A Trovoada

Biblioteca de Véspera · o décimo sexto romance

A Trovoada

Tranquilina nasceu numa noite de trovoada, numa casa onde o amor e os gritos entravam juntos, e aprendeu a confundir a intensidade com o amor e a paz com o abandono. Agora tem, pela primeira vez, um amor calmo, e esse sossego, em vez de a sossegar, apavora-a. Este é o ano em que aprende a distinguir a paz da ausência, antes de rebentar, com as próprias mãos, o primeiro amor bom que a vida lhe deu.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Tranquilina, filha de gente da vila, nascida numa noite de trovoada, e o nome foi promessa e foi ironia, das que a vida prega às casas sem elas darem por isso: a mãe, que vivia com o pai um amor de gritos e de pazes, de partidas e regressos, de tempestade atrás de tempestade, pôs à filha, nascida no meio de uma trovoada, o nome de Tranquilina, a pedir à palavra o sossego que a casa não tinha; e a menina cresceu com o nome do sossego e o coração da trovoada, porque o que se aprende numa casa é mais forte do que o que se promete num batismo.

Os assentos dizem quem nasceu, em que noite, de quem, e quem com quem casou. Não dizem porque é que há corações que aprenderam a ler o amor pelo estrondo, nem o que custa, a quem assim aprendeu, distinguir, já adulta, o sossego do deserto. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A paz que assusta

Tranquilina tinha um namoro que toda a vila lhe invejava, e era esse namoro, precisamente, que a estava a deixar doente, porque era um namoro sem trovoada, e Tranquilina não sabia viver sem trovoada.

O Brando era relojoeiro, e tinha a loja na rua de baixo, ao lado do café da estação velha, com a montra cheia de relógios parados em horas diferentes e um só, ao centro, certo, a dar a hora a quem passava. Era um homem manso, e o nome dizia-o. Quando Tranquilina entrava na loja, ele não largava logo o que tinha nas mãos; acabava o ponto, a roda, o parafuso minúsculo que segurava entre dois dedos com uma pinça, e só depois levantava os olhos, com aquele sossego de quem trabalha com coisas pequenas e aprendeu, com elas, a não ter pressa de nada. Gostava de Tranquilina de uma maneira tranquila e funda, sem dramas, sem ciúmes, sem aquelas tempestades que ela conhecera nos amores antigos; tratava-a bem, falava-lhe baixo, nunca lhe levantava a voz, nunca a deixava à espera, aparecia sempre quando dizia que aparecia, e amava-a com uma serenidade que era, para qualquer mulher de juízo, o sonho, o porto, o descanso.

E Tranquilina, que não tinha juízo nestas coisas, ou que tinha um juízo torto, montado numa casa torta, em vez de descansar naquele amor sereno, andava com ele aflita, inquieta, a sentir que faltava qualquer coisa, sem saber o quê, e a coisa que faltava, ela descobri-lo-ia ao longo deste livro, era a tempestade.

Houve uma tarde, no princípio do livro, em que isto começou a tomar forma, e foi na própria loja do Brando. Tranquilina entrou, e o Brando estava debruçado sobre um relógio de bolso aberto na bancada, com a lupa enroscada no olho, e ela ficou a vê-lo trabalhar. Era um relógio velho, herança de alguém, e tinha-se parado havia anos; o Brando tinha-o desmontado peça a peça, e as peças estavam todas alinhadas num pano preto, por ordem, dezenas delas, minúsculas, e ele ia limpando uma a uma, sem pressa, com uma serenidade que a Tranquilina, naquela tarde, em vez de a acalmar, lhe deu uma comichão sem nome.

— Não te aborreces? — perguntou ela, e havia na pergunta uma ponta que ela própria não reconheceu. — Horas e horas com aquilo, sem dizeres nada, sem te mexeres.

O Brando levantou os olhos, tirou a lupa, e sorriu daquele sorriso dele que não pedia nada.

— É o contrário de me aborrecer — disse. — Um relógio destes parou porque alguém o forçou, ou o deixou cair, ou lhe deu corda a mais. A pressa estraga-os. Eles querem é mão calma. — E voltou ao trabalho. — Tu também me sossegas, sabias? És como a bancada num dia bom.

