já não reconhecia a sua própria casa. A casa que ela e o Aniceto tinham feito, onde criara os filhos, era agora um sítio onde ela tinha medo de noite, onde trancava as coisas de valor, onde escondia o pouco dinheiro que tinha para o filho não o levar, onde vivia em alerta como se vive num sítio perigoso. A sua casa, o seu refúgio, tornara-se o palco do seu medo, e isso, para uma mulher que fizera da casa e da família a vida inteira, era uma dor surda e permanente, a de ter perdido, sem sair dela, o próprio lar, transformado pela doença do filho num lugar de sobressalto.
Tinha emagrecido, Dores, e envelhecera depressa naqueles anos, porque o medo e a aflição gastam um corpo mais depressa do que o trabalho. Andava com um ar cansado, de quem não dorme, de quem carrega um peso, e as roupas começaram a sobrar-lhe, e as vizinhas notavam, e ela desculpava-se com a idade, com o calor, com o que fosse, para não ter de dizer a verdade, que era o filho que a comia por dentro. Deixara de cuidar de si, Dores, porque toda a sua atenção e todo o seu dinheiro iam para o filho, e uma mulher que põe tudo no filho deixa de pôr em si, deixa de comprar o que precisa, deixa de se arranjar, deixa de se tratar, e Dores fizera isso, fora-se descuidando a si para cuidar do filho, e o seu próprio corpo, descuidado, ia-se gastando, como se gasta tudo o que se descuida. E havia uma tristeza em vê-la, a Dores, uma mulher que fora forte e digna reduzida a uma sombra cansada e magra, gasta não pela idade mas pela aflição, e a vila via-o, e tinha pena, e a pena, mais uma vez, humilhava-a, porque ela não queria a pena de ninguém, queria só, no fundo, o que nunca pedira: que alguém a ajudasse a carregar, ou melhor, que alguém lhe dissesse que podia pousar.
Mas Dores não se queixava, ou queixava-se pouco, porque aprendera, em menina, a não se queixar, a aguentar, a fazer-se a forte, a que segura tudo para os outros não verem. E continuava a abrir a porta ao filho, e a dar, e a cobrir, e a salvar, noite após noite, pedido após pedido, sem ver que estava a afundar-se com ele, sem ouvir, na vila adormecida lá fora, a voz que a história lhe ia trazer, devagar, e que lhe diria o que ninguém lhe dissera: que salvar um filho que se destrói à custa de se destruir a si não salva nenhum dos dois, e que há uma porta que, fechada a tempo, é mais amor do que todas as portas que ela abrira.
· fim da amostra ·