
Biblioteca de Véspera · o sétimo romance
Enquanto a Fábrica Dorme
Durante quarenta e três anos, Libânia acordou às cinco da manhã para abrir a Fiandeira, a fábrica que era a sua vida. Depois a fábrica fechou, de vez, e o corpo continuou a acordar às cinco — só que já não há para onde ir. Sem trabalho, Libânia não sabe a que horas existe, nem quem é debaixo da encarregada. É a história de uma mulher que confundiu fazer com valer, e que só aprende a diferença quando lhe tiram o fazer: existes antes de fazeres seja o que for.
Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.
Do registo de Véspera
No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:
Libânia, filha de gente da vila, nascida numa casa pobre com bocas a mais. Foi operária e depois encarregada da Fiandeira, a fábrica de lanifícios à beira do rio, e segurou-a em todos os fechos anunciados, até ao fecho que não teve volta.
O nome foi promessa, das de Véspera: nasceu num ano de fome, e a mãe quis que ela tivesse o nome de uma coisa que ardesse e perfumasse, o incenso que se queima e sobe, na esperança de que a filha valesse, um dia, mais do que a casa podia dar-lhe à nascença.
Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem partiu. Não perguntam a ninguém o que fez para merecer a sua linha, porque a linha é de quem nasceu, e não de quem trabalhou. Não dizem o que custa a quem confundiu, uma vida inteira, fazer com valer, nem o que sobra de uma pessoa quando lhe tiram o fazer e ela tem de descobrir, do fundo, se ainda vale. Para isso são precisos os livros como este.
capítulo um
As cinco da manhã
Durante quarenta e três anos, Libânia acordou às cinco da manhã, e durante quarenta e três anos não precisou de despertador, porque o corpo dela tinha a fábrica dentro, e a fábrica acordava-a.
Era uma coisa que ela nem pensava, de tão sua: às cinco, os olhos abriam-se no escuro, e antes de a cabeça saber o que quer que fosse, o corpo já sabia que era dia de Fiandeira, que havia o turno para abrir, as máquinas para pôr a andar, as operárias para receber, e Libânia levantava-se, no escuro, e a vida começava, e começava com ela, porque era a encarregada, era a primeira a chegar e a última a sair, era a que abria a fábrica e a que a fechava, a que tinha a chave e a responsabilidade e o lugar. As cinco da manhã eram dela e da Fiandeira, e as duas coisas, durante quarenta e três anos, foram a mesma coisa.
Os gestos eram sempre os mesmos, e eram tantos que já não os contava: levantar-se sem acender a luz para não gastar, vestir a roupa que deixava na cadeira pela ordem certa, a meia primeiro, o lenço por último, beber o café à pressa de pé na cozinha, sair de casa quando a vila ainda dormia e a única coisa acordada era ela e, lá em baixo, a água do rio. Descia a calçada no escuro de olhos fechados que sabia onde punha os pés, chegava ao portão da Fiandeira antes de qualquer outra alma, metia a chave grande na fechadura grande, e havia naquele gesto, no ranger do ferrolho a ceder, uma satisfação funda que ela nunca explicara a ninguém porque nunca a ninguém ocorreria perguntar: a satisfação de ser a que abre, a que faz começar o dia para as outras, a que chega primeiro ao sítio onde é precisa. Acendia as luzes do pavilhão uma a uma, e o pavilhão vazio acendia-se à frente dela, as máquinas paradas à espera, e Libânia andava por entre elas no silêncio anterior ao trabalho, e era o único momento do dia em que a fábrica era só dela, antes de as operárias chegarem, e ela gostava daquele silêncio como se gosta de uma coisa secreta.
Conhecia as máquinas como se conhece gente. Sabia qual delas chiava de manhã antes de aquecer, qual puxava o fio com mais força, qual era de feitios e parava sem razão e só ela sabia onde lhe bater para tornar a andar. Dera-lhes nomes, em rapariga, e os nomes tinham pegado, e ainda agora as operárias novas falavam da Teimosa e da Mansa sem saberem que fora Libânia, aos quinze anos, a baptizá-las. Punha-as a andar uma a uma, na ordem certa, e quando a última arrancava e o pavilhão inteiro trepidava com o barulho que para os de fora era infernal e para ela era música, Libânia sentia uma coisa parecida com o que outras sentem na missa: que estava no seu lugar no mundo, a fazer aquilo para que servia, e que tudo, naquele momento, estava como devia estar.
