As Travessas Devolvidas

Biblioteca de Véspera · o vigésimo romance

As Travessas Devolvidas

Socorro foi o socorro de todos a vida inteira: a que acode, a que ampara, a que está lá quando alguém precisa. Mas quando adoece, e a vila faz o que a vila faz, travessas de comida à porta, devolve-as cheias, com um bilhete a agradecer, porque contar com alguém, uma vez, no ano em que mais precisou, terminou na porta vazia. Este é o ano em que aprende a coisa mais difícil para quem só sabe dar: aceitar a primeira travessa, comê-la até ao fim, e devolvê-la vazia, que em Véspera é a maior declaração de confiança que há.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Socorro, filha da vila, e o nome foi ferida posta em batismo.

Chamaram-lhe Socorro, a que acode, e ela cumpriu o nome a vida inteira, sendo o socorro dos outros, a que ampara, a que está lá quando alguém precisa; mas o nome, que era para dar, virou-se contra ela, porque a que é o socorro dos outros aprende a dar e nunca a receber, e Socorro, que acudia a toda a gente, não sabia, quando lhe batia a desgraça, deixar que a acudissem a ela.

Os assentos guardam quem dá e quem recebe, quem acode e a quem se acode. Não dizem porque é que há quem devolva cheias as travessas que lhe põem à porta, nem que ano foi aquele em que se contou com alguém e se ficou a ver a porta vazia, nem o que custa, depois disso, comer a primeira travessa e devolvê-la vazia, que em Véspera é a maior declaração de confiança que há. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

O socorro dos outros

Socorro acordava com a vila ainda a dormir, e a vila ainda a dormir já contava com ela.

Era assim desde sempre, ou desde um sempre tão antigo que já lhe não lembrava o princípio. Bastava o som de uns passos apressados no caminho de cima, fora de horas, para ela estar de pé antes de o pensamento chegar, à procura do casaco no escuro, e raramente se enganava: passos àquela hora eram aflição, e a aflição em Véspera tinha um nome, e o nome era o dela. Socorro, a que acode. Tinham-lha posto na pia como quem põe uma ferramenta na mão de uma criança, e ela pegara nela e nunca mais a largara.

Naquela madrugada, foi a Felismina que veio bater, a nora do Aníbal, descalça de um pé, com o lenço mal atado e a respiração toda à frente das palavras.

— Ó Socorro, é a minha sogra, está a deitar tudo, e o sangue, Socorro, é muito sangue.

Socorro já estava à porta com a malinha de oleado debaixo do braço, a mesma que fora da mãe dela, e desceu o caminho à frente da Felismina sem lhe pedir mais explicação, porque as explicações dava-as o corpo do doente, não a boca dos aflitos. Encontrou a velha Custódia de bruços no chão da cozinha, ao pé do lume apagado, e ajoelhou-se ali mesmo, no tijoleira frio, e fez o que as mãos sabiam: virou-a de lado, limpou-lhe a boca, falou-lhe baixo ao ouvido como se fala a quem está a meio de partir e ainda pode ser chamado de volta. Ficou com ela até o médico chegar da vila grande, três horas depois, e quando o médico chegou já a velha respirava direito e tinha a cabeça em cima de uma almofada que não era dela: era a almofada que Socorro fora buscar a casa, a correr, no meio da noite, porque o chão era duro e a velha merecia chegar à manhã com a cabeça mole.

O médico, ao sair, perguntou-lhe quem era, e a Felismina respondeu antes dela, com aquele orgulho que a vila tinha nela e que era também, sem ninguém saber, uma corrente:

— É a Socorro, senhor doutor. É a Socorro que nos acode a todos.

Socorro recolheu a almofada, recolheu o oleado, recolheu-se a si, e subiu o caminho com a primeira luz a nascer por trás da serra. Não levava nada. Era essa a regra, a que ela nunca dissera a ninguém porque nunca a precisara de dizer, tão funda estava: ia-se de mãos cheias e voltava-se de mãos vazias, e estava certo, e era assim que tinha de ser, porque ela era a que dá. A Felismina correu atrás dela com uma dúzia de ovos num pano, ainda mornos, a insistir, leve, ó Socorro, leve ao menos os ovos, e Socorro fechou-lhe os dedos à volta do pano com uma firmeza doce e disse o que dizia sempre, a frase que tinha gasta de tanto a usar:

— Guarda isso para a tua sogra, que é ela que tem de criar sangue novo. Eu cá me arranjo.

