Nenhum Incómodo

Biblioteca de Véspera · o quinto romance

Nenhum Incómodo

Plácida não pede, não precisa, não incomoda. Na mesa comprida senta-se na ponta, serve-se por último, e já houve festas em que ninguém deu pela falta dela. Aos sessenta e seis anos, ensinada por um neto de oito, aprende a coisa mais difícil que há: a pedir.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, procura-se Plácida e quase se não acha, de tão pouco que ela deixou escrito.

Plácida, filha de gente da vila, nascida no fim de uma casa cheia, a mais nova de muitos. Casada com Brando, dos campos, homem manso, viúva dele há uns anos. Mãe de Belmira. Avó de Bento.

E mais nada. Uma vida inteira que mal tocou o papel, porque Plácida fez por não tocar em nada, e conseguiu, e foi esse o seu talento e a sua sina: passar sem pesar, caber em qualquer canto, não dar trabalho a ninguém, nem ao livro dos assentos, que a teve sempre por fácil de escrever, de tão pouco que ela pedia para si.

Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem partiu. Não dizem quem foi visto e quem passou a vida a fazer por não ser, nem o que custa, a uma pessoa, o talento de não incomodar. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A que não incomoda

Plácida tinha um talento, um só, mas levara-o à perfeição: sabia não dar trabalho como outros sabem cantar ou curar ou fazer pão. Era a sua arte, a única em que era mestra, e exercia-a com uma destreza que ninguém via, porque a perfeição daquela arte estava justamente em não ser vista.

Naquele verão, houve a festa grande do adro, a do santo da vila, das de armar a mesa comprida, e a manhã da festa apanhou Plácida no adro antes de toda a gente, como sempre, de avental, a estender toalhas sobre as tábuas dos cavaletes. A Felizarda chegou já com a luz alta, vestida de festa, e parou à beira da mesa a olhar o trabalho feito.

— Ai Plácida, tu és um regalo — disse, sem pegar em nada. — Cheguei e está tudo. Nem se dá por ti, mulher, fazes as coisas como o vento, sem barulho.

E foi-se sentar à sombra com as outras senhoras, que chegavam compostas, à hora de serem recebidas, e Plácida recebeu o nem se dá por ti como recebia tudo, como um prémio, e baixou a cabeça para continuar a dispor os pratos, contente, sem reparar que o elogio que mais a aquecia era a descrição exata de uma mulher que se apagava.

A festa encheu-se ao meio-dia. Sentou-se a vila à mesa comprida, as famílias no meio, na parte larga, a vida cheia da terra, e Plácida andou de um lado para o outro a servir o princípio, a encher copos, a levar e a trazer. A meio da tarde, com uma travessa de carne nas mãos, passava por trás dos bancos quando a mulher do Lagar, sem se voltar da conversa, estendeu o copo para o lado e disse:

— Ó Plácida, chega-me lá mais vinho a esta ponta, faz favor.

Disse-o sem olhar, da maneira distraída com que se pede uma coisa a quem se sabe que vai fazer. Plácida pousou a travessa, foi buscar o jarro, encheu o copo. A mulher nem agradeceu, voltada já para a graça que alguém contava do outro lado. E foi tudo tão natural, tão de sempre, que ninguém reparou. Mas Plácida, naquele ano de olho novo, reparou. Reparou que lhe tinham pedido o vinho como se pede a um serviçal, sem olhar, sem agradecer, e que ela servira como serve um serviçal, e ficou um instante com o jarro na mão, a olhar a própria mão, e doeu-lhe, pela primeira vez em sessenta e seis anos, uma coisa que durante sessenta e seis anos não lhe doera: a desconfiança de que ninguém nasce para ser o vinho que se pede sem olhar.

Quando chegou a altura de também ela se sentar, não havia lugar. A mesa estava cheia, e Plácida fez o que fazia sempre: arranjou-se. Foi à cozinha do adro, tirou de uma travessa quase vazia os bocados de carne que tinham sobrado da fila do meio, raspou o molho que restava, juntou um naco de pão do fundo do cesto, e comeu de pé, encostada ao lava-loiça de pedra, com o prato apoiado na anca, enquanto à porta as outras mulheres entravam e saíam com as travessas cheias para a mesa lá fora. Uma delas, ao passar, disse, sem parar:

— Ainda não comeste, Plácida? Despacha-te, mulher, que depois é só sobras.

