A Trave-Mestra

Biblioteca de Véspera · o décimo sétimo romance

A Trave-Mestra

Perpétua tornou-se a coluna da Casa do Lagar aos catorze anos, quando a mãe morreu, e nunca mais largou o peso: é a ela que se ligam as aflições, a ela que cabem os velhos, as festas, as crises de todos, enquanto os irmãos vivem leves nas suas costas e ninguém pergunta à trave como está. Este é o ano em que o corpo lhe diz basta, e em que ela aprende a coisa mais difícil de uma vida a segurar a casa: que pousar não é deixar cair, é deixar a casa aprender a aguentar-se, e descobrir, do outro lado do peso, quem é Perpétua quando não está a segurar nada.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Perpétua, filha da Casa do Lagar, a prima que ficou com a casa-mãe, e o nome foi promessa, das que se cumprem ao contrário.

A mãe quis que a filha fosse perpétua, que durasse, que segurasse, e a filha cumpriu-o de uma maneira que a mãe não previu, segurando a família inteira nas costas a vida toda, como uma trave-mestra segura um telhado, sem que ninguém, em cinquenta anos, perguntasse à trave como estava.

Os assentos dizem quem ficou com a casa de quem, quem segurou as festas, quem acudiu a quem. Não dizem que peso é esse que não se vê porque parece força, nem o que range por dentro de uma trave que a casa inteira esquece que também é madeira, nem o que se pergunta uma pessoa quando, ao fim de uma vida a segurar tudo, não está a segurar nada. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A coluna

Perpétua era a primeira a acender o lume na Casa do Lagar e a última a apagá-lo, e entre uma coisa e a outra cabia a casa toda, e a família toda, e os velhos todos, e ela não dava por que era muito, porque uma coluna não pesa o telhado, segura-o.

Era a ela que se ligava. O telefone tocava na cozinha àquelas horas a que só tocam as aflições, e era o Belmiro, da cidade, com a voz já a pedir antes de dizer o quê: ó Perpétua, olha, este mês apertou, foi o carro, foi a escola dos miúdos, eu depois acerto contigo. Era a Felismina, da vila ao lado, que vinha passar uns dias à Casa do Lagar para descansar dos problemas dela e deixava os problemas todos à porta para a Perpétua os segurar enquanto ela descansava. Era o tio Aníbal, acamado havia dois anos no quarto do fundo, que era da Perpétua tratar, mudar, alimentar, velar, porque a Perpétua é que sabe, a Perpétua é que tem jeito, a Perpétua é que pode. E era dela a casa-mãe, e quem tem a casa-mãe tem as festas, os Natais, as bodas, os funerais, a mesa comprida posta e levantada por umas mãos só, porque é na casa-mãe que a família se junta, e a família junta-se para ser servida, não para servir.

O peso maior, naqueles anos, era o tio Aníbal, acamado no quarto do fundo. E o tio Aníbal era um peso que ninguém via, porque se fazia de portas adentro, de madrugada, sem testemunhas. Perpétua levantava-o sozinha para o mudar, e um homem acamado pesa como chumbo, e ela já não tinha idade nem costas para o levantar, mas levantava, porque não havia mais ninguém às seis da manhã no quarto do fundo da Casa do Lagar. Lavava-o, mudava-lhe a roupa suja, virava-o de lado para não criar feridas, dava-lhe o caldo à boca, colher a colher, ouvia-lhe as queixas, os ais, as confusões de velho, e tornava a subir a meio da noite quando ele chamava, e fazia tudo isto sem nunca se queixar, porque queixar-se era de quem tem a quem se queixar, e ela não tinha. Os irmãos sabiam que o tio estava a cargo da Perpétua, e isso bastava-lhes; sabê-lo a cargo dela era não terem de pensar mais nisso, porque um peso a cargo de uma coluna é um peso que deixa de existir para os outros. E Perpétua fazia tudo, e fazia-o bem, e fazia-o calada, com aquela competência que a família tomava por certa como se toma por certa a trave do telhado: ninguém lhe agradece, ninguém lhe pergunta como está, porque uma trave não se cansa, está lá. Um domingo, à noite, o telefone tocou, e era o Belmiro, e a chamada foi a chamada de sempre, e Perpétua, que a conhecia de cor, soube logo, pelo tom da primeira palavra, que vinha pedido.

— Ó Perpétua, então, como é que vais? — disse o Belmiro, e não esperou pela resposta, que ninguém esperava pela resposta da Perpétua a essa pergunta. — Olha, eu liguei-te porque... pronto, este mês foi mau. Foi o carro, que se avariou, e a escola dos miúdos, e a renda subiu, e eu fiquei sem nada para o fim do mês, e pensei, a Perpétua se calhar pode safar-me, só desta, que depois eu acerto contigo, eu pago-te assim que puder.

