O Caderno das Dívidas

Biblioteca de Véspera · o terceiro romance

O Caderno das Dívidas

Benvinda herdou a Mercearia e o caderno onde está fiada a vila inteira. Sabe de cor o que todos lhe devem e nunca cobrou nada a ninguém. Este é o ano em que aprende, tarde e com a voz a tremer, a diferença entre ser boa e ser justa.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Benvinda, da casa da Mercearia. Filha de Abílio, o merceeiro, que herdou a loja e o caderno, e da loja e do caderno fez a sua casa e a sua sentença.

O nome foi promessa, como quase todos: nasceu em ano de boas colheitas, com a despensa cheia e a porta aberta, e o pai quis que o nome dissesse o que ele sentia à entrada de toda a gente. Benvinda. Bem-vinda sejas.

Os assentos dizem quem nasceu, quem casou, quem partiu. Não dizem quem deve a quem, nem o que custa a quem paga, nem o que cala quem perdoa. Para isso há outros cadernos, e este é um deles.

capítulo um

O caderno

A Mercearia ficava num dos cantos do largo, entre a casa da janela e o que fora o posto telefónico, e tinha por cima da porta uma tabuleta de madeira tão velha que já não se lia, e por baixo dela o cheiro, que era a verdadeira tabuleta: o cheiro do café por moer, do bacalhau, do sabão azul, do petróleo dos candeeiros, do pão, tudo misturado num só cheiro que era o cheiro da Mercearia e mais nenhum no mundo, e que a vila trazia na memória ainda antes de entrar. Quem nascia em Véspera nascia a saber aquele cheiro. Quem partia para fora levava-o, e voltava anos depois e era a primeira coisa que reconhecia, antes das caras: o cheiro da loja de Benvinda, que era o cheiro da loja do pai dela, que não mudara em cem anos porque as coisas que se vendem não mudam e a maneira de as guardar também não.

A Mercearia de Benvinda abria antes do sino, porque a fome dos campos não espera pelas horas.

Era assim desde o tempo do pai, e desde um tempo antes do pai de que já ninguém se lembrava: a porta destrancada quando a serra ainda era um vulto deitado, a candeia acesa por trás do vidro, e Benvinda ao balcão, de avental e de lápis atrás da orelha, à espera dos primeiros, os que iam para a terra de enxada ao ombro e levavam o pão e o tabaco e uma palavra antes do dia. A esses não se vendia: dava-se, e apontava-se. Vender, na Mercearia, era uma coisa que acontecia mais tarde, quando entravam os de fora ou os que pagavam à vista, e era quase uma falta de educação, um negócio a sério no meio de uma casa de amigos.

O caderno vivia debaixo do balcão, num oleado preto, e era mais velho do que Benvinda. Tinha a capa de cartão grossa, os cantos redondos de tanto se virar, e lá dentro, página após página, a vila inteira em colunas: o nome à esquerda, a data ao meio, o que se levou e o que se pagou à direita, e por baixo de quase tudo, o risco. O risco era a alma do caderno. Riscar era perdoar. Benvinda tinha aprendido a riscar com o pai, e o pai com o avô, e a vila de Véspera sabia que uma dívida na Mercearia não era bem uma dívida: era uma maneira de a casa dizer que confiava, e o risco era a maneira de dizer que continuava a confiar mesmo depois de saber que não ia receber.

Naquela manhã de outubro, a primeira a entrar foi a viúva do moleiro.

— Benvinda.

— Entra, mulher, que está frio.

A viúva levou meio quilo de feijão, um bocado de toucinho e uma vela, e ficou ao balcão a contar, como contava todas as manhãs, a perna que não a deixava dormir e o filho que não escrevia. Benvinda ouviu-a inteira, que ouvir também era mercadoria da casa, e quando a viúva fez menção de procurar os tostões no lenço atado, Benvinda já tinha o lápis na mão e o caderno aberto.

— Deixa lá o lenço. Aponto.

— Tu apontas sempre.

— Aponto sempre. — Escreveu, na letra dela, que era miúda e direita: o feijão, o toucinho, a vela. Não escreveu o preço a mais que pôs no toucinho, porque não houve preço a mais: a balança da Mercearia, quando pesava para a viúva do moleiro, pendia sempre meio dedo para o lado do freguês, e Benvinda corrigia-a com o polegar como quem afaga um animal. — Vai com Deus, que o frio aperta.