— Vai-se andando — respondeu Plácida, e sorriu, e continuou a comer as sobras de pé, porque as sobras, para ela, não eram um castigo, eram o seu lugar, eram o que lhe cabia, e nem reparou que acabara de receber, no meio do barulho da festa, a descrição exata da sua vida: a Plácida come o que sobra, e despacha-se, e ninguém a senta.

E a meio da tarde, quando a festa estava no auge e ninguém precisava já dela para nada, sentiu o primeiro cansaço e fez o que fazia sempre, começou a ir-se embora em surdina, sem se despedir de cada um para não interromper a festa, com a leveza de quem sai de uma sala sem que a porta range.

Havia, porém, naquela festa, uma exceção, e a exceção tinha oito anos e chamava-se Bento.

Bento era o neto, filho da Belmira, e era, de toda a gente do mundo, a única pessoa que dava pela Plácida. A tarde inteira a procurara, avó, vem ver isto, avó, fica aqui ao pé de mim, e foi ele, e só ele, que a viu sair, e que largou a mesa e correu atrás dela até ao portão do adro.

— Avó, já te vais? — disse, ofegante, agarrado ao gradeamento. — E porque é que não te despedes de ninguém?

Plácida agachou-se ao pé dele, no portão, e deu-lhe um beijo, e disse, com um sorriso, a coisa que dizia sempre, a coisa que era o lema da sua vida inteira, sem perceber, naquele instante, o que estava a confessar a uma criança:

— Não é preciso, meu rico. Para não incomodar. A avó vai-se sem incomodar, que é o melhor que a avó sabe fazer.

E foi-se, no escurecer, e Bento ficou no portão a vê-la ir, e teve, com a sabedoria às vezes terrível das crianças, uma cara séria, de quem não percebeu bem mas percebeu o suficiente para ficar com pena, sem saber de quê.

Esta arte de não pesar, como todas as artes, tinha as suas regras, e Plácida cumpria-as sem nunca as ter escrito, porque as trazia no corpo desde criança. Chegar a ajudar e não a ser servida, para apanhar o trabalho antes de a obrigarem a sentar-se. Não ter preferências, porque quem prefere dá trabalho. E ir-se embora antes de pesar, que havia, em cada visita, um ponto exato a partir do qual a presença começa a custar, e Plácida tinha para esse ponto um faro infalível, e levantava-se sempre um instante antes dele, com a desculpa pronta. Cumprir estas regras a vida toda tinha-lhe custado uma coisa que ela nunca somou: tinha-lhe custado a vida toda. Cada chegada antecipada, cada preferência engolida, cada partida apressada, era um bocadinho de Plácida que não acontecia, e a soma de todos esses bocadinhos, ao fim de sessenta e seis anos, era uma mulher quase inteira por viver, que servira todas as festas e não estivera em nenhuma. Mas isto Plácida não somava, porque tinha, para a sua própria vida, a mesma delicadeza que tinha para a dos outros: não se incomodava a si própria com contas que pesassem.

Era a hóspede perfeita, a amiga perfeita, a doente perfeita. Quando alguém, raramente, reparava em alguma falta dela e se oferecia para a suprir, Plácida tinha sempre, na ponta da língua, as quatro frases da vida dela, ditas tantas vezes que já lhe saíam sozinhas, como sai o respirar: não é preciso, eu arranjo-me, não te incomodes, deixa estar que eu trato disso. E com elas construíra uma muralha à volta de si, cortês e intransponível, que mantinha toda a gente do lado de fora do seu precisar, e que ela tomava por delicadeza e que era, vista de fora, a solidão mais bem-educada que se pode imaginar: a de quem nunca deixa ninguém entrar para ajudar, e fica, por isso, para sempre, do lado de dentro, sozinha, a arranjar-se.

Foi para casa, no fim de tarde de verão, sozinha, e em casa fez o que fazia, deu de comer ao gato, regou os vasos, e sentou-se à porta a ver escurecer, descansada do dever cumprido. E foi ali, à porta, no escurecer, que lhe veio o pensamento que havia de mudar tudo, e veio-lhe não como uma dor, mas como uma curiosidade, quase divertida ao princípio: perguntou-se se alguém, na festa, teria dado pela falta dela.