Tranquilina sorriu, e disse obrigada, e por dentro, com um arrepio que a envergonhou, pensou: não quero ser uma bancada. E não soube de onde lhe vinha aquilo, a vontade absurda de não ser sossego para ninguém, de ser antes a queda, a corda a mais, a coisa que faz o relógio parar de repente, porque uma coisa que faz parar é uma coisa que se sente, e uma bancada é uma coisa que não se sente, está lá, calada, certa, e ninguém repara nela enquanto está bem.

Houve um domingo, logo no princípio do livro, que mostrou a doença dela de corpo inteiro a quem soubesse ver, e nessa altura ainda ninguém sabia, nem ela. Tinham ido os dois passear ao rio, ao sítio manso, onde a água corre baixa e clara por cima das pedras, e o Brando levara pão e queijo e uma garrafa, e estenderam um pano à sombra, e foi uma tarde perfeita, daquelas que se guardam. E o Brando, deitado de costas com o chapéu sobre a cara, disse, a meio, com a voz preguiçosa de quem está bem, isto é que é viver, Tranquilina, um domingo assim, sem mais nada. E ela olhou-o, e olhou o rio manso, e olhou a tarde perfeita, e em vez de estar bem, sentiu subir-lhe, ali, no meio da perfeição, uma angústia sem nome, uma sensação de que aquilo era pouco, de que faltava qualquer coisa, de que tanta calma escondia uma ameaça. E o que ela queria, naquele momento, ao pé de um homem feliz num domingo perfeito, era que acontecesse alguma coisa, qualquer coisa, uma zanga, um susto, um estrondo, porque a tarde calma estava a sufocá-la, e ela não sabia porquê, e teve vergonha de não saber, e calou-se, e fez-se de bem, e por dentro pensou: que mulher é esta, que tem o paraíso à frente e quer atear-lhe fogo?

Porque o amor, para Tranquilina, tinha uma forma, e a forma era a da trovoada. Os amores que tivera, em rapariga, e tivera-os intensos, tinham sido todos assim: zangas e pazes, gritos e beijos, partidas a meio da noite e regressos de madrugada, ciúmes, dramas, reconciliações que valiam por todas as zangas, e Tranquilina vivera-os como se vive a febre, gastando-se, sofrendo, mas sentindo-se, em cada estrondo, intensamente viva, intensamente amada, porque para ela o estrondo era a prova: se ele gritava, é que se importava; se havia drama, é que havia amor; se a deixava e voltava, é que não podia viver sem ela. A intensidade era a medida do amor, e quanto mais doía, mais valia, e Tranquilina saíra desses amores destroçada e, no fundo, com uma espécie de saudade, a saudade da febre, a saudade de se sentir tão viva quanto só a tempestade a fazia sentir.

E agora tinha o Brando, e o Brando não dava tempestade nenhuma, e Tranquilina, em vez de agradecer ao céu, andava a definhar de calmaria.

Houve uma noite, ainda no princípio do livro, que lho mostrou de uma maneira que a assustou. Estavam os dois à porta da casa dela, sentados no degrau, numa noite calma de fim de primavera, e era uma noite boa, das que qualquer pessoa quereria. O Brando falava-lhe baixo dos planos dos dois, da loja que queria mudar para a rua de cima, de uma casa com um quintal que vira para venda, e ia falando devagar, sem pressa, como quem alinha as peças de um relógio no pano preto, uma a uma, por ordem, e a meio dizia, e tu o que achas, e ouvia-a de verdade. E Tranquilina, em vez de estar bem, sentiu subir-lhe uma inquietação que não sabia o que era, uma comichão, uma vontade de partir aquela calma, de dizer uma coisa que provocasse, de arranjar um motivo de zanga, e deu por si, com horror, a procurar na conversa do Brando uma coisa de que se ofender.

— E a casa do quintal — disse ela, com uma aspereza vinda do nada —, decidiste tu sozinho que era essa, foi? Nem me perguntaste.

O Brando ficou a olhá-la, sem perceber, porque acabara de lhe perguntar exatamente isso.

— Estou a perguntar-te agora — disse, manso, sem pegar. — Se não gostares dela, vemos outra. Não há pressa nenhuma.

E não havia, e foi isso que apagou a fagulha, porque o Brando não pegou, não se zangou, respondeu com a brandura de sempre, e a fagulha, sem nada que a alimentasse, apagou-se. E Tranquilina ficou com a inquietação por satisfazer, sentada no degrau ao lado de um homem que lhe oferecia uma casa com quintal, e foi-se embora nessa noite a sentir-se mal, sem perceber por que raio se sentia mal numa noite tão boa, com um homem tão bom, num amor que toda a vila lhe invejava.

