Capa de As Mãos de Amparo

Biblioteca de Véspera · oferta da casa

As Mãos de Amparo

Há trinta e seis anos que Amparo apanha o filho antes de cada queda. Este é o ano em que aprende que as mãos também se pousam.

Um romance · 12 capítulos. Lê o primeiro aqui em baixo, sem pedir nada. Se ficar contigo, o livro inteiro é teu.

Do registo de Véspera

No registo da Casa do Lagar, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Amparo, da Casa do Lagar. Nascida no ano do Inverno Grande, irmã de Custódia, de Glória e de Amadeu, que está assente neste livro pela última vez há já muitos anos.

Casada com Fortunato, dos campos de baixo. Viúva dele há seis invernos.

Mãe de Vera e de Salvo. O nome do filho foi promessa: veio ao mundo de cordão à volta do pescoço e a parteira deu-o por perdido duas vezes. À terceira, a mãe jurou que, se ele vivesse, o nome havia de dizer para sempre o que ele era. Salvo.

Os assentos dizem quem nasceu, quem casou, quem partiu. Não dizem quem carrega quem. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

As mãos

As mãos de Amparo acordavam antes dela.

Era assim desde sempre, ou desde um sempre tão antigo que já não tinha princípio. Abria os olhos no escuro e as mãos já iam a meio do dia: já tinham acendido o fogo, já tinham posto a água a aquecer, já sabiam, antes de ela saber, o que era preciso fazer e por quem. Amparo seguia atrás delas como quem segue dois cães fiéis, confiada, sem perguntar o caminho.

Naquela manhã, as mãos sabiam que era dia de Mercearia.

Saiu de casa com a primeira luz, quando a serra ainda era um vulto deitado e o rio, lá em baixo, mais se ouvia do que se via. Não havia ninguém no caminho, e era por isso que ia àquela hora. Levava no bolso do casaco, dobrado em quatro, o dinheiro do mês, e levava-o como sempre o tinha levado: sem o contar à frente de ninguém, nem de si própria.

A Mercearia abria cedo para quem ia para os campos. Benvinda estava ao balcão, de lápis atrás da orelha, a arrumar o pão. Quando viu Amparo entrar, baixou a mão devagar e ficou quieta, daquela quietude de quem reconhece uma cerimónia.

— Já cá vens tu — disse.

— Já cá venho eu.

Não era preciso mais. Benvinda foi buscar o caderno das dívidas debaixo do balcão, abriu-o na letra certa e empurrou-o meio palmo, só meio, como quem não quer entregar de vez. Na página, na letra redonda de Benvinda, vinha o mês inteiro do Salvo: o vinho, o tabaco, as conservas, uma corda, mais vinho. Amparo leu de cima a baixo sem mudar de cara. Tirou o dinheiro do bolso, desdobrou-o, pousou-o na madeira.

— Risca.

Benvinda não pegou logo no dinheiro. Ficou a olhar para ele com um cansaço antigo, que não era daquela manhã.

— Eu risco, Amparo. Riscar, eu risco. — E baixou a voz, embora não houvesse mais ninguém na loja. — Mas repara numa coisa, que eu nunca te disse. Há vinte anos que este caderno tem a letra do teu filho e o dinheiro da tua mão. Quem deve nunca soube o que custa. E quem paga nunca deveu nada.

— Risca — repetiu Amparo, sem dureza. — O resto não é teu nem meu.

Benvinda riscou. Riscou devagar, linha a linha, como ela própria nunca riscara dívida nenhuma a ninguém, e ficou ainda de lápis no ar quando Amparo já ia na porta. Da rua, Amparo ouviu-a dizer qualquer coisa que tanto podia ser adeus como mulher, mulher. Não voltou atrás para tirar a dúvida.

Em casa, fez o que fazia. Abriu as janelas ao nascente, deu de comer às galinhas, pôs a sopa ao fogo. A meio da manhã, as mãos foram sozinhas à prateleira alta da despensa, à lata da farinha que não tinha farinha. Era ali que vivia o outro dinheiro, o de reserva, o de Deus nos livre. Contaram-no em cima da mesa, alisaram as notas, separaram o que chegava para uma renda. Amparo deu por si já com o envelope feito, e havia de jurar que não tinha decidido fazê-lo. Não tinha sabido de nada. Mas as mãos sabiam. As mãos sabiam sempre primeiro, e o que elas sabiam naquela manhã era isto: o Salvo vinha aí. Ninguém lho tinha dito. Não era preciso. Há trinta anos que Amparo sentia as quedas do filho antes de o filho cair, como as velhas da serra sentem a chuva nos joelhos.

O telefone tocou ao meio-dia. Era Vera.

— Mãe.

— Diz, filha.

— Já soube. A obra parou. — Uma pausa do tamanho de uma costura. — Ele já aí foi?

— Vem aí.

— Pois vem. — Vera respirou fundo, e Amparo conheceu a respiração: era a dela, tal e qual, a respiração de quem arruma a paciência por dentro como quem arruma lençóis. — Mãe, eu não te vou dizer o que te disse da última vez.

— Dizes sempre.

— Pois digo. — E disse: — Um dia destes as tuas mãos caem-lhe em cima com tudo o que têm, e ele nem vai dar pelo peso. Porque nunca deu. Para ele as tuas mãos não pesam nada, mãe. São como o ar. Tu para ele és como o ar.

Amparo olhou para as mãos, abertas em cima da mesa ao lado do envelope. Vistas assim, paradas, eram as mãos de uma mulher de sessenta e três anos: a aliança enterrada no dedo desde que engordara, uma cicatriz antiga do lagar, os nós grossos. Não pareciam capazes de cair em cima de ninguém.

