O Homem das Cheias

Biblioteca de Véspera · o quarto romance

O Homem das Cheias

Rosário ama um homem que aparece com as águas grandes e desaparece com elas. Do lado de cá há outro, o que fica, e o que fica não lhe acende nada. Este é o ano em que aprende a diferença entre amar a falta e ver o amor que está presente.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Rosário, filha de Vado e de Lembrança, nascida na margem de cá, do lado da vila, num inverno de águas grandes.

O pai, Vado, homem de feiras, que atravessava o mundo a comprar e a vender e voltava com as estações, e que está assente neste livro como casado e como ausente, que foi o que mais foi.

A mãe, Lembrança, que o esperou à janela a vida inteira, e que da espera fez o seu ofício, e do ofício a sua sina.

Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem partiu e quando. Não dizem quem foi amado de perto e quem foi amado de longe, nem porque é que há corações que só sabem acender-se com a porta a fechar-se. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

O homem das cheias

Rosário sabia que as águas vinham antes de o rio o saber.

Sentia-as no corpo, dois ou três dias antes, como as velhas da serra sentem a chuva nos joelhos: uma inquietação que lhe subia pelas pernas, um não conseguir estar sentada, um ir à janela sem motivo e ficar a olhar a outra margem, do lado de lá do Fundo, onde os campos se perdiam na bruma e onde morava, entre as outras coisas de lá, o homem que só o rio cheio lhe trazia. A vila dizia que Rosário pressentia o tempo. Não pressentia o tempo. Pressentia Aniceto, e Aniceto vinha com as águas, e por isso as águas e Aniceto eram, no corpo dela, a mesma coisa: a subida do rio era a subida dele dentro dela, e os dois cresciam juntos, todos os invernos, desde os seus vinte anos.

Aquele inverno não foi diferente. Choveu na serra três dias seguidos, lá em cima, onde a vila não via mas o rio sabia, e ao quarto dia o Fundo começou a engrossar, a mudar de cor, a trazer ramos e espuma, e a Ponte, a velha Ponte de pedra reconstruída depois das Cheias Grandes, ficou primeiro com a água a lamber os pegões e depois com a água por cima do tabuleiro, e a vila ficou cortada ao meio, a margem de cá da margem de lá, como ficava todos os invernos quando as águas eram grandes.

E foi então, com a Ponte debaixo de água, que Aniceto veio.

Veio como vinha sempre: de barco, contra a corrente, com aquela perícia que era metade coragem e metade exibição, remando de pé a certas alturas, a rir-se do rio, a fazer da travessia perigosa um número de feira. A vila inteira saiu às janelas e às portas a vê-lo atravessar, porque a travessia de Aniceto nas águas grandes era um dos espectáculos do inverno em Véspera, e havia quem dissesse que era um louco e quem dissesse que era um valente, e os dois tinham razão, e Rosário, à janela da sua casa da margem de cá, com o coração a bater-lhe na garganta, não dizia nada, porque para ela não era espectáculo nenhum: era a vida a recomeçar.

Ele saltou para terra, na margem de cá, molhado até aos ossos, a rir, e a primeira coisa que fez, antes de cumprimentar fosse quem fosse, foi procurar com os olhos a janela de Rosário. Sabia onde ela estava. Sabia sempre onde ela estava. E quando a viu, fez-lhe o gesto de sempre, um gesto pequeno, só para ela, uma mão aberta no ar, e Rosário, dos vinte aos trinta e quatro anos, derretia-se inteira por aquele gesto, todos os invernos, sem falta.

— Vieste — disse ela, mais tarde, quando ele apareceu à porta, a pingar, com o riso fácil e os olhos da cor do rio.

— Vim, que o rio me trouxe. — Era a frase dele. Dizia-a sempre. O rio me trouxe, como se ele não tivesse vontade própria, como se fosse uma coisa que as águas faziam, e não um homem que escolhia vir. — Não te ia deixar passar o inverno sozinha, Rosário.

E entrou, e a casa de Rosário, que durante os meses sem ele era uma casa apagada, acendeu-se toda, e durante os dias que as águas grandes durassem ia ser assim: Rosário viva, Rosário inteira, Rosário a rir e a cozinhar e a cantar baixinho, uma mulher que ninguém reconheceria como a mesma que andava pela vila, fora das cheias, com o passo lento de quem anda à espera.