E o Brando, que via mais do que dizia, deu-lhe um dia uma frase que ela não soube receber e que ficou a trabalhar nela como uma semente debaixo da terra. Tinham passado por uma daquelas noites em que ela andara a torcer-se sem motivo, e de manhã ele disse, sem azedume, a aviar o pequeno-almoço: tu não estás habituada à paz, Tranquilina, é só isso. Há pessoas que não estão habituadas à paz, que cresceram sem ela, e quando ela chega, em vez de descansarem, ficam à espera de que se estrague, porque foi o que sempre lhes aconteceu. Tu olhas para a calma como quem olha para um céu bom e diz isto não vai durar. Mas às vezes dura, sabes. Às vezes o céu é só bom. E foi-se para a loja, e Tranquilina ficou com a frase, tu não estás habituada à paz, e havia nela uma compreensão tão exata, tão sem culpa, que ela quase chorou, porque era a primeira vez que alguém lhe nomeava a doença sem a acusar, e ainda não sabia o que fazer com aquilo, mas guardou-o, como guardava os cacos, só que isto, ao contrário dos cacos, era uma coisa inteira.

Porque era isto que Tranquilina não conseguia entender de si própria: que se sentia mal no bem. Que uma noite calma com o Brando a deixava mais inquieta do que uma noite de zanga a deixara, em rapariga, com os amores tempestuosos. Que a paz, em vez de a sossegar, a punha em alerta, como se a calma fosse uma ameaça, como se o sossego escondesse um perigo, como se, no silêncio sem trovoada, ela esperasse a qualquer momento o estrondo, e o estrondo não viesse, e a espera do estrondo que não vinha fosse pior do que o próprio estrondo. Tranquilina não sabia descansar na paz; só sabia descansar depois da tempestade, na trégua, no intervalo entre dois estrondos, e um amor que não tinha estrondos não tinha, para ela, tréguas, porque uma trégua é o descanso da guerra, e onde não há guerra não há trégua, há só uma paz contínua que a Tranquilina, criada na guerra, não sabia habitar.

E não era a primeira vez que a calma a punha assim, embora fosse a primeira vez que ela parava para o ver. Anos antes, houvera um rapaz, o Telmo, filho do moleiro, um rapaz sério e calmo que a quisera namorar, e que era bom, e que a tratava bem; e Tranquilina, que então nem desconfiava da sua doença, achara-o sem graça, achara-o pouco, e largara-o ao fim de um mês, com uma desculpa que nem ela acreditou, e fora atrás de um homem-trovoada que a fez sofrer um ano. E ainda outro, mais tarde, um viúvo da rua de cima, sossegado, que lhe oferecera uma vida boa, e a quem ela arranjara, sem perceber porquê, zanga atrás de zanga, até o afastar. A vila dizia que a Tranquilina não assentava, que era de fogo, que gostava era de sofrer, e dizia-o quase com admiração, porque a vila também estava meio doente, também achava que uma mulher de fogo valia mais do que uma mulher sossegada. E Tranquilina ouvia aquilo, não assentas, e levava-o como um elogio, sem perceber que era um diagnóstico, que cada homem calmo que ela largara fora um aviso, uma porta que se abrira e ela fechara, e que a vida, paciente, lhos fora mandando, um a um, os homens de paz, e ela, fiel à trovoada, os fora despedindo a todos, até este, o Brando, o relojoeiro, que era o que ela mais arriscava perder, porque era o que ela mais amava, e o que mais amava era o que mais lhe dava medo, porque era o que tinha mais a perder.

A vila, que via de fora, não entendia. A Felismina, que fora vizinha dos pais dela na Ladeira e que a conhecia desde menina, encontrou-a uma manhã no lavadouro e disse-lho na cara, com a franqueza das mulheres velhas:

— Tu sabes a sorte que tens, filha? Um homem que não bebe, não grita, não te deixa à chuva. Eu vi a tua mãe à janela noites que tu não imaginas. Agarra o relojoeiro com as duas mãos.

— Eu sei, Felismina — disse Tranquilina. — Eu sei.

