A Mulher Que Nunca Teve Frio

Biblioteca de Véspera · o sexto romance

A Mulher Que Nunca Teve Frio

Serafina criou os irmãos desde os onze anos, no inverno em que os pais desceram à serra e não voltaram, e nunca chorou. Toda a gente jura que ela não sente o frio. Mas há um inverno, uma neta, e uma manta — e a frase que ela diz no fim, a primeira em sessenta anos: afinal sempre tive frio.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, na parte das casas do alto, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Serafina, dos Serranos, da casa do alto. Filha de pais que se perderam na serra no Inverno Grande, e que estão assentes neste livro com uma linha de morte e sem cova, porque a neve nunca os devolveu.

Tinha onze anos no inverno em que ficou só com os irmãos pequenos. Criou-os, casou-os, enterrou os que se foram, e segurou a casa do alto sessenta anos, e em sessenta anos ninguém da vila a viu chorar, nem ter frio, nem precisar de nada. Por isso lhe chamavam, e chamam, a mulher que nunca teve frio.

Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem se perdeu na neve. Não dizem o que custa a uma menina de onze anos congelar tudo o que sente para não morrerem todos, nem quanto tempo esse gelo demora a derreter, nem que faz falta, às vezes, uma neta e um inverno inteiro para uma mulher voltar a sentir o frio que sempre teve. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A casa do alto

Na serra, o frio não é uma coisa do tempo: é uma pessoa. Chega no fim do outono, instala-se, e fica até à primavera como um hóspede que ninguém convidou e que se senta à melhor cadeira, e os Serranos, a gente das casas do alto, aprendem desde pequenos a viver com ele, a respeitá-lo, a temê-lo, porque o frio da serra mata, e toda a gente do alto conhece alguém que ele levou. Por isso, nas casas do alto, a lareira é o coração, e acende-se cedo e apaga-se tarde, e a lenha junta-se o verão inteiro a pensar no inverno, e quem sobe à serra no frio leva agasalho a dobrar, que a serra não perdoa a quem a subestima.

Toda a gente, na serra, tem frio. Toda a gente menos Serafina.

Há que dizer, antes de mais, que a lenda da mulher que não sentia o frio não era um disparate da vila, uma invenção de gente crédula: era uma observação, repetida ao longo de décadas, de uma coisa que toda a gente via. Serafina, de facto, não tremia. Estava-se num funeral de inverno, no adro, com toda a gente de casaco e cachecol, batendo os pés no chão para não congelar, e Serafina ali, de xaile fino, direita, sem um arrepio, como se o frio que fazia toda a gente sofrer simplesmente não a alcançasse. Trabalhava no campo, no alto, em dias em que mais ninguém saía de casa, com as mãos nuas na terra gelada, e não se queixava, não esfregava as mãos, não procurava o lume. Atravessava a serra nevada para acudir a um vizinho doente quando mais ninguém se atrevia a sair, e voltava como quem volta de um passeio de verão. Ao longo de sessenta anos, a serra inteira acumulara provas de que a Serafina não sentia o frio, e fizera dela, com essas provas, a lenda da mulher de aço, sem nunca desconfiar de que aquilo não era um dom, era um sintoma; que uma pessoa que não sente o frio que mata os outros não é uma pessoa mais forte, é uma pessoa a quem alguma coisa desligou o alarme do corpo; e que o que a serra admirava como uma virtude sobre-humana era, vista por dentro, a marca de uma ferida muito humana e muito funda, a de quem teve de desligar o sentir para sobreviver, e nunca mais o tornou a ligar.

Era a lenda dela, e era verdade, ou parecia: Serafina, aos setenta e quatro anos, andava de manga curta quando os outros tremiam de casaco; não acendia a lareira senão ao fim da tarde, e mais para a luz do que para o calor; dormia de janela entreaberta no pico do inverno; e quando alguém, a tiritar, lhe perguntava como é que ela aguentava, Serafina encolhia os ombros e dizia que nunca tinha sido de frios, que o frio era para quem o sentia, e seguia a sua vida no alto como se a serra, com ela, fizesse uma exceção. A vila tinha-a por uma maravilha, uma mulher de outra têmpera, uma serrana de aço, e os mais novos olhavam-na com aquele respeito assustado que se tem pelas pessoas que parecem feitas de uma matéria mais dura que a nossa.

Foi para esta casa do alto, e para esta mulher que não sentia o frio, que Neves subiu, no primeiro frio daquele inverno, para passar a estação com a avó.