A Fiandeira era a fábrica de lanifícios da vila, à beira do rio, a jusante, e era mais do que uma fábrica: era o coração que dava trabalho a meia Véspera, o sítio onde as raparigas entravam aos doze ou treze anos e saíam velhas, o ritmo que marcava os dias da vila com os seus apitos e os seus turnos. Quem nascia em Véspera nascia à sombra da Fiandeira, e a maior parte ia parar a ela, e Libânia fora uma dessas, entrara menina e subira, ao longo de uma vida, de fiandeira a encarregada, a única mulher a chegar a encarregada na história da fábrica, e tinha disso um orgulho que era a coisa mais funda da vida dela, mais funda que tudo, porque era a prova de que ela, a menina pobre da casa das bocas a mais, tinha chegado a ser alguém.
E chegar a encarregada custara-lhe o que custa a uma mulher chegar onde só homens chegavam. Tinham-lhe feito a vida difícil, ao princípio, os que achavam que uma mulher não mandava em homens, e Libânia tinha-lhes respondido da única maneira que sabia, que era trabalhar mais do que todos, chegar mais cedo do que todos, sair mais tarde do que todos, nunca falhar um dia, nunca dar uma desculpa, nunca dar a ninguém o gosto de a apanhar em falta. Provara, e provara, e provara, até já não haver ninguém na Fiandeira que se atrevesse a dizer que ela não merecia o lugar, e o lugar fora dela por mérito de uma vida inteira de não falhar, e ela sabia-o, e era esse o orgulho, mas era também, sem ela alguma vez lhe ter chamado isso, a corrente: porque uma mulher que conquistou o lugar por nunca falhar é uma mulher que não se pode permitir falhar nunca mais, e Libânia, ao subir a encarregada, prendera-se a si própria a uma vida em que parar, descansar ou simplesmente ser, sem produzir, se tornara impossível, porque tudo o que ela era assentava em fazer, e fazer melhor, e fazer mais do que qualquer um.
A Fiandeira andava mal havia anos. As fábricas de lanifícios das vilas andavam todas mal, esmagadas pelo que vinha de fora, mais barato, e a Fiandeira fora segurando, fecho anunciado atrás de fecho anunciado, e em cada anúncio de fecho Libânia e a Preciosa, a outra que segurava a fábrica, tinham puxado por tudo, tinham apertado, tinham aguentado, e a fábrica não fechara, e Libânia tinha disso também um orgulho, o de ser das que seguravam, das que não deixavam morrer.
A Preciosa fora a sua companheira nesses anos de segurar. Eram de feitios opostos, a Preciosa branda onde Libânia era dura, a rir onde Libânia apertava os lábios, mas tinham, as duas, a mesma teimosia de não deixar morrer a fábrica, e em cada fecho anunciado fechavam-se as duas no escritório pequeno a fazer contas até de madrugada, a cortar aqui, a esticar ali, a inventar maneiras de a Fiandeira aguentar mais um ano, mais um inverno, mais um fôlego. E aguentara, ano após ano, e cada vez que o fecho era desanunciado as duas saíam do escritório de olheiras e davam-se as mãos sem dizer nada, e Libânia, que nunca fora de abraços, deixava-se abraçar pela Preciosa naquelas madrugadas, porque eram as únicas em que ela baixava a guarda, as únicas em que admitia, sem o dizer, que segurar a fábrica era também segurar-se a ela própria, que sem a Fiandeira ela não saberia o que fazer das mãos, nem das cinco da manhã, nem da vida.
Mas há fechos que têm volta e há o fecho que não tem, e o fecho que não tem chegou naquele inverno, e chegou de uma maneira banal, como chegam as coisas grandes: um papel, uma reunião, uns homens de fora a explicar números, e a Fiandeira, ao fim de mais de cem anos, fechava de vez, e desta vez não havia aperto que a segurasse, não havia fecho anunciado que se pudesse desanunciar, era o fim, e Libânia ouviu-o na reunião, de pé, como ouvia tudo, e não disse nada, porque a encarregada não chora à frente das operárias, e foi para casa, naquela última tarde, com a chave da fábrica no bolso, a chave que ia ter de entregar, e foi a coisa mais pesada que alguma vez levou no bolso.