E soube logo a resposta, e a resposta não a magoou nesse instante, porque era tão antiga, tão sua, que já fazia parte dela: não. Ninguém daria pela falta dela. A festa continuaria igual, com ou sem Plácida, porque Plácida não era na festa uma presença que se notasse pela falta. Era uma ajuda, e as ajudas, quando se vão, deixam mais trabalho para os outros, mas não deixam falta. Quando muito, no dia seguinte, alguém diria a Plácida ajudou tanto, coitada, e seria o elogio do costume, o de sempre: a Plácida não dá trabalho nenhum, nem se dá por ela.

Nem se dá por ela. A frase veio-lhe à boca, à porta, no escuro, e foi a primeira vez na vida que ela a ouviu não como elogio, mas como o que era: uma descrição exata de uma mulher que, à força de não querer pesar, tinha conseguido a proeza terrível de não existir.

Brando, o marido, em vida, tinha sido o único que às vezes a travava. Era um homem manso, dos campos, de poucas palavras, e Plácida lembrava-se de uma festa antiga, há muitos anos, em que andava ela de jarro na mão, de banco em banco, e ele, sentado, a viu passar pela terceira ou quarta vez, e estendeu o braço e segurou-lhe o pulso, devagar, sem força, e disse, baixinho, só para ela:

— Senta-te aqui, mulher. Ao pé de mim. Descansa. Tu serves toda a gente e não paras nunca. Deixa lá o jarro, que o vinho não foge.

E ela sentou-se, por ele, um bocadinho, encostada ao ombro do marido, e ele não disse mais nada, ficou só ali, ao lado dela, contente de a ter sentada, e foi um dos poucos momentos da vida de Plácida em que ela esteve numa festa sem servir. Mas mal o Brando se distraiu numa conversa com um homem ao lado, ela levantou-se outra vez, e pegou no jarro, porque sentada não sabia estar, sentada sentia-se a pesar, e o descanso, para ela, era um desconforto maior que o cansaço. Brando morrera havia uns anos, manso até no morrer, sem dar trabalho, e desde que ele morrera já não havia, em festa nenhuma, quem lhe pegasse no pulso e lhe dissesse senta-te, mulher. Brando fora o último a reparar, e levara consigo, ao morrer, o único par de olhos que via, em Plácida, a mulher por baixo da ajuda.

O gato veio esfregar-se-lhe nas pernas, à porta, a pedir a ceia, e Plácida levantou-se logo, sem hesitar, e foi-lhe pôr a comida na tigela, e tratou da fome do gato antes da sua, como tratava da fome de todos antes da sua, e o gato comeu, e ela ficou a vê-lo comer, e pensou, com um sorriso triste, que até o gato pedia, que até o gato sabia esfregar-se nas pernas de alguém e dizer dá-me de comer, e que ela, em sessenta e seis anos, nunca aprendera a esfregar-se nas pernas de ninguém, nunca aprendera a dizer dá-me, e que era menos do que o gato, nisso, ela que servia a vila inteira.

E houve, ainda nessa noite, um momento pequeno que continha tudo. Plácida foi à cozinha pôr a mesa para o jantar, e pô-la, por hábito de uma vida, para uma pessoa, com um prato só, o dela, ao canto da mesa grande. Tirou da panela o que sobejara do dia, comeu de pé ao princípio, encostada ao balcão, e depois sentou-se ao canto, à pressa, como quem despacha uma formalidade. Não acendeu vela nenhuma. Não pôs toalha. Não se deu o trabalho de uma refeição posta como deve ser, porque achava, sem nunca o ter pensado em palavras, que uma mulher sozinha não merece esse trabalho, que isso é para quem tem companhia, para quem conta. Comia ao canto da própria mesa como se sentava ao canto da mesa dos outros: por toda a parte na ponta, mesmo em sua casa, mesmo sozinha, mesmo sem ninguém para quem se apagar. Tinha-se tornado tão boa a não pesar que se apagava até quando estava só, que se servia por último até quando era a única à mesa, e nem a si própria se dava o trabalho de pôr a mesa como deve ser, porque até a si própria se tratava como tratava tudo o que era seu, como uma coisa que não vale o incómodo.

E à porta, antes de se deitar, foi a cara do neto que lhe ficou, mais do que a pergunta sobre a falta que ninguém daria por ela: a cara séria do Bento no portão, do único ser do mundo que dava por ela, a olhá-la ir embora sozinha, com pena de uma coisa que ele ainda não tinha nome para nomear, mas que Plácida, naquela noite, pela primeira vez em sessenta e seis anos, começou, muito ao de leve, a ter.

· fim da amostra ·

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