Neves era da cidade. Era neta de Serafina, filha de um filho de Serafina que descera à cidade em novo, como tantos serranos desceram, e que lá fizera a vida, e Neves crescera no asfalto e no aquecimento central, e do frio só conhecia o que se atravessa entre a porta de casa e a porta do carro. Vinha à serra por uma razão sua, que ao princípio não disse à avó: andava num mau momento, um desencontro na cidade, um trabalho que não dera certo, um amor que se desfizera, uma daquelas alturas da vida em que uma pessoa precisa de sair do sítio onde está para perceber onde quer estar, e alguém, na família, lembrara-se de que a avó Serafina estava cada vez mais velha e sozinha no alto, e que talvez fizesse bem às duas, à velha e à nova, passarem um inverno juntas. E Neves, que não tinha melhor sítio para onde ir, subiu.

Subiu numa tarde de novembro, com o primeiro frio a sério, e chegou à casa do alto a tiritar dentro do casaco da cidade, que na serra não aquecia nada, e encontrou a avó à porta, de manga curta, a parti-la lenha, como se fosse verão.

— Avó, não tem frio? — foi a primeira coisa que Neves disse, antes do beijo, antes de tudo, porque o frio era a primeira coisa que o corpo dela sentia e a avó de manga curta era a primeira coisa que os olhos viam.

— Eu nunca tive frio, minha filha — disse Serafina, e pousou o machado, e abraçou a neta com uns braços fortes que não pareciam de uma mulher de setenta e quatro anos. — Anda, entra, que tu é que vens gelada da cidade. Vou-te acender o lume.

E havia, naquele primeiro abraço, uma coisa que Neves só percebeu mais tarde: que a avó a abraçara com força, mas com um jeito esquisito, como quem não está habituado a abraçar, como quem abraça por dever e não por hábito, com os braços firmes mas o corpo um pouco rígido, sem aquele abandono dos abraços de quem se abraça muito. E Neves, que vinha da cidade onde toda a gente se abraça por tudo e por nada, estranhou aquele abraço de braços fortes e corpo rígido, e guardou-o, sem saber ainda que era mais um indício: que a avó não sabia bem abraçar, que tinha o gesto mas não o abandono, que abraçava como fazia tudo, com competência e sem entrega, e que isso, um abraço sem entrega, era também o gelo a manifestar-se, porque um abraço a sério é uma entrega, é deixar o corpo amolecer contra o outro, e Serafina não amolecia, nem a abraçar, nem nunca, porque amolecer era render-se e render-se era, para ela, a coisa mais perigosa do mundo.

E acendeu. Acendeu a lareira para a neta, com gestos seguros, e em pouco tempo a casa do alto teve no centro o seu coração de fogo, e Neves chegou-se a ele, agradecida, a descongelar as mãos, e reparou numa coisa que havia de reparar muitas vezes ao longo daquele inverno: que a avó acendera o lume e se afastara dele, que ficara a tratar das suas coisas longe da lareira, perto da janela entreaberta, no frio, como se o calor fosse uma coisa para os outros, uma coisa que ela fazia para quem precisava e de que ela própria não precisava. A lareira era para a neta. A avó não se aquecia à sua própria lareira.

A casa do alto era como a avó: forte, despida, sem nada a mais. Paredes de pedra grossa, poucos móveis, tudo no sítio, tudo funcional, nada de supérfluo, nada de mimo. Era uma casa feita para aguentar o inverno, não para o adoçar, e Neves, habituada ao conforto da cidade, sentiu ao princípio uma aspereza naquilo, e só ao longo do inverno percebeu que a casa era um retrato da avó: uma fortaleza, construída para resistir, onde tudo o que era frágil ou supérfluo ou suave tinha sido posto de parte havia muito, porque na serra, e na vida de Serafina, o frágil não sobrevivia.

Os primeiros dias na casa do alto foram, para Neves, uma aprendizagem do silêncio. Na cidade, Neves vivia rodeada de ruído, o trânsito, as vozes, o telemóvel sempre a vibrar, e o ruído tinha sido, percebia-o agora, uma maneira de não se ouvir a si própria, de tapar com som o desencontro que a trazia à serra. Na casa do alto não havia ruído nenhum: havia o vento, o estalar da lenha no lume, o silêncio fundo da neve, e nesse silêncio Neves foi-se ouvindo, aos poucos, a si própria, e o que se ouviu não foi agradável ao princípio, porque eram as perguntas que ela tinha descido à serra para fugir e que a serra, com o seu silêncio, lhe devolvia inteiras. Por que é que o amor se desfizera. Por que é que o trabalho não dera certo. Por que é que ela, aos vinte e seis anos, andava pela vida como quem anda por um corredor à procura de uma porta que não encontra. A serra não respondia a estas perguntas, mas também não as deixava fugir, e Neves percebeu, nos primeiros dias, que tinha vindo para um sítio onde ia ter de as enfrentar, e que talvez tivesse sido por isso, no fundo, que viera, ainda que ninguém o tivesse dito assim.