A Preciosa, dessa vez, não fez contas. Sentou-se com Libânia no escritório pequeno, como em todos os fechos anunciados, mas dessa vez não havia o que cortar nem o que esticar, e as duas ficaram ali caladas, com os papéis fechados à frente, e foi a Preciosa quem disse, ao fim de muito silêncio, o que Libânia não conseguia dizer: acabou, Libânia. Desta não há. E acrescentou, com uma brandura que doeu mais do que qualquer número: e tu vais ter de aprender a viver sem isto, que é a coisa que tu nunca soubeste fazer. A Preciosa tinha filhos, netos, uma horta, uma vida do lado de fora da fábrica para onde recuar; Libânia tinha a fábrica, e debaixo da fábrica não sabia se tinha alguma coisa, e foi isso, mais do que o fecho, que a Preciosa lhe pôs à frente naquela tarde, sem maldade, com pena: que ela, das duas, era a que ia ficar mais sozinha quando as luzes se apagassem, porque era a que mais inteira se tinha dado àquele sítio.
A última semana foi de desmontar uma vida. Pararam-se as máquinas, uma a uma, e o silêncio que se fez na Fiandeira, depois de quarenta e três anos de barulho, foi uma coisa que Libânia não esquecera: uma fábrica calada é um cadáver, e ela andou por aquele cadáver, nos últimos dias, a despedir-se das máquinas que conhecia uma a uma, a recolher as coisas das operárias que choravam, a ser a encarregada até ao fim, a segurar todos enquanto se desfazia por dentro.
Parar as máquinas foi o pior. Sempre que se parava uma, no último dia, fazia-se um bocado mais de silêncio no pavilhão, e Libânia ia notando o barulho a morrer aos poucos, máquina a máquina, até que parou a última, a Teimosa, a que ela baptizara aos quinze anos, e quando a Teimosa parou fez-se na Fiandeira um silêncio que Libânia nunca tinha ouvido, porque em quarenta e três anos nunca estivera na fábrica em silêncio total com as luzes acesas, e aquele silêncio foi a coisa mais parecida com a morte que ela alguma vez sentira, um silêncio que tinha peso, que enchia o pavilhão como a água enche um tanque, e as operárias, que estavam todas paradas a ver, começaram a chorar baixinho, e Libânia não chorou, porque a encarregada não chora à frente das operárias, mas por dentro qualquer coisa parou com a Teimosa, qualquer coisa nela que andava havia quarenta e três anos também se calou e ficou em silêncio, e ela não sabia, ainda, que esse silêncio de dentro ia durar todo o inverno.
E no último dia, fechou a fábrica, virou a chave na fechadura grande, e entregou a chave ao homem de fora, e foi como entregar um filho, ou um braço, ou o próprio nome, e voltou para casa, naquela última noite, já sem fábrica, já só Libânia, e não soube quem era essa Libânia sem fábrica, porque havia quarenta e três anos que ela era a encarregada da Fiandeira e nunca, em quarenta e três anos, tinha sido outra coisa.
E na manhã seguinte, a primeira manhã da sua vida sem fábrica, aconteceu a coisa que ia dar nome ao livro: Libânia acordou às cinco.
Acordou às cinco, no escuro, como acordara quarenta e três anos, e o corpo levantou-se, e começou a fazer os gestos do costume, e foi só a meio do primeiro gesto, já de pé, já a vestir-se no escuro, que a cabeça apanhou o corpo e lhe disse: não há fábrica. Não há turno para abrir. Não há para onde ir. E Libânia ficou parada, no escuro do quarto, meio vestida, às cinco da manhã, com o corpo todo pronto para uma vida que tinha acabado, e foi aí, nessa paragem, que sentiu pela primeira vez a coisa que ia viver os meses seguintes: o vazio. Não o vazio de não ter que fazer, que esse era só o princípio. O vazio de não saber a que horas existia. Porque às cinco da manhã, durante quarenta e três anos, Libânia tinha existido por ter para onde ir, e agora, às cinco da manhã, sem fábrica, sem turno, sem chave, Libânia não sabia se existia, não sabia o que era uma Libânia que acorda às cinco e não tem para onde ir, não sabia quem ficava de pé no escuro do quarto quando se tirava a encarregada da Fiandeira.
