As Portas Baixas

Biblioteca de Véspera · o décimo segundo romance

As Portas Baixas

Modesta tem a melhor voz do coro da vila e canta-a para dentro, em surdina, deixando os solos aos outros, porque aprendeu em menina, num dia em que brilhar lhe custou caro, que sobressair traz castigo. Passou a vida curvada como quem passa por portas baixas, sem ver que era mais alta do que as portas por onde se baixava, e que o medo que a curvava não era seu, era da mãe. É a história de uma mulher que confundiu humildade com esconder-se, e que só aprende — com uma Guardiã e um velho mestre do coro — que um dom é para se dar e não para se enterrar, e que se pode erguer à sua altura e cantar a plena voz sem deixar de ser humilde. A frase do fim, ao cantar enfim para fora: esta voz é minha, e não ma deram para a calar.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Modesta, filha de Augusta e de gente de Véspera. Teve a melhor voz que o coro da vila conheceu, e cantou-a a vida toda para dentro, escondida, deixando os solos aos outros, abafando o que tinha de melhor para não dar nas vistas.

O nome foi promessa: a mãe quis-lhe o nome da modéstia, sonhando uma filha recatada, que não sobressaísse, porque na vila e no tempo dela sobressair, e ainda mais numa mulher, era coisa que se temia. E a vida cumpriu-o para além do sonho: deu uma mulher que se fez tão pequena que quase desapareceu, que passou a vida curvada como quem passa por portas baixas, sem nunca medir a sua verdadeira altura.

Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem partiu. Não dizem o que custa a quem tem um dom e o enterra por medo de sobressair, nem se chega a hora, e como, em que uma voz guardada a vida inteira por fim se solta. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A voz em surdina

Modesta tinha a melhor voz do coro da vila, e quase ninguém o sabia, porque ela cantava-a para dentro, em surdina, escondida no meio das outras vozes, de maneira a que nunca se ouvisse sozinha, nunca sobressaísse, nunca desse nas vistas.

Tinha, quando esta história começa, os seus bons cinquenta e tal anos, uma mulher que cantara no coro a vida toda e que envelhecera nele, sempre a melhor voz, sempre escondida. E havia uma urgência nova na sua vida, embora ela não lhe desse ainda esse nome: a urgência de quem percebe que o tempo de cantar não é infinito, que a voz, com a idade, há de um dia faltar, que se não a soltar agora talvez não tenha depois ocasião, que está a ficar tarde para dar o que nunca deu. Os anos avançavam, e com eles a hipótese de soltar a voz ia-se estreitando, porque uma voz tem o seu tempo, e Modesta sentia, sem o dizer, que o seu tempo de a soltar se aproximava do fim, que se continuasse a escondê-la chegaria o dia em que já não a poderia soltar nem querendo, em que a velhice lha levaria por cantar. E essa urgência, a de um tempo que se estreita, era mais uma razão para mudar, e havia de pesar, quando a mudança viesse, porque uma coisa é adiar o que se pode fazer sempre, outra é adiar o que se está a ficar sem tempo de fazer, e Modesta começava a perceber que estava a ficar sem tempo de soltar a voz, e que adiar mais era arriscar adiar para nunca.

Quem percebia de vozes, e havia quem percebesse, sabia-o: que ali, no meio do coro, havia uma voz diferente das outras, mais cheia, mais afinada, mais bonita, uma voz que, se a deixassem soltar-se, faria parar a igreja inteira. Mas Modesta nunca a deixava soltar-se. Cantava sempre por baixo, a medir o volume para ficar abaixo das outras, a esconder a sua voz dentro das vozes alheias, como quem esconde uma joia dentro de um punhado de pedras vulgares para que ninguém repare nela. E conseguia, quase sempre: a maior parte da vila ouvia o coro e não distinguia a voz de Modesta, porque Modesta tratava de que ela não se distinguisse, de que se diluísse no conjunto, de que ninguém pudesse apontá-la e dizer aquela, aquela é que canta bem.

Os que percebiam de vozes estranhavam, porque sabiam que a melhor voz do coro era a de Modesta e que os solos iam sempre para vozes piores, e não entendiam porque é que a melhor voz se escondia e deixava as piores brilharem; mas Modesta entendia, e era simples: ela tinha pavor de sobressair, e cantar um solo era sobressair, era erguer-se, era dar nas vistas, e isso, para Modesta, era a coisa mais perigosa do mundo.

E havia, neste esconder, uma coisa que ninguém via e que era talvez a mais triste de todas: que Modesta amava cantar mais do que tudo. Não era uma mulher indiferente à música, que cantasse por obrigação e a quem tanto fizesse cantar ou não; era uma mulher que amava cantar com a alma toda, para quem a música era a coisa mais bela da vida, que vivia para os ensaios e para as missas, que sentia, quando a voz lhe saía, mesmo em surdina, uma alegria que nada lhe dava. E era esse o cúmulo da tragédia: que a coisa que ela mais amava no mundo, cantar, fosse a mesma que ela mais se proibia de fazer à vontade; que tivesse um amor enorme pela música e um medo enorme de a mostrar; que vivesse, em relação ao canto, num tormento permanente, entre o amor que a puxava para soltar a voz e o medo que a obrigava a contê-la. Modesta não escondia uma coisa que lhe fosse indiferente; escondia o que mais amava, e há poucas tristezas maiores do que ter de esconder, e conter, e diminuir, precisamente aquilo que mais se ama, viver de mãos atadas em relação à própria paixão.