E sabia. Mas por dentro pensava, mas falta qualquer coisa, e não dizia a ninguém o que faltava, porque tinha vergonha, porque sabia, no fundo, que o que faltava era uma coisa errada, que faltava a tempestade, e que uma mulher que sente falta da tempestade num amor sereno é uma mulher com qualquer coisa torta dentro, e Tranquilina sentia a torcedura, e tinha vergonha dela, e não a sabia endireitar.

E o pior, o que a assustava mais, era uma coisa que ela começava a perceber e que não queria perceber: que ia rebentar aquele amor. Que se aquela inquietação continuasse, se aquela vontade de provocar tempestade continuasse a crescer, ela ia, mais cedo ou mais tarde, arranjar a tempestade, ia provocar uma zanga a sério, ia fazer o Brando perder a calma, ou ia ela própria fazer alguma coisa que rebentasse aquilo, só para sentir, no estrondo, que estava viva, que era amada, que aquilo era um amor a sério e não uma calmaria morna; e que ao fazê-lo ia destruir, com as próprias mãos, o primeiro amor bom que a vida lhe dera, e ia destruí-lo precisamente por ser bom, por ser calmo, por não dar tempestade, e que isso, rebentar o bom por ser bom, era uma coisa tão absurda, tão contra ela própria, que Tranquilina, ao entrevê-la, teve medo de si, do que era capaz de fazer ao Brando, à toa, só por não saber viver na paz.

Nessa noite, deitada, Tranquilina fez uma coisa que não fazia: tentou perceber-se. Em vez de empurrar a inquietação, como empurrava sempre, ficou com ela. Levantou-se, foi à cómoda, e abriu a gaveta de baixo, onde guardava, num frasco de vidro, uma coisa que nunca mostrara a ninguém e que nem sabia bem porque guardava: cacos. Cacos de loiça, miudinhos, alguns ainda com um resto de flor pintada, que ela apanhara do chão da cozinha da Ladeira, em pequena, depois das tempestades, quando a mãe varria os pratos partidos e ela, à socapa, salvava um caco ou dois e metia-os no bolso. Tinha-os guardado a vida inteira, sem saber porquê, e só agora, com o frasco na mão, à luz fraca do candeeiro, começava a desconfiar: tinha guardado as tempestades. Tinha guardado a prova de que ali, naquela casa, alguém se importara o suficiente para partir a loiça.

E lembrou-se, com o frasco na mão, de uma coisa que dizia muito e que ela nunca tinha ligado uma à outra. Lembrou-se de que, em casa, sozinha, sem ninguém, punha sempre qualquer coisa a fazer barulho: o rádio, ou a água a correr, ou conversava em voz alta com as galinhas, ou cantava, qualquer coisa que enchesse o silêncio, porque o silêncio de uma casa vazia dava-lhe uma aflição que ela nunca soubera nomear. E percebeu, naquela noite, que tinha medo do silêncio em si, não só do silêncio com o Brando; que o silêncio, para ela, fosse onde fosse, era o deserto, era a Ladeira nos dias mornos, era o lume a que o pai olhava por cima da sua cabeça; e que ela andava a vida a tapar o silêncio com barulho, com rádio em casa e com tempestades no amor, pelo mesmo medo, o medo de que o silêncio fosse a prova de que estava só, de que não era amada, de que o mundo se esvaziara à volta dela como a casa se esvaziara nos invernos mornos da infância.

E perguntou-se, no escuro, com o frasco dos cacos a fazer um peso pequeno na mão, por que raio é que a calma a assustava, por que raio é que ela, que tinha o sonho de qualquer mulher, um homem que a amava em paz, andava a definhar de paz e a sonhar com tempestade. E não soube responder, naquela primeira noite, porque a resposta vinha de longe, da casa, da trovoada em que nascera, dos gritos e das pazes dos pais, e Tranquilina ainda não tinha descido a esse fundo; mas ficou com a pergunta, pela primeira vez, em vez de a tapar, e adormeceu com ela, e foi um sono inquieto, o sono de quem pressente que vai ter de olhar uma coisa que evita há trinta e um anos, que é o sítio onde aprendeu, antes de saber falar, que o amor é uma trovoada, e que a paz, a calada, a do Brando, é o silêncio que vinha, na casa dela, depois das tempestades, e que ela aprendeu a temer mais do que aos próprios estrondos, porque era o silêncio em que os pais, esgotados de gritar, não se falavam, e a casa ficava um deserto, e a menina, no deserto do silêncio, sentia-se mais só e mais desamada do que no meio dos piores gritos.

· fim da amostra ·

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