A Tradutora

Biblioteca de Véspera · o oitavo romance

A Tradutora

O filho de Eulália veio ao mundo a dizer as coisas de outra maneira, e só ela aprendeu a língua dele. Tornou-se a sua voz para o mundo inteiro — para os médicos, para a escola, para a vila — e nisso se apagou: ao fim de uma vida a falar por ele, já não sabia o que ela própria queria, pensava, sentia. É a história de uma mãe que confundiu amar com desaparecer, e que só aprende a usar a sua própria voz quando se cala o suficiente para o mundo ter de aprender a ouvir o filho. A primeira frase que diz por si, no fim: eu também tenho uma voz.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Eulália, filha de gente de Véspera, mãe de Tomé. Foi, durante uma vida inteira, a voz do filho para o mundo: a que o traduzia aos médicos, aos professores, à vila, porque ele veio ao mundo a dizer as coisas de outra maneira, e foi ela, e só ela, que aprendeu a língua dele.

O nome foi promessa: a mãe quis-lhe o nome de uma fala fácil e clara, sonhando uma filha que se soubesse dizer ao mundo. E a vida deu uma mulher que passou a vida a dizer os outros e que, muito tarde, já mal se lembrando do som da própria voz, se perguntou se também teria uma.

Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem partiu. Não dizem o que custa a uma mãe ser a única ponte entre um filho e o mundo, nem o que se cala por baixo de uma voz emprestada até a nossa não saber já o seu som. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A língua do Tomé

Havia em Véspera uma língua que só duas pessoas no mundo falavam, e uma delas era Eulália, e a outra era o filho dela, e foi essa língua, falada a dois, que fez a vida de Eulália e que quase a desfez.

Era uma terça de feira, e estavam os dois no largo, à banca da Aurora, a das hortaliças. O Tomé pegou num molho de coentros, levou-o ao nariz, e fez um som, um som curto, com a cabeça de lado, e Eulália, sem olhar, soube. Não esses, disse à Aurora. Os outros, os da ponta, que estes estão a passar. A Aurora olhou para o Tomé, olhou para os coentros, e não percebeu como é que a Eulália sabia, dos da ponta, se o homem não dissera nada, se o homem só fizera aquele som que ela, Aurora, ouvia havia trinta anos sem nunca ter percebido que era fala. Vocês entendem-se, dona Eulália, disse a Aurora, a embrulhar os coentros bons. É um dom. E Eulália sorriu o sorriso de sempre, o sorriso de quem ouviu aquilo mil vezes, e não disse o que sabia, que não era dom nenhum, era trabalho, eram trinta anos de atenção, era ter aprendido, som a som, que um coentro a passar tinha para o Tomé um cheiro que o fazia virar a cabeça daquela maneira e não de outra.

Porque o Tomé viera ao mundo a dizer as coisas de outra maneira. Não era surdo, ouvia tudo; não era parvo, percebia tudo, e mais depressa do que muita gente que falava à vontade; mas o que ele tinha cá dentro não lhe saía pela boca na língua dos outros, saía-lhe noutra coisa, em sons que não eram palavras, em gestos das mãos, em maneiras de olhar, em silêncios que diziam mais do que os silêncios das outras pessoas. E a vila, que só sabia ouvir a sua própria língua, olhava para o Tomé e não o entendia, e por não o entender achava que ele não tinha nada para dizer, o que era a coisa mais errada do mundo, porque o Tomé tinha tanto para dizer como qualquer um, só que numa língua que ninguém se dera ao trabalho de aprender.