Eu cá me arranjo. Era esta a frase. Havia de a ouvir, mais tarde, na boca de uma Guardiã, dita ao contrário, como se diz uma sentença. Mas naquela manhã era só o que ela achava que era: bom senso, modos, a maneira certa de uma pessoa direita estar no mundo. Subiu o caminho, abriu as janelas de casa ao nascente, acendeu o seu lume, e ninguém ficou a saber que a Socorro tinha passado a noite no chão de outra cozinha, porque a Socorro não contava o que fazia, da mesma maneira que a mãe dela nunca contara o que tinha contado a dela, e assim por diante, numa cadeia de mulheres caladas que davam às escuras e morriam sem que ninguém lhes soubesse o peso.

Dias antes, fora um parto. A Lequinha, a mais nova das filhas do ferreiro, andava na hora, e veio chamá-la o homem dela, um rapazito assustado que mal sabia o que dizer, e Socorro desceu o caminho à frente dele com a malinha de oleado e esteve com a rapariga a noite inteira, a aparar-lhe o medo, a dizer-lhe ao ouvido respira, filha, deixa o corpo fazer, que ele sabe, que tu só tens de o deixar; e o menino veio de madrugada, são, a berrar, e Socorro pô-lo ao peito da mãe e tratou da casa, e lavou o que havia para lavar, e deixou tudo limpo e a água a aquecer no lume para quando a rapariga acordasse. E a mãe da Lequinha, que viera a correr de manhã, quis dar-lhe uma nota dobrada, leve isto, Socorro, pelo trabalho da noite; e Socorro fechou-lhe a mão à volta da nota e disse o de sempre, guarde isso para o enxoval do menino, que é o que faz falta, eu não levo nada de um parto, nunca levei. E subiu o caminho de mãos vazias, com a madrugada às costas, sem ter comido, sem ter dormido, e foi para casa fazer o seu dia como se a noite não tivesse existido. Era assim. Descia cheia e subia vazia. E nunca lhe passou pela cabeça, em quarenta anos de partos, que aquele subir vazia, que ela tinha por virtude, fosse o desenho exato da sua doença: a mulher que dá vida a meio mundo e sobe sozinha o caminho, de madrugada, sem deixar que uma só nota dobrada, um só ovo morno, uma só mão, lhe enchesse as mãos de volta.

Porque era isto que ninguém via, por baixo do dar: que a Socorro dava com as duas mãos e fechava as duas mãos quando alguém lhas queria encher. E não era por não precisar. Precisava como toda a gente precisa, do calor de uma travessa quente numa noite de inverno, de uma mão nas costas num dia mau, de alguém que lhe perguntasse, uma vez que fosse, e tu, Socorro, como estás tu. Mas quando a mão vinha, ela esquivava-se. Quando a travessa vinha, devolvia. Quando a pergunta vinha, respondia com a pergunta de volta, e tu, como vais tu, que era a maneira mais educada que há de não responder.

Lembrava-se, por exemplo, da vez do parto da Rosalina, a filha do moleiro, que veio cedo demais e mal. Socorro esteve com ela do meio-dia à meia-noite, a aparar o medo da rapariga e a mandar a mãe da rapariga, que se atrapalhava, ferver mais água que nunca seria precisa, só para lhe dar as mãos um trabalho. Quando o menino nasceu, são, a berrar, a Rosalina, esvaída e feliz, agarrou-lhe o pulso com uma força que não parecia dela e disse:

— Socorro, eu nunca te vou poder pagar isto.

E Socorro, que devia ter dito está bem, filha, não há nada a pagar entre nós, disse outra coisa, sem reparar no que dizia, porque era o que lhe saía sempre:

— Não há nada a pagar. Eu não dou para receber.