É preciso dizer, em abono da verdade e de Rosário, que Aniceto não a enganava. Nunca lhe prometera ficar, nunca lhe dissera que era só dela, nunca fingira ser outra coisa que o que era: o homem das cheias, o que vinha com as águas e ia com elas. O engano, se houve engano, foi todo de Rosário para consigo própria: foi ela que pegou num homem de passagem e fez dele um amor de vida, foi ela que transformou as promessas vagas dele em sementes, foi ela que se instalou na espera e chamou a isso amor. Aniceto era o que era, e era-o à vista de toda a gente, com uma honestidade quase cruel de tão clara; Rosário é que precisava de o ver de outra maneira, porque precisava de alguém por quem esperar, e Aniceto servia, porque vinha e ia na medida certa para alimentar uma espera sem fim. Eram, os dois, perfeitos um para o outro na doença: ele precisava de margens que o esperassem para poder partir, ela precisava de um homem que partisse para poder esperar, e encaixavam como encaixa uma chave numa fechadura, e tinham encaixado catorze anos, e podiam ter encaixado a vida inteira, dois doentes a alimentarem-se da doença um do outro, se uma coisa pequena, naquele inverno, não tivesse começado a desencaixá-los: o facto de Rosário, pela primeira vez, ter começado a desconfiar de que estava doente.

Houve, naquele primeiro inverno da história, uma noite que ficou, e que era o retrato de todas. Aniceto tinha trazido, da outra margem, uma garrafa de uma aguardente que se fazia lá, e acendeu o lume alto, e contou, até de madrugada, a história de uma travessia que fizera anos antes, num rio muito maior que o Fundo, numa terra de que Rosário nunca ouvira o nome, onde as águas levavam casas inteiras e ele, Aniceto, salvara não sei quantas pessoas, remando não sei quantas horas. Rosário ouviu, com os olhos a brilhar do lume e da aguardente e dele, e a história era bonita, e ela acreditou nela toda, e só anos depois, ao recordá-la, é que reparou numa coisa: que era sempre uma história de outro sítio, de outro rio, de outro tempo. Aniceto nunca contava o presente. Contava sempre o longe e o antes. A vida dele acontecia sempre noutro lado, e o sítio onde ele estava, fosse qual fosse, era só o palco de onde contava os outros sítios. E Rosário, nessa noite, deu por si a desejar ser uma dessas histórias, a desejar ser o longe e o antes de Aniceto nalguma noite futura, ao pé de outro lume, contada a outra mulher: porque percebia, sem o saber dizer, que era assim que Aniceto amava as coisas, depois de as deixar, transformadas em história, e que estar presente, ao pé dele, era estar no único sítio onde ele não sabia amar, que era o agora.

— E não te cansas, Aniceto? — perguntou ela, nessa noite, meio a brincar. — De andar sempre de um lado para o outro? Não te apetece, um dia, parar?

— Parar é morrer, Rosário — disse ele, e disse-o a rir, mas a sério. — O rio que para apodrece. Eu sou como o rio. Tenho de correr, senão apodreço.

E Rosário achou aquilo bonito, nessa noite, e guardou-o como se guarda uma verdade. Só muito mais tarde, ao pé de Justino, é que havia de aprender o resto da frase que Aniceto não sabia: que o rio que corre também se vai, e que para a água não se perder é preciso um leito que fique, e que ficar não é apodrecer, ficar é o trabalho mais difícil que há, e que quem chama morte ao ficar é só porque nunca teve coragem de o tentar.

Os dias de Aniceto eram dias de festa. Ele trazia histórias da outra margem e de mais longe, dos sítios por onde andava quando não estava ali, e contava-as bem, com graça, e cada história tinha nela um perigo vencido, um rio atravessado, uma noite ao relento, e Rosário ouvia-as como quem ouve música, e nunca, em catorze anos, lhe ocorreu perguntar a si própria por que é que todas as histórias de Aniceto eram de partidas e nenhuma era de chegadas. Ele cozinhava com ela, dormia com ela, enchia-lhe a casa de uma alegria barulhenta, e à noite, deitados, ele falava do que iam fazer juntos um dia, quando, um dia em que a vida assentasse, um dia que estava sempre do outro lado de qualquer coisa, e Rosário adormecia nesse um dia como se adormece num conto, sem reparar que o conto nunca passava da promessa.