Ninguém, menos a mãe. Eulália aprendera a língua do filho da maneira que se aprende a respirar, sem saber que estava a aprender, e aprendera-a aos pedaços, em anos de cozinha e de noites em claro. Ainda se lembrava da tarde em que descobrira a diferença entre os dois sons. O Tomé teria os seus três anos, e fazia um som agudo, e ela acudia com a papa, e ele recusava a papa e fazia o mesmo som, e ela desesperava, porque não percebia, porque o som era igual, e dava-lhe a papa e ele gritava e ela chorava de não saber, até que uma vez, uma só, reparou que quando era fome ele apertava a mão e quando era outra coisa ele abria-a, e a outra coisa, descobriu nessa tarde, era medo, medo do cão do vizinho que ladrava na rua, e a partir daquela tarde houve no mundo dois sons onde antes havia um, e Eulália soube, pela primeira vez, que aquilo era uma língua, e que ela ia ter de a aprender toda, palavra a palavra, sem dicionário, sem ninguém que lha ensinasse, só ela e o filho e os anos.

É preciso dizer também, para se entender o Tomé, que ele não era um menino triste nem um homem amargo. Pelo contrário. Tinha uma alegria limpa, e a sua risada, quando vinha, era das coisas mais bonitas de Véspera, uma risada que vinha do fundo, que enchia a casa. Gostava do sol na cara, gostava de música, gostava do tato de certas coisas, gostava de rir. A mãe punha-lhe, ao serão, um disco velho, uma fado antigo que fora do pai dela, e o Tomé fechava os olhos e baloiçava o corpo, e às vezes, no fim, batia com a mão no joelho, de contente, e Eulália sabia, batendo ele assim, que era para pôr outra vez. O drama do Tomé nunca foi não ter nada dentro; foi não ter como mostrar ao mundo o muito que tinha. Era um homem cheio por dentro e mudo por fora, e a mãe era a única fresta por onde aquele dentro saía para o mundo, e por isso a mãe era tão importante, porque sem ela todo aquele mundo interior ficava preso, invisível, e o mundo lá fora via só um homem que fazia sons e gestos e não imaginava o universo que havia por trás.

E então tornou-se a tradutora. Aonde quer que fossem, era Eulália quem dizia ao mundo o que o Tomé queria dizer. Houve uma vez, no posto médico, em que ela viu bem o que era ser essa fresta. O doutor Vilar, o de antes do que há agora, perguntou ao Tomé onde lhe doía, e o Tomé fez o som da dor e levou a mão à barriga, do lado, e Vilar, que não conhecia a diferença, ia escrever uma coisa, e Eulália disse, do lado direito, doutor, não é a barriga toda, é aqui, e há dois dias, que ele dormiu mal anteontem e ontem e hoje já nem comeu. E o Vilar pousou a caneta e olhou para ela como quem olha para uma coisa estranha, e disse, a senhora ouviu-o dizer isso? E Eulália disse que sim, e era verdade, ela ouvira, no som e na mão e no jeito de o Tomé dobrar o corpo, uma frase inteira que o doutor não ouvira porque não sabia a língua. Era a ponte. Era a única estrada por onde o que o Tomé tinha dentro chegava ao mundo lá fora.

E havia nisto uma grandeza, é preciso dizê-lo. Eulália salvou o filho mil vezes, em mil consultas, em mil reuniões em que, sem ela, o Tomé teria sido tratado como um caso e não como uma pessoa. Foi, durante décadas, a diferença entre o Tomé ser uma pessoa aos olhos da vila e o Tomé ser um problema, e isso não é pouco, é uma vida inteira de amor traduzido em vigilância, em nunca poder faltar, porque se ela faltasse o filho ficava sem voz.

As pessoas, na vila, achavam que sabiam o que era a vida de Eulália. Diziam, à passagem, ai a dedicação daquela mulher, ai como ela trata bem do filho, e Eulália ouvia e baixava a cabeça. Mas ninguém sabia o que era estar sempre de serviço, sem férias, sem folgas, sem um minuto em que se pudesse desligar. Uma mãe que é a única ponte do filho para o mundo não tem nunca um momento de descanso: mesmo a dormir, dorme de ouvido aberto; mesmo doente, tem de se levantar; mesmo no fim das forças, tem de estar lá, porque uma língua que só uma pessoa fala não tem suplentes. Houve um Natal, um, em que Eulália teve quarenta de febre e se levantou na mesma, porque o Tomé acordara aflito de um sonho e fazia o seu som no escuro e não havia mais ninguém na casa que o entendesse, e ela foi, a tremer de febre, e sentou-se na cama dele a fazer-lhe o som do conforto até ele adormecer, e só depois é que se deixou cair, no corredor, encostada à parede, e ficou ali até ter forças para ir para a cama. Ninguém viu. Ninguém soube. De manhã estava de pé, com a sopa ao lume, e a vizinha que veio trazer o bolo-rei disse-lhe, ai Eulália, tu é que és uma santa, e Eulália agradeceu, e não disse nada do corredor.