E a Perpétua, do outro lado, com a lista das contas dela na cabeça, com o tio a chamar do quarto, com as costas a doerem-lhe do dia, disse o que dizia sempre.

— Está bem, Belmiro. Quanto é que precisas?

E o Belmiro disse, e era muito, e Perpétua disse está bem, eu trato, e o Belmiro aliviou na voz toda, na hora, ai mana, salvaste-me, és um anjo, não sei o que era de mim sem ti; e desligou, leve, o problema dele despejado nela, e nunca, em toda a chamada, perguntou à irmã como ia ela, se tinha ela com que pagar as suas contas depois de pagar as dele, se as costas lhe doíam, se estava cansada, se estava só. Porque ao Belmiro a Perpétua não tinha contas nem costas nem cansaço nem solidão; a Perpétua tinha era jeito, e dinheiro, e paciência, e estava sempre lá. E Perpétua foi à lata da despensa, à da farinha que não tinha farinha, onde guardava o dinheiro de reserva, o do Deus nos livre, e tirou de lá o do Belmiro, e ficou com menos para si, e nem reparou que ficava com menos, porque tinha quarenta anos de prática a reparar só no que faltava aos outros.

E a vila, que via de fora, dizia dela o que se diz das mulheres que se gastam: aquela é uma santa, o que seria daquela família sem a Perpétua, aquela aguenta tudo. E era um elogio, e era uma sentença, porque ao que aguenta tudo carrega-se mais, sempre mais, que a força dos outros é a desculpa para a nossa fraqueza.

Os irmãos viviam leves, e era isso, mais do que o peso, que começava a doer-lhe sem ela ainda o admitir. Podiam viver leves porque ela era a coluna. O Belmiro queixava-se das suas coisinhas da cidade, das contas, do cansaço, a uma irmã que lhe segurava as coisas grandes todas e a quem ele nunca perguntava das dela. A Felismina vinha descansar a casa de quem nunca descansava. E o mais novo, o Tó, esse nunca pegara em peso nenhum na vida, e aos quarenta anos ainda recorria à Perpétua para tudo, para o dinheiro, para os conselhos, para o desenrascar das asneiras, com a naturalidade de quem recorre a uma mãe, que era o que a Perpétua fora para ele desde que a mãe verdadeira morrera.

E o corpo começava a falar. Perpétua não o dizia a ninguém, que dizer era queixar-se, e queixar-se não era do feitio de uma coluna; mas havia meses que tinha umas dores nas costas que não passavam, um cansaço que o sono não tirava, uma falta de ar a subir a escada do tio. Empurrava os sinais, desculpava-os com a idade, com o trabalho, com tudo menos com a verdade, que era que a madeira velha, ao fim de uma vida a aguentar peso de mais tempo de mais, começava a ranger por dentro, devagar, num som que ainda ninguém ouvia mas que ela já sentia.

A escada do quarto do tio, lá em cima, tornara-se uma medida do seu cansaço. Antes subia-a de um fôlego, com a bandeja do caldo numa mão; agora tinha de parar a meio, a segurar-se ao corrimão, à espera que o ar voltasse e o coração abrandasse, e só depois subir o resto. E parava sempre no mesmo degrau, o sétimo, e ria-se de si, com uma ironia triste, lá vou eu, o meu degrau; e não dizia a ninguém que parava no sétimo degrau, porque dizê-lo era admitir que a trave rangia, e a trave não range à frente da casa. Subia, parava no sétimo degrau, recuperava o fôlego, e continuava, todos os dias, várias vezes ao dia, e ninguém sabia que a Perpétua, a que aguenta tudo, já não aguentava uma escada sem parar; ninguém sabia porque ela escondia o degrau como escondia tudo, e a casa, por cima, continuava a encostar-se-lhe sem reparar que a coluna já parava a meio das escadas para não cair.

Foi a um Natal que o ranger se ouviu pela primeira vez, ainda que só ela o ouvisse.

Tinha andado três dias a preparar tudo, sozinha. Três dias de cozinha, das cinco da manhã à meia-noite: as carnes de véspera, os doces que a mãe fazia e que ela continuava a fazer como se a mãe estivesse a ver, o bacalhau de molho, a casa esfregada de alto a baixo, a loiça boa tirada do armário e lavada, a mesa comprida montada com os cavaletes e as tábuas que se guardavam todo o ano para aquilo. Os velhos lavados e vestidos e sentados nos seus lugares. O tio Aníbal descido a custo do quarto para a sala, ao colo de ninguém senão dela, para não passar o Natal sozinho no quarto do fundo. E tudo isto Perpétua fez sozinha, nos três dias, enquanto os irmãos telefonavam a perguntar a que horas era o almoço e se precisavam de levar alguma coisa, e ela dizia não, não precisam de levar nada, venham só, que está tudo tratado; porque pedir que levassem alguma coisa era admitir que não dava conta, e a Perpétua dava sempre conta, e era nesse dar sempre conta, nesse dizer está tudo tratado, venham só, que se fazia, ano após ano, a leveza dos outros e o peso dela. A mesa comprida ocupava a sala toda, e à mesa estava a família inteira, a rir, a comer, a falar por cima uns dos outros, e Perpétua, de pé, a servir, ia da cozinha à mesa e da mesa à cozinha, e ninguém se levantava para a ajudar, porque servir era da Perpétua, como respirar é dos pulmões.