Os solos, esses, deixava-os sempre aos outros. Quando o regente do coro procurava quem cantasse a parte sozinha, a parte que se destaca, a parte em que uma voz canta só e toda a igreja a ouve, Modesta baixava os olhos, encolhia-se, fazia-se invisível, e o solo ia para outra, para uma voz pior que a dela, e Modesta cantava por baixo, no coro, a acompanhar, aliviada por não ter sido escolhida, por não ter tido de se erguer e cantar sozinha diante de todos. E os que percebiam de vozes estranhavam, porque sabiam que a melhor voz do coro era a de Modesta e que os solos iam sempre para vozes piores, e não entendiam porque é que a melhor voz se escondia e deixava as piores brilharem; mas Modesta entendia, e era simples: ela tinha pavor de sobressair, e cantar um solo era sobressair, era erguer-se, era dar nas vistas, e isso, para Modesta, era a coisa mais perigosa do mundo.

A maneira de Modesta cantar dizia tudo, e só quem lhe ficasse ao lado a conhecia. A Rosária, que partilhava com ela a estante havia trinta anos, percebia-o sem nunca lho ter dito: que a Modesta a ouvia a ela, à Rosária, mais do que à sua própria voz, e se media por ela. Se a Rosária subia, a Modesta media-se para não a passar; se a Rosária cantava num volume, a Modesta ficava-lhe meio palmo abaixo, sempre, de propósito. Houve uma vez, num ensaio de quaresma, em que a Rosária, com uma constipação, mal tinha voz, e cantou baixinho, quase a soprar; e Modesta deu por si a soprar também, a abafar-se ainda mais, para se manter por baixo de uma voz que mal se ouvia, e percebeu, com um arrepio, o que andava a fazer: a baixar-se até ao nível de uma mulher constipada, para não correr o risco de se ouvir. Ao intervalo, a Rosária, a assoar-se, disse-lhe sem maldade: ó Modesta, hoje nem tu nem eu, estamos as duas a soprar. E Modesta sorriu, e não disse que ela, ao contrário da Rosária, tinha a voz inteira e a estava a esconder de propósito. Era esse o seu trabalho de cada ensaio, não soltar a voz mas contê-la, vigiá-la, travá-la, e era um trabalho cansativo, porque por dentro a voz queria sair, queria encher a sala, e ela travava-a sempre; e saía dos ensaios mais cansada do que entrara, do esforço de manter pequena uma voz que era grande.

Porque Modesta aprendera, em menina, uma lição que lhe governou a vida: que sobressair custa caro. Que erguer-se, mostrar o que se tem de melhor, brilhar, dar nas vistas, traz castigo, inveja, perigo; e que a segurança está em fazer-se pequena, em não se destacar, em passar despercebida, em deixar os outros brilhar e ficar na sombra. Aprendera a baixar a cabeça, a encolher-se, a diminuir-se, a passar pela vida como quem passa por uma porta baixa, curvada para não bater com a cabeça, sempre menor do que era, sempre a esconder o seu tamanho verdadeiro para não correr o risco de o mostrar.

Havia uma tristeza particular nos ensaios, que só Modesta conhecia. Porque era ali, no ensaio, longe da vila, com só o coro e o mestre, que ela mais perto estava de soltar a voz, e às vezes, num ensaio, esquecida, deixava-a sair um bocadinho mais do que devia, e o coro inteiro a ouvia, e o mestre olhava-a, e por um instante a voz de Modesta enchia a sala de ensaio com a sua beleza; e logo Modesta percebia que se soltara de mais, e travava-se, e voltava à surdina, e o instante de beleza fechava-se. E esses instantes, nos ensaios, em que a voz quase saía e logo se prendia, eram para o mestre e para o coro uma promessa nunca cumprida, a promessa de uma voz que se anunciava e nunca se dava por inteiro; e eram, para Modesta, o mais perto que chegava de cantar a sério, e por isso o mais triste, porque mostravam-lhe, a ela própria, o que poderia ser se se soltasse, davam-lhe a provar, por um instante, a alegria de soltar a voz, e logo lha tiravam, ao travar-se. Era como abrir uma porta para uma sala iluminada e fechá-la logo: o instante de luz tornava o escuro seguinte mais escuro, e Modesta vivia desses instantes de luz logo fechados, da voz quase solta logo presa, do mais perto que chegava de cantar e que nunca a deixava chegar lá.