Para entender o que aqueles dias eram para Rosário, é preciso saber o que eram os outros, os onze meses sem cheias, porque uma coisa só se mede pela outra. Fora das águas grandes, Rosário era uma mulher apagada. Levantava-se, tratava da horta e das galinhas, ia ao largo, à fonte, à Mercearia da Benvinda, fazia o que as mulheres da vila faziam, e fazia-o com as mãos e com meio corpo, porque a outra metade estava sempre virada para dentro, para a espera. Comia pouco. Dormia muito, ou mal. Tinha conversas em que estava e não estava, e a vila habituara-se a vê-la assim, lenta, ausente, e dizia, com aquela bondade áspera das vilas, lá vai a Rosário a contar os dias. E contava. Tinha na cabeça, sem precisar de calendário, a conta dos meses até ao inverno, até às chuvas da serra, até às águas que lhe traziam o homem e a vida, e vivia os onze meses como quem vive numa sala de espera de médico: o corpo na cadeira, a alma no que há de vir.

E depois vinham as águas, e a mulher apagada acendia-se de uma maneira que assustava quem a visse pela primeira vez. Era como se lhe ligassem uma luz por dentro. Comia, ria, cantava, tinha cor nas faces, falava depressa, dormia pouco por não querer perder os dias contados. A Benvinda, da Mercearia, que a conhecia desde miúda, dizia que havia duas Rosários, a do verão e a do inverno, e que lhe custava a crer que fossem a mesma mulher, e tinha pena das duas: da de inverno, que ardia depressa de mais, e da de verão, que se apagava devagar de mais. Mas ninguém dizia nada a Rosário, porque o amor de Rosário por Aniceto era, na vila, uma dessas coisas que se respeitam e se lamentam ao mesmo tempo, como uma devoção a um santo que não faz milagres.

A vila olhava aquilo de lado. A vila gostava de Aniceto como se gosta de uma festa: enquanto dura. Mas a vila também via o resto, via Rosário nos meses sem cheias, e havia quem abanasse a cabeça e dissesse, baixo, que aquilo não era vida para uma mulher, viver de inverno em inverno como o rio, cheia e seca, cheia e seca, à espera de um homem que era mais das águas que dela.

Quem mais o via era Justino.

Justino era da margem de cá, da vila, e trabalhava o rio: era dos homens que cuidavam da Ponte, que a vigiavam nas cheias, que sabiam quando ela aguentava e quando não, e que nos invernos das águas grandes não dormiam, porque a Ponte era a vida da vila e a Ponte nas cheias era um animal que era preciso vigiar. Justino conhecia Rosário desde sempre, desde miúdos, da escola, do largo, e havia nele, por ela, uma coisa antiga e calada que a vila toda via menos ela. Mas Justino não era homem de gestos no ar nem de histórias de perigos vencidos. Era homem de estar. E o que está, em Véspera como em toda a parte, não dá nas vistas.

Naquela tarde, com Aniceto já instalado em casa de Rosário e as águas no auge, Justino apareceu à porta dela, encharcado, com uma corda ao ombro, no meio do trabalho da cheia.

— Rosário. — Cumprimentou-a, e cumprimentou Aniceto com a cabeça, sem calor nem frieza. — A tua eira está a alagar do lado do muro. Se não desviares a água, perdes o que lá tens. Eu abria-te ali um rego, se quiseres, que isto da minha parte está seguro por agora.

E sem esperar muita resposta, foi, com a enxada, abrir o rego que havia de salvar o que Rosário tinha na eira, debaixo da chuva, enquanto Aniceto, lá dentro, acendia o lume e contava uma história de uma cheia muito maior que vira não sei onde. Rosário ficou à porta um momento, entre os dois: o de dentro, ao lume, a contar; o de fora, à chuva, a cavar. E não sentiu nada de especial pelo de fora. Agradeceu-lhe, distraída, com a cabeça já a voltar para dentro, para o lume e para a história, e Justino acabou o rego, e foi-se, sem esperar mais agradecimento, para o seu trabalho da Ponte, e Rosário fechou a porta e voltou para Aniceto e nem reparou que o de fora se tinha ido.

Era assim. O que vinha com as águas acendia-a inteira; o que estava sempre, esse não a acendia nada, e ela não sabia porquê, e nem sequer punha a pergunta, porque para Rosário era a coisa mais natural do mundo: Aniceto era o amor, com o seu fogo, as suas vindas, as suas saudades enormes; e Justino era Justino, era a Ponte, era a margem de cá, era uma coisa que estava ali como estavam as pedras e o rio, útil e calada e sem mistério nenhum.