Mas toda a ponte tem um peso, e o peso desta caía todo sobre Eulália, e caía de uma maneira que ela não via porque estava demasiado ocupada a ser a ponte para reparar no que a ponte lhe custava. O que lhe custava era ela própria. Porque uma pessoa que passa a vida a dizer o que outro quer dizer deixa, devagar, de dizer o que ela própria quer; e Eulália, ao fim de tantos anos a ser a boca do Tomé, já quase não tinha boca para si, já não sabia, se lhe perguntassem, o que é que ela queria, o que é que ela pensava, porque havia décadas que tudo o que saía da boca de Eulália começava por «ele», e nada, ou quase nada, começava por «eu».

Houve uma tarde, em casa de gente, em que isto lhe apareceu inteiro à frente, embora ela só o tivesse entendido muito mais tarde. Eulália e o Tomé tinham ido ver a Lurdes, uma conhecida de anos, e a Lurdes, que conhecia o Tomé desde menino, falou com ele olhando para a mãe. Perguntou-lhe a ele, e então, Tomé, como é que tens andado, e nem esperou que ele fizesse o som, virou-se logo para Eulália, e então, dona Eulália, como é que ele anda. Como se o Tomé fosse uma criança eterna ou um móvel da casa, e não um homem que estava ali, sentado, a ouvir, a perceber tudo. E o Tomé baixou os olhos, e Eulália viu-o baixar os olhos, e sentiu a raiva surda de sempre, a raiva de ver o filho tratado como se não estivesse presente. Mas respondeu. Andou bem, Lurdes, obrigada, esteve adoentado mas já passou. Respondeu, como respondia sempre, porque era mais rápido ela responder do que esperar que o mundo se desse ao trabalho de falar com o Tomé e de esperar pela resposta dele. E assim, sem reparar, Eulália foi-se tornando cúmplice do apagamento do filho aos olhos do mundo, ao mesmo tempo que era a única que o via inteiro: ela, que melhor o conhecia, era também a que mais ajudava o mundo a não ter de o conhecer.

Voltaram a pé para casa, da Lurdes, e a meio do caminho o Tomé parou, e fez um som, e olhou para a mãe, e Eulália, que sabia a língua toda, percebeu o que ele dizia, e era ela falou contigo, não comigo. E Eulália, que tinha resposta para tudo no mundo do filho, não teve resposta para aquilo. Pôs-lhe a mão no ombro, e disse, eu sei, filho, eu sei, e seguiram. E nessa noite, depois de o deitar, Eulália sentou-se à mesa da cozinha, sozinha, e tentou saber o que ela própria achava, não de uma coisa do Tomé, de uma coisa qualquer, do tempo, da vila, de si, e deu com um vazio, com um silêncio, como se a parte dela que tinha opiniões e vontades tivesse atrofiado de tanto não ser usada, como atrofia um braço que se traz ao peito anos a fio. Falava o dia todo, mais do que ninguém na vila, e ao mesmo tempo era, sem que ninguém soubesse, a mulher mais calada de Véspera, porque nada do que dizia era seu.