Era verdade, e era bonita, e tinha por baixo um veneno que Socorro só viria a provar muitos anos depois: porque quem não dá para receber acaba, sem querer, por dizer também que não recebe. Quem fecha a porta à fatura fecha-a, no mesmo gesto, ao abraço. E a Rosalina ficou com a gratidão entalada, sem ter onde a pôr, porque a Socorro não a deixava pousar-lha em parte nenhuma, e a gratidão, quando não tem onde pousar, fica a pesar a quem a sente, e foi assim que a Socorro, sem nunca pedir nada a ninguém, deixou a vila inteira em dívida sem dívida, agradecida sem poder agradecer, ligada a ela por cima e à distância, na superfície limpa do dar, e sozinha com ela por baixo, onde mora o receber, onde mora a intimidade, onde ela nunca deixava entrar ninguém.

E havia, nesta casa, uma filha que via tudo isto de mais perto do que ninguém, e que sofria por dentro o que a vila admirava por fora. A Glória vivia a três casas, e vinha todos os dias, e todos os dias batia, sem o saber, naquela parede; trazia coisas, oferecia-se, queria entrar, e a mãe agradecia e fechava. Uma vez, recém-casada, a Glória dissera ao marido, à noite, na cama deles, uma coisa que nunca dissera a mais ninguém: a minha mãe ama a vila inteira e a mim deixa-me à porta. Toda a gente tem da minha mãe uma noite no chão da cozinha, um caldo, um velório; eu, que sou a filha, não tenho dela nem que me deixe levar-lhe uma sopa quando está constipada. E o marido, que era homem bom mas de fora, dissera-lhe não exageres, mulher, a tua mãe é uma santa; e a Glória calara-se, porque era essa a maldição da coisa, que de fora a mãe era mesmo uma santa, e que a filha, ao queixar-se da santa, parecia ingrata, e ficava sem ter como explicar a ninguém que se pode ter uma mãe que dá a meio mundo e que à própria filha não deixa dar nada, e que isso, longe de ser santidade, é uma porta fechada com cara de virtude.

E lembrava-se, dessas semanas, do óbito do velho Aníbal, o sogro da Felismina, que afinal não se aguentou, e foi enterrado três dias depois da noite em que Socorro o achara no chão. Foi Socorro quem o amortalhou, como amortalhara metade dos mortos de Véspera nos últimos quarenta anos, porque tinha um jeito com os mortos que poucas têm, um jeito de lhes fechar os olhos e de lhes compor as mãos sobre o peito e de lhes endireitar a boca de modo a parecer que partiram em paz, mesmo os que partiram a sofrer. Trabalhou-o devagar, sozinha no quarto, a falar-lhe baixo como aos vivos, e quando saiu, já com o homem composto e digno na cama, a casa estava cheia de gente e de cheiro a café e a alecrim, e a Felismina, de olhos vermelhos, quis pôr-lhe à frente um prato, come qualquer coisa, ó Socorro, que estás aí desde manhã sem nada na boca. E Socorro recusou. Recusou no meio de uma casa de luto onde toda a gente comia, recusou de pé, com o avental ainda a cheirar à morte que acabara de compor, não tenho fome, filha, trata dos teus que precisam, eu como em casa; e foi-se embora pela noite, de mãos vazias, sem ter comido nem bebido, e ninguém estranhou, porque era a Socorro, e a Socorro era assim, dava e não tomava, e a vila tinha aquilo por virtude e não via que era o avesso da virtude, o medo vestido de força. Comeu, ao chegar a casa, um naco de pão seco encostada ao lava-loiça, sozinha, à meia-noite, com a fome que recusara à mesa dos outros; e foi-se deitar, e nem reparou que tinha feito o que faria a vida toda, dar de comer a meio mundo e comer sozinha o pão seco, de pé, no escuro, sem deixar que uma única mão lhe pusesse à frente um prato quente.

Tinha cinquenta e cinco anos, naquele inverno, e o corpo começara a avisá-la. Avisava-a de manhã, com uma dureza nos joelhos ao descer o caminho; avisava-a à noite, com um cansaço que já não era o cansaço bom de quem fez o seu dia, era um cansaço de fundo, sem fundo, que o sono não chegava para encher. Uma tarde, ao levantar-se depressa para ir acudir a quem chamava, a cozinha andou-lhe à roda, e ela teve de se segurar à pedra do lava-loiça, e ficou ali um momento, agarrada à pedra fria, com o coração a bater-lhe nos ouvidos, a ouvir, pela primeira vez na vida, uma frase que a aterrava mais do que qualquer aflição alheia: um dia és tu. Um dia és tu que vais estar no chão da cozinha, e quem te há de acudir a ti.