Se alguém a fizesse parar, naquele inverno, e lhe perguntasse o que era o amor, Rosário teria respondido sem hesitar, com a certeza de quem repete uma verdade aprendida no berço: o amor é a falta. É a saudade. É a casa que se acende quando ele chega e se apaga quando ele parte. É o coração aos pulos a adivinhar as águas. É amar tanto uma pessoa que doi quando ela não está. E nunca, nesta definição, lhe ocorreria pôr a paz, o sossego, o estar bem ao lado de alguém sem alarme nenhum. Para Rosário, isso não era amor: era o que havia entre vizinhos, entre irmãos, entre uma mulher e a Ponte. O amor, o a sério, tinha de doer, tinha de faltar, tinha de partir para poder voltar. Um amor que não partisse, que estivesse sempre, que não desse saudade, esse nem nome teria no dicionário do coração de Rosário, porque ninguém lho ensinara, porque a mãe não o tivera, porque em quatro gerações de mulheres daquela casa nunca houvera uma que amasse um homem que ficava, e o que não se viu não se sabe nomear.

E no entanto, naquele inverno, uma coisa pequena ficou. Quando Justino abriu o rego que salvou a eira, Rosário, da porta, viu-lhe as mãos. Foi um instante só, e ela nem reparou que reparara, mas as mãos de Justino, a cavar à chuva, eram umas mãos certas, calmas, que sabiam exatamente onde a água queria ir e por onde a desviar, e havia nelas uma espécie de bondade prática, uma bondade que não se anunciava, que só fazia. E qualquer coisa, no fundo de Rosário, num sítio onde ela não ia nunca, registou aquelas mãos, e guardou-as, sem que a cabeça soubesse, para um dia em que viessem a fazer falta.

A Ponte, naquele primeiro capítulo da história, era ainda só a Ponte, o sítio por onde se atravessava, e Rosário não lhe dava mais atenção do que se dá a uma coisa de todos os dias. Mas a Ponte havia de ser, no fim, o sítio mais importante da vida dela, e talvez por isso valha a pena dizer, já agora, o que ela era. Era de pedra, baixa, larga, com três arcos, reconstruída depois das Cheias Grandes que tinham levado a antiga, há cinquenta anos, e tinha, a meio, no ponto mais alto, um alargamento, uma espécie de varanda sobre o rio, onde as pessoas paravam a ver a água, a conversar, a namorar. Era o coração da vila, mais do que o largo, porque o largo era de cada margem, e a Ponte era das duas, era o sítio onde as duas margens deixavam de ser duas. Quem estava na Ponte não estava nem de um lado nem do outro: estava no meio, no único sítio de onde se viam as duas margens ao mesmo tempo. E havia de ser exatamente isso, estar a meio da Ponte e ver as duas margens, o gesto que ia salvar Rosário, anos depois, mas naquele inverno a Ponte era só a Ponte, e Rosário atravessava-a sem reparar, com os olhos sempre na margem de lá, sem saber que o sítio onde ela tinha de aprender a parar não era nenhuma das margens, mas o meio, o alto da Ponte, o lugar de Justino.

Naquela noite, deitada ao lado de Aniceto adormecido, Rosário fez uma coisa que fazia sempre que ele estava: ficou acordada a olhá-lo dormir, para não perder nem um bocado da presença dele, porque sabia que era curta, que as águas iam baixar, que ele ia partir, e que depois vinham os meses do vazio. E foi nessa noite, talvez pela primeira vez em catorze anos, que um pensamento pequeno e incómodo lhe atravessou o sossego: o de que ela amava mais Aniceto a dormir, prestes a partir, do que o amaria se ele ficasse para sempre. O de que era a partida iminente que tornava aquela presença tão preciosa. O de que, se Aniceto dissesse, naquela noite, fico, fico para sempre, fico aqui na margem de cá contigo, talvez a casa se apagasse, talvez ele virasse Justino, uma coisa que está e por isso não conta.

Afastou o pensamento, que era feio e a assustava. Encostou-se a ele, ao calor dele, e adormeceu, e sonhou, como sonhava sempre nas noites das cheias, com a outra margem na bruma, do lado de lá do rio, onde tudo o que ela amava morava sempre a ponto de chegar ou a ponto de partir, e nunca, nunca, simplesmente ali.

· fim da amostra ·

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