E o pior é que Modesta chamava a isto humildade, e a vila também, e até a elogiavam por isso. Ai a Modesta, tão humilde, tão recatada, não é nada armada, não se gaba de nada; e Modesta recebia o elogio e endireitava-se um bocadinho por dentro, porque ser humilde era a única coisa boa que achava que era, e ser elogiada por isso confirmava-lhe que fazia bem em se esconder. Havia uma maneira de distinguir as duas coisas, a humildade verdadeira e o medo disfarçado de humildade, e Modesta só a aprendeu no fim: a humildade verdadeira está em paz, e o medo não. Quem é humilde a sério dá o que tem com simplicidade e fica em paz; quem esconde o que tem por medo não fica em paz, fica com uma inquietação, uma tristeza surda, a sensação de uma coisa por fazer. E Modesta, por baixo da sua suposta humildade, não estava em paz; tinha, sempre, uma inquietação, uma tristeza, a sensação de uma dívida, de uma coisa por dar; e essa falta de paz era, se ela soubesse lê-la, a prova de que o que tinha não era humildade, que a humildade dá paz, e ela não a tinha. O medo disfarçado de humildade trai-se assim, pela falta de paz, pela inquietação que deixa, pela tristeza de uma coisa por fazer; e Modesta vivia com essa inquietação, com essa tristeza, sem perceber que eram o sinal de que a sua humildade era falsa, de que por baixo dela havia um medo e uma dívida, a dívida de uma voz por dar que não a deixava, apesar de toda a sua suposta humildade, estar verdadeiramente em paz.

Mas não era humildade, aquilo, ou não era só; era medo, era o medo de sobressair disfarçado de humildade, e há uma diferença enorme entre as duas coisas que Modesta nunca fizera: a humildade verdadeira não esconde o dom, usa-o sem se gabar; o medo esconde o dom, enterra-o, desperdiça-o, e chama a isso humildade para não ter de lhe chamar medo. Modesta enterrava o dom por medo e chamava-lhe humildade, e a vila, que confunde as duas coisas, aplaudia-a, sem ver que estava a aplaudir o desperdício de uma das vozes mais bonitas que a vila dera.

Uma manhã de verão, com as janelas abertas para o quintal, Modesta estendia a roupa e cantava, esquecida, sem pensar que alguém a ouvia; e a voz saía-lhe como era, cheia, livre, a encher o quintal e a rua por cima do muro, uma beleza. Passava na altura o senhor Anacleto, o dos correios, com a sua bicicleta, e parou. Encostou a bicicleta ao muro e ficou ali, do outro lado, a ouvir, porque uma voz assim faz parar um homem a meio do caminho. E Modesta, ao chegar à ponta do fio com um lençol nas mãos, viu por cima do muro o chapéu do Anacleto parado, e percebeu que estava a ser ouvida, e calou-se a meio da nota, como apanhada numa falta, e fingiu-se ocupada com a roupa até ele se ir. O Anacleto seguiu caminho a abanar a cabeça, e disse na venda, mais tarde, que tinha ouvido a Modesta cantar como nunca a ouvira na igreja, que parecia outra mulher; e ninguém acreditou nele, porque toda a vila sabia que no coro a Modesta mal se ouvia. Não sabiam que era ao contrário: que a voz do coro é que era a fingida, a contida, e a do quintal é que era a verdadeira, a que lhe saía quando se esquecia de a esconder. A voz verdadeira de Modesta só saía quando ela não dava por si; mal percebia que a ouviam, prendia-a; e era essa a medida da sua prisão, que a sua própria voz só se ouvia quando ela se esquecia de ter medo.

A vila tinha de Modesta uma imagem fixa, a da mulher discreta, e essa imagem era, ela própria, uma das paredes da sua prisão. Porque uma vila habitua-se a ver cada um de uma maneira, e a Modesta via-a como a discreta, a humilde, a que não dá nas vistas, e essa imagem, repetida ao longo de anos, tornara-se uma expectativa: esperava-se de Modesta que fosse discreta, e qualquer coisa que ela fizesse fora dessa imagem seria estranhada. E Modesta sentia o peso dessa expectativa, sentia que a vila a queria discreta, que se erguesse seria contrariar a imagem que tinham dela, e isso prendia-a também, porque é difícil sair da imagem que os outros têm de nós, romper a expectativa, surpreender quem nos tinha arrumados de uma maneira. A vila arrumara Modesta na gaveta da discreta, e Modesta sentia que sair dessa gaveta, erguer-se, cantar, seria desarrumar a vila, contrariar o que esperavam, e essa dificuldade de sair da própria imagem, de contrariar a expectativa dos outros, era mais uma corrente, talvez das mais subtis, porque não vinha de dentro, vinha de fora, do peso da imagem que os outros tinham dela e que ela sentia que devia confirmar.

E assim Modesta vivia, com a sua voz em surdina, a sua joia escondida, o seu dom enterrado, e passava por humilde e era, no fundo, uma mulher amedrontada, uma mulher que se fizera pequena para se proteger e que vivia muito abaixo do seu tamanho, curvada por portas que talvez nem fossem baixas, a esconder uma voz que talvez fosse a coisa mais bela que tinha para dar ao mundo, e que o mundo nunca ouviria se ela continuasse a cantá-la para dentro, em surdina, com medo de a deixar, enfim, sair.

· fim da amostra ·

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