Empurrou a frase como se empurra uma porta contra o vento. Disse para dentro que não, que ela aguentava, que enquanto se tivesse de pé seria sempre ela a descer o caminho, nunca quem o subisse para a buscar; e havia naquele não uma força, e havia por baixo da força um medo tão antigo que já lhe não conhecia a cara, o medo de estar do outro lado, o medo de ser ela a doente na cama, a ver a vila à porta a olhá-la em falta, a ter de fazer a única coisa que nunca aprendera a fazer e que mais nenhuma vila lhe perdoaria não saber: receber.

E havia uma coisa que Socorro nunca dissera a ninguém e que era o resumo de tudo: que não sabia, de verdade, dizer obrigada. Sabia agradecer com modos, com fórmulas, Deus te pague, não era preciso, és muito amável; mas dizer obrigada a sério, o obrigada que admite que se precisou, que se recebeu, que outro chegou onde a gente não chegava sozinha, esse não lhe saía, ficava-lhe entalado na garganta como um osso. Escrevia-os, sim, os obrigadas, nos papelinhos das travessas devolvidas cheias, mas eram obrigadas que diziam o contrário, obrigada mas não, obrigada mas leva de volta, obrigada mas eu não preciso de ti; obrigadas que eram portas a fechar com jeito. E ela própria não dava por isso, julgava-se a mulher mais agradecida de Véspera, ela que agradecia a toda a gente a toda a hora; e não via que agradecer com a boca e fechar a porta com a mão é a maneira mais educada que há de não receber, e que o seu caderno de obrigadas, em cinquenta e cinco anos, não tinha um único que quisesse dizer o que a palavra quer dizer, que é, no fundo, recebi-te, fizeste-me falta, ainda bem que vieste.

E houve um dia, no princípio deste livro, em que o corpo deixou de avisar e passou a obrigar. Foi uma manhã em que Socorro não conseguiu levantar-se. Não foi vertigem, não foi a roda da cozinha; foi uma febre que lhe caiu em cima como uma telha, e uma fraqueza nas pernas que não a deixou pôr os pés no chão, e uma tosse funda que lhe rasgava o peito ao meio. Ficou deitada, a olhar o teto, a ouvir o galo do vizinho cantar a manhã que ela não ia poder cumprir, e percebeu, com um pavor sem nome, que não havia ninguém a quem ela pudesse não chamar: porque a vila ia saber, a vila sabia sempre, e quando a vila soubesse, ia descer o caminho que ela tantas vezes descera ao contrário, e ia bater-lhe à porta, e ia pôr-lhe à porta o que ela punha a toda a gente, e ela ia ter de estar, pela primeira vez em cinquenta e cinco anos, do lado de quem recebe.

A primeira que soube foi a Glória, a filha, que vinha todos os dias e que naquela manhã encontrou a porta encostada e a mãe na cama. E a segunda foi a vila inteira, porque a Glória, assustada, contou à Aurélia, e a Aurélia à Lucinda, e a Lucinda à Benilde, e antes do meio-dia já se sabia em Véspera o que era quase impossível de acreditar e impossível de não acreditar ao mesmo tempo: que a Socorro, o socorro de todos, estava de cama, e precisava.

E a vila fez o que a vila faz, o que a própria Socorro fizera a todos a vida inteira. Acorreu. Ao fim da tarde já havia, no banco de pedra à porta de Socorro, a primeira travessa, tapada com um pano de linho, ainda a fumegar. E foi à frente daquela primeira travessa, deitada na cama, fraca demais para a ir buscar e forte de mais para a deixar entrar, que Socorro se viu, enfim, perante a coisa que o livro inteiro lhe ia pedir que aprendesse, a coisa que dera a todos e nunca soubera tomar para si: o socorro dos outros.

· fim da amostra ·

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