Era conhecida, na vila, como a mãe do Tomé. Não pelo nome. Pouca gente, se calhar, se lembrava do nome dela, Eulália, o nome bonito que a mãe lhe dera a sonhar com uma filha de palavra fácil. Era a mãe do Tomé, e era a tradutora, e essas duas coisas tinham-lhe comido o nome. E ela aceitara que assim fosse, achara até que era assim que devia ser, que uma boa mãe é isso mesmo, é alguém que desaparece atrás do filho, que se faz toda dele. Eulália achava que estava a ser uma boa mãe. E estava. Mas estava também, sem o saber, a desaparecer, e ninguém desaparece de graça, e a conta daquele desaparecimento havia de lhe chegar, um dia, como chegam todas as contas, quando menos se espera e já não há como adiá-la.

Houve uma noite, por esse tempo, que mostrava bem o que era aquela vida de dois, o muito que tinha de bom e o muito que cobrava. Veio uma trovoada, das grandes, das que faziam tremer os vidros, e o Tomé, que tivera sempre medo de trovões desde menino, acordou, e fez o seu som, e Eulália ouviu-o do outro quarto, de ouvido aberto como dormia sempre, e levantou-se. Foi ter com ele, no escuro, e sentou-se na cama dele, e fez-lhe o som do conforto, e o Tomé agarrou-se-lhe ao braço, e a cada trovão Eulália dizia, na língua dos dois, com a mão a apertar-lhe a mão num certo ritmo, que era o jeito que ele entendia, já passou, já passa, estou aqui. E ficaram assim, mãe e filho, à luz dos relâmpagos, ela a traduzir-lhe a tempestade, a dizer-lhe que o barulho não fazia mal, que era longe, que a casa era forte, e o Tomé foi-se acalmando, e adormeceu de mão dada com ela, e Eulália ficou ali, na borda da cama, com a mão presa na do filho, a ver os relâmpagos pela frincha da janela, e havia naquilo uma doçura que ela não trocava por nada, a de ser, no mundo inteiro, a única pessoa que podia dizer àquele homem que a trovoada já passava de uma maneira que ele entendesse. E havia também, por baixo da doçura, uma coisa que ela não via: que eram três da manhã, que ela trabalhava desde as seis, que ia trabalhar até à noite, e que não havia, nem nessa noite nem em nenhuma, ninguém que se pudesse levantar em lugar dela, porque a língua do conforto só ela a falava, e um conforto que só uma pessoa sabe dar não tem quem o renda às três da manhã. Voltou para a sua cama quando a trovoada passou, e dormiu duas horas, e às seis estava de pé, e ninguém soube da noite, e de manhã, ao café, sentiu-se a mulher mais rica do mundo e a mais cansada, as duas coisas ao mesmo tempo, e não percebeu, ainda, que eram a mesma coisa.

E, no entanto, é preciso dizer também o avesso disto, para que a história seja justa. Aquela língua de dois, que viria a revelar-se uma prisão, foi durante muitos anos a coisa mais bonita da vida de Eulália. Havia entre ela e o Tomé uma intimidade que poucas mães e poucos filhos chegam a conhecer, de quem partilha uma língua secreta, de quem se entende sem palavras. Ao serão, com o fado a tocar, os dois comunicavam sem ninguém os entender, e havia ali um mundo só deles, quente, fechado, seguro, e Eulália não o trocava por nada. O problema, percebê-lo-ia muito mais tarde, nunca foi o amor; o amor era bom. O problema foi a língua de dois ter-se tornado a única língua que Eulália falava, ao ponto de ela esquecer que tinha, algures, uma língua só sua, por estrear.

Tinha cinquenta e muitos anos quando esta história começa, e o Tomé era já um homem feito, com a sua barba, com o seu corpo de adulto, mas que continuava a precisar da mãe para chegar ao mundo, porque o mundo nunca aprendera a língua dele, nunca tivera de a aprender, porque havia sempre a Eulália a traduzir, e ninguém aprende uma língua que não precisa de saber. E foi isto, este arranjo de uma vida, esta ponte de duas pessoas, que parecia tão sólido, tão eterno, que um susto, um único susto, havia de pôr a tremer, mostrando a Eulália, de repente, o que ela construíra: uma estrada por onde o filho saía para o mundo e por onde ela própria nunca mais entrara em si.

· fim da amostra ·

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