A viúva foi-se, e atrás dela vieram os outros, a manhã inteira deles: o rapaz dos Marçais, que levava sempre tabaco e nunca dinheiro; a mãe dos gémeos, que pagava uma semana e devia três; o velho Aprígio, que entrava só para se aquecer e saía com uma broa que jurava pagar no dia da reforma, há onze anos. Benvinda apontava tudo, no caderno, com a paciência de quem rega um campo que sabe que não há de colher. E quando, a meio da manhã, entrou a Amparo da Casa do Lagar, calada e direita, com o dinheiro dobrado em quatro no bolso, e pousou as notas na madeira e disse só risca, Benvinda riscou, e ficou de lápis no ar a vê-la sair, e disse-lhe, à porta, o que dizia àquela mulher havia anos sem que nenhuma das duas mudasse de comportamento por causa disso:

— Quem deve nunca soube o que custa. E quem paga nunca deveu nada.

A frase ficou no ar da loja depois de a Amparo se ir. Benvinda sabia-a de cor, dizia-a bem, via-a clara como o vidro do balcão: via a Amparo a pagar trinta anos as dívidas do filho e a gastar-se nelas, via o desequilíbrio inteiro daquela conta. Via os desequilíbrios todos da vila com uma nitidez de quem está do lado de fora do balcão. O que ela não via, ou via e fazia de conta, era que o caderno inteiro, da primeira página à última, era o desequilíbrio dela própria, escrito de sua mão, ano após ano, e que ninguém, em três gerações, lhe tinha dito a ela a frase que ela dizia a todos.

Entre a viúva e o meio-dia passou a vila quase toda, e Benvinda atendeu-a como quem reza um terço, cada conta uma conta-corrente do coração antes de ser do dinheiro. Veio a mulher dos gémeos, que pagou uma semana e levou três fiadas, e contou que o mais velho andava com tosse, e Benvinda meteu-lhe no saco, sem apontar, um frasco de mel para o peito do miúdo, porque o mel para a tosse não se cobra, é da casa. Veio o velho Aprígio, que entrou a esfregar as mãos do frio e pediu uma broa e tabaco, e jurou, como jurava todas as manhãs há onze anos, que pagava tudo no dia da reforma, e Benvinda apontou a broa e o tabaco por baixo das outras onze épocas de broas e tabacos, na coluna comprida do velho, que era das mais compridas do caderno e a que ela com mais ternura riscava por inteiro de tempos a tempos, quando a página já não cabia. Veio o rapaz dos Marçais, que levou tabaco e não dinheiro, e nem se deu ao trabalho de mentir que pagava: estendeu a mão, recebeu, e saiu, na certeza tranquila dos que nasceram a saber que a Mercearia é de graça. Benvinda apontou-lhe o tabaco sem uma palavra, mas dessa vez, ao escrever o nome dos Marçais, a mão demorou-se um instante a mais, como se o nome lhe pesasse, e ela não soube ainda dizer porquê.

Foi nessa manhã, ao meio-dia, com a loja vazia pela primeira vez, que entrou Aurora.

Entrou como Aurora entrava em todo o lado: depressa, a olhar para tudo, com a pasta debaixo do braço e a cabeça já três coisas à frente do corpo. Era a sobrinha, filha de Donato, o irmão do meio, que se tinha mudado para perto da Cidade havia muito e mandava notícias pelo telefone. Aurora fora a primeira da vila a estudar fora, e a vila dizia-o ainda com aquela mistura de orgulho e de susto que guardava para as coisas que admirava sem entender. Tinha quarenta e um anos, um casaco da cidade, e uma maneira de estar que era a de quem nunca chegou a lado nenhum porque cada sítio é só o degrau do seguinte. Voltara a Véspera por umas semanas, para tratar da venda da parte da casa do pai, e instalara-se em casa da tia, na Mercearia, porque a tia tinha quartos a mais e ninguém a quem dizer não.

— Tia.

— Minha filha. Comeste?

— Comi na estrada. — Aurora pousou a pasta no balcão, ao lado do oleado preto, e os dois pousaram-se ali como dois mundos: o caderno velho de cartão e a pasta de fecho metálico. — Tia, eu hoje estive a olhar para as suas coisas. Para os papéis da loja, enquanto a senhora estava a atender.

Benvinda, que arrumava as conservas, não se voltou logo.

— As minhas coisas estão todas em ordem.