E havia a avó, aquela presença de pedra que era, ela própria, uma pergunta. Neves passava os dias a observá-la, com a curiosidade de quem tem pouco mais que fazer e com o fascínio de quem reconhece, no outro, um enigma parecido com o seu. Porque Neves, à sua maneira nova e urbana, também era uma que não sentia, ou que tinha aprendido a não sentir: o desencontro da cidade tinha-a deixado a funcionar a frio, a fazer os dias por hábito, a não chorar o que havia para chorar, a aguentar de pé como se aguentar de pé fosse a única coisa que se pode fazer. Eram, a velha e a nova, duas geladas, cada uma do seu gelo, cada uma da sua serra, e Neves ainda não sabia, naqueles primeiros dias, que tinha subido à casa do alto não só para ajudar a avó a descongelar, mas para descongelar também, e que as duas, sem o planearem, se iam aquecer uma à outra ao longo daquele inverno, a velha a ensinar a nova que sempre se tem frio, a nova a ensinar a velha que o frio se pode dizer.

Naquela primeira noite, à lareira, Neves a aquecer-se e Serafina sentada um pouco afastada, a remendar uma meia à luz do fogo mais do que ao calor dele, Neves olhou para a avó, para aquela mulher de setenta e quatro anos, forte, seca, de manga curta no frio da serra, e fez a si própria a pergunta que havia de a ocupar o inverno inteiro, e que era uma pergunta a sério, não uma maneira de falar: o que é uma mulher que não sente o frio? Como é que se chega a não sentir o frio? Ninguém nasce sem sentir o frio. O frio sente-se, é do corpo, é de toda a gente. Uma mulher que não sente o frio é uma mulher a quem aconteceu alguma coisa, algures, que lhe desligou o sentir, e Neves, olhando a avó à luz do lume, com a curiosidade das pessoas novas e a intuição das que andam, elas próprias, a tentar perceber-se, pressentiu que por baixo da lenda da mulher de aço havia uma história, e que a história tinha que ver com o frio, e que ela, naquele inverno, talvez a viesse a desenterrar, sem ainda saber que ao desenterrar a história da avó ia também, sem querer, aquecer-se a si própria, que descera à serra gelada de uma maneira que não era a do corpo.

Nos primeiros dias, Serafina mostrou a Neves a serra, e foi nessas voltas que Neves começou a perceber a avó. Serafina conhecia cada palmo do alto: sabia onde a água nascia mesmo no gelo, que ervas se colhiam para que mal, onde o lobo passava no inverno, que nuvem trazia neve e qual só trazia frio, e ensinava tudo isto à neta com uma competência seca, sem ternura mas sem impaciência, como quem passa um saber que pode salvar uma vida, que na serra é o que os saberes são. E Neves reparou que a avó, nessas voltas, nunca se queixava: não se queixava do frio, nem do cansaço, nem da subida que já lhe custava aos setenta e quatro, nem dos joelhos que Neves a ouvia estalar. Andava pela serra como se o corpo não tivesse direito a queixas, como se queixar-se fosse uma fraqueza que a serra não perdoava, e Neves, que na cidade se queixava de tudo, do frio, do cansaço, da vida, viu naquela mulher que não se queixava de nada não uma virtude a imitar, mas um aviso: uma pessoa que não se queixa de nada é uma pessoa que desligou o queixar-se, e desligar o queixar-se é desligar o sentir, e desligar o sentir é uma maneira de já não estar bem vivo.

Houve uma volta, na primeira semana, em que passaram por uns penedos altos, e Serafina parou, e olhou para um sítio na encosta, e Neves percebeu, pela cara da avó, que aquele sítio tinha história. Perguntou, e Serafina disse só, com a secura do costume, foi por aqui que os meus pais subiam, da vila para o alto, e seguiu, sem mais nada, e Neves percebeu que tinha passado, sem saber, pelo caminho onde os bisavós se tinham perdido na neve, e que a avó passava por ali, calada, talvez todas as semanas, há sessenta e três anos, sem nunca se permitir parar e sentir o que aquele sítio guardava. E guardou aquilo, o penedo, o caminho dos pais, como mais um indício do gelo, e pressentiu que naquele inverno, se calhar, ia ter de voltar àquele sítio com a avó, e que dessa vez talvez a avó parasse, enfim, e sentisse.

E Serafina, do seu sítio afastado do lume, remendava a meia, e não sentia o frio da serra que entrava pela janela entreaberta, e não sabia, ainda, que tinha subido à casa do alto, naquele inverno, a única pessoa do mundo capaz de a fazer sentir, enfim, depois de sessenta e três anos, o frio que ela jurava não ter.

· fim da amostra ·

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