— O ar também faz falta — foi o que respondeu. E arrependeu-se da frase antes do fim, porque a ouviu na boca da sua própria mãe, dita na mesma cozinha, há cinquenta anos, sobre outro homem.

Vera calou-se um momento.

— Faz — disse por fim, cansada. — Faz falta a quem o respira, mãe. Tu é que já não respiras há muito tempo. Dá-lhe um beijo meu.

Salvo chegou a meio da tarde, com a luz já baixa nos campos. Amparo ouviu o portão e não foi à porta: ficou na cozinha, de propósito, com as mãos atadas uma na outra debaixo do avental, para as ensinar a esperar. Ele entrou como entrava sempre, num arrastado de quem pede desculpa ao chão, e sentou-se ao canto da mesa, no lugar que era dele desde criança.

Estava bem, à primeira vista. Era isso que ninguém de fora entendia: o Salvo estava sempre bem à primeira vista. Tinha o riso fácil do pai e os olhos dela, e uma maneira de contar as desgraças em que as desgraças pareciam piadas, ao menos durante o tempo de as contar.

— A obra parou, mãe — disse. — Não é nada, é o costume. O empreiteiro meteu-se em problemas com os de fora, aquilo agora ou paga o material ou paga a gente, enfim. Não é nada meu, desta vez. Eu até estava a render bem. Pergunte ao velho Justo, que ele viu-me lá em cima…

E falou, falou. Amparo aqueceu-lhe a sopa, cortou-lhe pão, pôs-lhe o prato à frente, e tudo isto as mãos fizeram por ela enquanto ela ouvia, porque era isso que as mãos sabiam fazer com a aflição: dar-lhe de comer. Ele comeu como comia em pequeno, depressa e agradecido, a falar com os olhos no prato, e a certa altura, sem mudar de tom, no meio de uma frase sobre o empreiteiro, deixou cair:

— …e depois há a renda, claro, que era para ser paga esta semana, mas pronto, isso agora logo se vê…

Não pediu. O Salvo nunca pedia. Tinha um jeito de pousar as faltas em cima da mesa, ao alcance das mãos dela, e as mãos dela faziam o resto. Era um entendimento tão velho e tão certo que já nem precisava de palavras: ele trazia a queda, ela trazia o chão.

E as mãos de Amparo, debaixo do avental, moveram-se.

Foi nesse movimento, nesse meio movimento na direção do envelope que estava ali mesmo, na ponta do armário, que aconteceu a coisa pequena de que tudo o resto haveria de vir. Amparo viu-se. Não soube explicar de outra maneira, nem nessa tarde nem depois: viu-se, como se estivesse de pé ao canto da cozinha a olhar para uma mulher sentada, uma mulher de mãos a caminho, e ao mesmo tempo, sobreposta a essa, viu outra cozinha igual àquela, e outra mulher, a mãe dela, a ir ao bolso do avental enquanto o Amadeu, ao canto da mesa, no mesmo canto, contava com os olhos no chão a desgraça que não era culpa dele, daquela vez também não. A vila inteira dizia que a mãe era uma santa. Diziam-no no largo, à saída, com aquele respeito que se tem pelas mulheres que se gastam. Uma santa. E o Amadeu foi ficando, foi ficando, foi ficando, e do irmão mais velho de Amparo a vila acabou por dizer apenas, e cada vez mais baixo, que nunca tivera sorte.

A mãe morreu primeiro. Morreu com o Amadeu ainda ali, no canto da mesa.

As mãos de Amparo pararam debaixo do avental.

Foi só isso, nessa tarde. Que ninguém procure aqui o milagre, a mulher que de um dia para o outro fecha a lata e endireita a vida, porque essa mulher não existe em Véspera nem em parte nenhuma. Amparo levantou-se, foi buscar o envelope, pousou-o ao lado do prato do filho. Mas contou-o primeiro. Pela primeira vez em trinta anos, contou o dinheiro à frente dele, nota a nota, devagar, e o Salvo desviou os olhos, porque o dinheiro contado tem um peso que o dinheiro dobrado não tem.

— Chega para a renda — disse ela. — Desta vez.

— Eu sei, mãe. Assim que aquilo recomece, eu…

— Salvo.

Ele calou-se. Ela ficou de pé, com as mãos pousadas uma na outra, quietas por uma vez, e fez-lhe a pergunta que nunca na vida lhe tinha feito. Saiu-lhe simples, sem zanga, com um espanto pequeno na voz, como quem repara numa porta que sempre ali esteve e nunca foi aberta:

— E tu, como te vais levantar tu?

O Salvo olhou para a mãe. Abriu a boca para responder o costume, e viu-se que não havia costume para aquilo: a pergunta não tinha resposta arrumada em parte nenhuma da casa. Ficou um silêncio comprido, dos que não se ouviam naquela cozinha há muitos anos, talvez desde o cordão à volta do pescoço. Lá fora, as galinhas. O rio ao fundo, que nunca se calava de todo.

— Eu logo me arranjo — disse ele por fim, baixinho, e não era resposta, e os dois souberam que não era.

Quando ele saiu, já com a luz a fugir dos campos, Amparo ficou à janela a vê-lo descer o caminho, como sempre ficava. Depois sentou-se à mesa, no lugar dele, coisa que nunca fazia, e pousou as mãos abertas na madeira, viradas para cima, à maneira de quem pede ou de quem mostra. Olhou-as muito tempo. As suas mãos de apanhar, de pagar, de aparar quedas. Ainda não sabiam estar quietas, e haviam de mover-se muitas vezes ainda, e mal, e cedo demais, antes de aprenderem.

Mas tinham dado por elas. E em Véspera sabe-se, melhor do que em qualquer outro lugar, como começam as cheias: longe, num riacho pequeno, com um som que ainda ninguém ouve. Depois não há volta a dar-lhes.

· fim da amostra ·

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