— Estão. — Aurora abriu a pasta, e dela tirou um caderno novo, de capa lisa, com uma caneta presa na argola, e Benvinda olhou para aquele caderno limpo como quem olha para um instrumento de médico. — Estão tão em ordem que eu consegui copiar tudo. Os nomes, as datas, o que se levou, o que se pagou. Passei a manhã nisto, tia, porque eu não sei estar sem fazer contas, é defeito meu, o pai diz que eu conto os degraus das escadas. E fiz uma pergunta ao seu caderno que se calhar ninguém lhe fez.

— Que pergunta?

Aurora pousou o caderno novo aberto no balcão, virado para a tia. Numa página só, em colunas limpas, estava a Mercearia inteira reduzida a um número, ao fundo, sublinhado duas vezes.

— Quanto é que isto tudo lhe deve, tia. Ao certo. Tudo somado.

Benvinda baixou os olhos para o número, e o número era grande. Era um número que ela nunca tinha visto, porque o caderno dela não tinha fundos de página nem somas: tinha nomes, e os nomes não se somam. Cada linha do caderno era uma cara, uma história, uma manhã de frio, uma viúva, um rapaz, um velho que se aquece. Postos todos juntos numa coluna, sem cara, viravam aquilo: um número grande, debaixo de um risco duplo, a dizer o que a vila lhe devia ao certo.

— Isso não se soma assim — disse Benvinda, e foi buscar o pano para limpar o balcão que estava limpo.

— Soma-se assim, tia. É exatamente assim que se soma. — Aurora não tinha maldade nenhuma na voz, tinha pior: tinha clareza. — A senhora dá fiado à vila toda, e a vila toda lhe deve isto. E a senhora compra ao grossista da Cidade, que não fia a ninguém, e tem de lhe pagar a pronto. Está a ver o problema? A senhora é o único sítio entre a vila e a cidade onde o dinheiro entra e não volta a sair. É um poço, tia. A Mercearia é um poço onde a vila deita o que precisa e ninguém puxa a corda.

Benvinda passou o pano devagar. Lá fora, no largo, a fonte seca compunha-se ao sol fraco de outubro, e passou um carro de bois, devagar, com aquele ranger que era o relógio da vila. Dentro da loja, o número grande estava em cima do balcão, ao lado do caderno velho, e os dois cadernos olhavam um para o outro como duas maneiras de contar a mesma vida.

— O teu avô — começou Benvinda, e parou. Ia a dizer uma coisa e disse outra: — O teu avô dizia que loja que cobra é loja que perde amigos.

— E quantos amigos é que a loja tem, tia, agora que está quase a fechar?

Foi dito sem crueldade, e por isso doeu mais. Benvinda pousou o pano. Olhou para a sobrinha, para aquela rapariga que tinha saído da vila e voltara com olhos de fora, olhos que viam o número e não viam a cara, e teve, ao mesmo tempo, vontade de a mandar para casa e medo de que ela tivesse razão.

— A loja não está a fechar.

— Tia. — Aurora puxou o banco e sentou-se, e baixou a voz, e por um momento não foi a rapariga das contas, foi a sobrinha. — Eu vi os papéis do grossista. Vi as cartas que a senhora guarda na gaveta e não abre. Eles já mandaram dizer duas vezes. A senhora deve-lhes a eles quase tanto quanto a vila lhe deve a si. Só que eles cobram, e a senhora não. E quando duas pessoas devem uma à outra e só uma cobra, sabe quem é que fica sem nada?

Benvinda sabia. Tinha-o dito de manhã, à Amparo, à porta. Quem paga nunca deveu nada. Só que sempre pensara aquilo dos outros, e nunca, em sessenta e um anos, o tinha pensado de si.

Não respondeu. Foi à gaveta, a que não abria, e tirou de lá um maço de papéis presos com um elástico velho, e pousou-os no balcão, ao lado dos dois cadernos. Eram as cartas do grossista, por abrir as últimas, com o carimbo da Cidade e a letra de máquina, fria, que não conhecia ninguém pelo nome. Aurora olhou para o maço, e depois para a tia, e teve o bom senso de não dizer mais nada.

— Anda comer — disse Benvinda, por fim, e a voz saiu-lhe mais velha do que de manhã. — Fiz sopa. Falamos disto com a barriga cheia, que de barriga vazia as contas saem todas tortas.