O Belmiro, com o copo na mão, contava uma história da cidade, alto, para a mesa toda. A Felismina mandava na conversa. As crianças corriam por baixo da mesa. E a certa altura, no meio daquilo tudo, com uma travessa nas mãos, Perpétua sentiu o mundo andar à roda. Uma falta de ar. Uma dor que lhe apertou o peito como uma mão. Teve de pousar a travessa no aparador e encostar-se à parede, ali mesmo, ao canto da sala, para não cair, e ficou encostada à parede fria, com a sala a rodar-lhe à frente, a olhar a mesa comprida cheia da família que ela sustentava.

E ninguém deu por ela.

Foi isso o que mais a marcou, depois, ao repassar a noite: não a dor, o não terem dado por ela. A família ria e comia a três passos, e a coluna estava encostada à parede a tentar não cair, e ninguém olhou, porque ninguém olha para a trave, olham para a mesa, para a festa, para a comida que ela fizera. O Belmiro acabava a história, e houve gargalhadas. A Felismina pediu mais vinho, e foi o Tó que se levantou, não para ir à cozinha, para ir buscar a garrafa que estava ali ao pé. Ninguém precisou da Perpétua naquele instante, e foi o único instante da noite em que ela precisou de alguém, e não houve ninguém.

Encostada à parede, com a mesa cheia à frente, Perpétua teve, pela primeira vez na vida, um pensamento que a gelou: e se eu caio? Agora, aqui, contra esta parede, e se eu caio? Quem segura isto tudo?

E o que a gelou não foi poder cair. Foi não ter resposta. Porque percebeu, ali, encostada à parede, que se ela caísse não havia outra coluna. Não havia ninguém preparado para segurar coisa nenhuma, porque ela, a vida toda, ao segurar tudo, tirara aos irmãos a necessidade e a prática de segurar fosse o que fosse. A Casa do Lagar era uma casa de uma só coluna, e uma casa de uma só coluna cai inteira no dia em que a coluna racha. Ao não deixar ninguém partilhar o peso, ela não tornara a casa forte, tornara-a frágil, dependente de uma só madeira velha que começava, em silêncio, a ceder.

Passou-lhe a tontura. Perpétua endireitou-se, respirou, pegou na travessa, e voltou à mesa, e sorriu, e serviu, porque a coluna não cai à frente da casa. Ninguém soube. O Belmiro, ao receber o prato, disse só, sem olhar, está tudo bom como sempre, ó mana, tu é que sabes; e foi o agradecimento da noite, dito de passagem, com os olhos na comida, e a Perpétua serviu o seguinte.

À noite, levantada a mesa, lavada a louça, deitados os velhos, mudado o tio Aníbal, idos embora os irmãos leves e agradecidos, com um beijo e um até para a semana, Perpétua ficou sozinha na casa-mãe. A cozinha cheirava ainda a Natal. Sentou-se, que era das poucas vezes no ano que se sentava sem ser para descascar ou remendar, e ficou a olhar a casa vazia, a casa que segurava, e deixou-se, por uma vez, sentir o que empurrava sempre. Sentiu-se só. Só de uma maneira funda, a solidão da coluna, a de quem segura todos e a quem ninguém segura.

E fez, sem o querer, a pergunta que lhe ia mudar a vida. Não a do Natal, a outra, a que vinha por baixo. Toda a gente se encosta a mim, pensou, olhando a parede onde se encostara horas antes. E eu, a quem me encosto? Quem segura a Perpétua?

E não soube responder, porque a resposta, percebeu-a com um aperto, era a ninguém. Era aquela parede fria de uma cozinha vazia ao fim de uma festa. E foi-se deitar com a pergunta, e foi a primeira noite, em muitos anos, em que o cansaço de cinquenta e dois anos não lhe trouxe sono, porque por baixo do cansaço estava agora, acordada, a coluna a perguntar quem a segurava a ela, e a descobrir, no escuro, que não tinha ninguém, que se segurava a si própria, e que estava a ficar sem forças para o fazer.

· fim da amostra ·

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