A casa, à sua volta, estava em silêncio, e era um silêncio que Libânia, pela primeira vez, ouviu de verdade. Em quarenta e três anos, àquela hora, ela já ia a caminho, e a casa ficava para trás, vazia, e ela nunca a vira assim, parada, às cinco da manhã, com ela própria dentro. Olhou em volta, no escuro que clareava devagar, e a casa pareceu-lhe estranha, quase desconhecida, como se a visse pela primeira vez, e era verdade que de certa maneira a via pela primeira vez, porque sempre a habitara de passagem, à pressa, entre turnos, e nunca estivera nela àquela hora, demoradamente, a olhá-la. Os móveis, as paredes, as coisas todas que eram suas e que ela quase não conhecia porque nunca tivera tempo de as olhar. E pensou, com um arrepio, que ia ter de aprender a viver dentro daquela casa que mal conhecia, com aquela mulher que mal conhecia, que era ela própria, e que tinha pela frente, de repente, um cara a cara com a sua casa e consigo a que fugira a vida inteira a correr para a fábrica.
Sentou-se na cama, meio vestida, no escuro, às cinco da manhã, e ficou ali muito tempo, sem se acabar de vestir e sem se voltar a deitar, suspensa entre uma vida que acabara e uma que ela não sabia como se começava, e foi a primeira de muitas manhãs assim, as cinco da manhã sem fábrica, o corpo a acordar para o trabalho e a vida sem trabalho para onde ir, e Libânia, no escuro, fez a pergunta que ia fazer todos os dias durante meses, e que era a pergunta mais funda que alguma vez fizera, mais funda do que parecia: quem sou eu às cinco da manhã, se já não há fábrica? O que é que se levanta, neste corpo, quando se tira o trabalho? Sobra alguém, debaixo da encarregada? Ou a encarregada era tudo o que havia, e agora, sem ela, não sobra nada, não sobra ninguém, não há, debaixo do crachá, uma Libânia que exista por si?
Naquela primeira semana sem fábrica, repetiu-se a cena todas as manhãs, com pequenas variações que eram sempre a mesma derrota. Numa, levantou-se e vestiu-se inteira e calçou-se e só à porta de casa, com a mão no fecho, é que se lembrou de que não havia para onde ir, e ficou parada à porta, vestida para um trabalho que não existia, e teve de se voltar a despir, e despir-se de manhã, depois de vestida, foi uma humilhação pequena e funda que a acompanhou o dia todo. Noutra, chegou a sair de casa e a descer metade da calçada, no escuro, em direção à Fiandeira, com os pés a levá-la pelo caminho de quarenta e três anos, antes de a cabeça a travar, e teve de voltar para trás, calçada acima, com medo de que alguém a visse e percebesse, a encarregada a caminho de uma fábrica fechada como um cão que volta à casa do dono que morreu. E foi-se habituando, com horror, à ideia de que o corpo dela era mais fiel à fábrica do que a fábrica fora a ela, que o corpo continuaria a chamá-la para um sítio que já não a queria, e que ela ia ter de aprender, contra o próprio corpo, a não ir.
E não soube responder, naquela primeira manhã, e a luz foi chegando devagar à janela, a luz das cinco e meia, das seis, a luz de um dia que começava sem ela ter para onde ir, e Libânia, sentada na cama, viu nascer o dia pela primeira vez em quarenta e três anos, porque em quarenta e três anos àquela hora ela estava na fábrica, de costas para as janelas, a pôr as máquinas a andar, e nunca, nunca tinha visto o sol nascer, e viu-o agora, naquela primeira manhã sem fábrica, e não soube se era bonito ou se era só o vazio a ganhar luz, e essa dúvida, se o nascer do sol era uma beleza ou um vazio, ia ser a pergunta de todo o inverno, e a resposta, que ela só havia de encontrar na primavera, ia fechar não só a vida dela, mas, sem ela saber, o livro inteiro dos assentos de uma vila que ensinara a tanta gente, durante tanto tempo, a achar que tinha de merecer a própria existência com o suor de cada dia.
· fim da amostra ·