Subiram para casa, por trás da loja, e a Mercearia ficou fechada à hora de almoço, com a candeia apagada e os três cadernos em cima do balcão à espera: o velho, de cartão e de nomes; o novo, de Aurora, com o número grande; e o maço de cartas de fora, que não tinham caderno nenhum, só dívida, só o frio limpo de quem cobra a quem não conhece.

A sopa estava feita desde a véspera, que Benvinda fazia panela para dois dias, e comeram-na à mesa da cozinha de cima, a mesma onde a mãe de Benvinda virara a saia e velara as contas. Aurora comeu depressa, como comia tudo, com o caderno limpo ainda debaixo do braço, e Benvinda comeu devagar, a olhar pela janela para o telhado do adro e para a serra ao fundo, e por um bocado nenhuma das duas falou, porque a conta grande estava em cima delas e as duas a rondavam sem se atrever a tocá-la à mesa.

— A tua mãe — disse Benvinda, por fim, mais para adiar do que para dizer — gostava desta sopa. A tua mãe, quando era viva, vinha cá ajudar-me à loja aos sábados, e dizia-me sempre a mesma coisa: Benvinda, tu dás de mais. E eu ria-me. Achava que era um elogio. Vês como uma pessoa pode ouvir uma verdade a vida inteira e tomá-la por elogio?

— A mãe dizia-lhe isso? — Aurora pousou a colher. Falava-se pouco da mãe, naquela família, que tinha morrido nova, e Aurora agarrava qualquer migalha dela como quem agarra um retrato.

— Dizia. E o teu pai diz o contrário, que eu não cobro porque sou parva, que se ele tivesse ficado com a loja já era rico. Os dois têm razão, minha filha, é o que tem graça. Eu dou de mais e não cobro nada, são a mesma coisa vista de dois lados, e a tua mãe via-a com pena e o teu pai com zanga, e nenhum dos dois me mudou, porque para mudar uma pessoa não chega ter razão sobre ela. — Benvinda levou a colher à boca, devagar. — Tu, agora, tens razão também, com o teu número. E eu sei que tens. A diferença é que tu trouxeste a razão dentro de um papel que diz que a loja fecha. E contra um papel desses, minha filha, já não há ouvido que se faça de surdo. É a primeira vez na vida que a minha maneira de ser tem uma data marcada para acabar. Seis semanas. Talvez seja isso que me faça ouvir-te a ti quando não ouvi a tua mãe nem o teu pai: vocês traziam-me razões, e tu trazes-me um prazo.

Antes de descer, ficou ainda um momento à janela da cozinha de cima, a olhar para o largo, e Aurora veio pôr-se ao lado dela, e as duas olharam, caladas, a vila a meio da tarde: a fonte seca, as casas, os telhados, a serra ao fundo. E Benvinda, sem se voltar, disse uma coisa que era para si própria mais do que para a sobrinha:

— Eu conheço-os a todos, minha filha. A cada porta daquele largo sei dizer-te quem lá mora, o que come, o que deve, de que pé coxeia. Sessenta e um anos a vê-los entrar pela minha porta. E no entanto, às vezes, dá-me a sensação de que não conheço nenhum, porque só os vejo de um lado, do lado de quem dá. Nunca lhes pedi nada. Uma pessoa a quem nunca pedimos nada é uma pessoa que não conhecemos de todo, é um rio que só vimos correr num sentido. — Suspirou. — Se calhar este ano vou ter de lhes pedir. E se calhar vou ficar a conhecê-los pela primeira vez, a todos, aos sessenta e um. E tenho medo, Aurora, do que vou descobrir. Tenho medo de descobrir que a vila que eu amo a vida toda só me amava a mim de barriga cheia.

E à tarde, quando desceu para reabrir, e a viúva do moleiro voltou, desta vez por causa de uma agulha, Benvinda pegou no lápis, e por um segundo, só um, a mão ficou suspensa sobre o caderno sem saber se ia apontar ou se ia, pela primeira vez na vida, dizer um número em voz alta. Apontou. Claro que apontou. Mas a suspensão tinha existido, e isso era novo, e Benvinda guardou-a sem saber que estava a guardar a primeira semente do ano que vinha: o ano em que ia ter de aprender, aos sessenta e um, a dizer a si própria a frase que dizia à vila inteira, e a descobrir, com a voz a tremer e o caderno na mão, quanto é que lhe custava a ela, afinal, ser tão bem-vinda a toda a gente.

· fim da amostra ·

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