
Biblioteca de Véspera · o nono romance
A Sentinela
Numa noite de febre, com os filhos pequenos, Custódia aprendeu que velar salva e que dormir mata, e nunca mais baixou a guarda. Os filhos cresceram, ficaram a salvo e foram viver longe — e ela ficou no posto, de vigia a uma casa que não dorme, a guardar quartos vazios à espera de um perigo que passou há trinta anos. É a história de uma mãe que confundiu amar com não largar, e que só aprende a descer da guarda — a dormir, a confiar, a viver — quando uma queda no escuro, sem ninguém que a veja, lhe mostra a solidão da sentinela que velou todos e que ninguém vela. A frase do fim: eles estão a salvo, e eu também posso descansar.
Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.
Do registo de Véspera
No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:
Custódia, filha de gente de Véspera, mãe de Mercês e de Tobias. Criou os filhos com uma vigília que nunca conheceu descanso, e fez da guarda o seu amor: a mãe que não dormia, que mantinha os seus a salvo por nunca baixar os olhos. Os filhos cresceram, fizeram a vida deles longe, e ela ficou no posto.
O nome foi promessa: a mãe quis-lhe o nome de quem zela e guarda os seus, sonhando uma filha que soubesse cuidar. E a vida deu uma mulher que cuidou tão bem, e por tanto tempo, que ficou a guardar quartos vazios, de vigia a uma casa onde já não dormia ninguém.
Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem partiu de casa para a sua vida. Não dizem o que custa a uma mãe descer da guarda, depois de uma vida a velar, nem se há, do outro lado do ninho vazio, quem ouça que pode, enfim, descansar. Para isso são precisos os livros como este.
capítulo um
A casa que não dorme
Havia em Véspera uma casa que não dormia, e quem passasse de noite via-o: a luz da cozinha acesa às duas, às três da manhã, e atrás da janela a sombra de uma mulher de pé, à escuta, como uma sentinela no alto de uma muralha.
Numa noite de outubro, Custódia acordou às três, como sempre, sem despertador. Não foi um som que a ergueu, porque não havia som nenhum, foi o corpo, o velho sobressalto de quem ouve um filho a chorar trinta anos depois de o choro ter parado. Sentou-se na cama no escuro, com o coração ainda a bater por um perigo que não vinha, e ficou um instante à espera de o ouvir outra vez, o choro, a tosse, o passo pequeno no corredor, qualquer coisa que justificasse o sobressalto. Não veio. Nunca vinha. Mas Custódia levantou-se na mesma, porque ficar deitada à escuta era pior do que ir ver, e vestiu o roupão da ronda das três da manhã, o de lã grossa que tinha pendurado atrás da porta para este efeito, para não acender luzes a procurar agasalho.
O soalho estava frio nos pés. Cheirava à cera com que ela encerara o corredor na véspera, um cheiro fundo e doce de casa cuidada que ninguém pisava. Foi primeiro à cozinha. A luz estava acesa, como a deixara, mas Custódia parou na soleira a confirmá-lo, a confirmar o farol, e só depois seguiu, porque uma cozinha às escuras era, para ela, uma casa rendida. Atravessou o corredor com a mão a roçar a parede, devagar, e chegou aos dois quartos ao fundo. À porta do quarto da Mercês parou e escutou. Nada. À porta do quarto do Tobias parou e escutou. Nada. Empurrou esta última, que rangeu de leve, e entrou.
A cama estava feita, como a fizera ao domingo, os lençóis esticados, a colcha direita. Mesmo assim Custódia chegou-se, alisou o lençol de cima com a palma da mão, num gesto que não tinha nada para corrigir, e esticou um canto da colcha que já estava esticado. Na parede, à cabeceira, estavam os traços a lápis, a altura do Tobias marcada a cada ano, um risco e a idade ao lado, na letra dela: cinco, seis, sete, e os riscos a subir pela parede até pararem de repente aos dezoito, onde o filho parou de crescer e começou a ir-se embora. Custódia passou o dedo pelo último, como quem fecha um caixão devagar, e ficou ali, à escuta de uma respiração que não vinha, a respiração de um rapaz a dormir que ela esperara ouvir todas as noites de trinta anos e que há muito, muito tempo, não enchia aquele quarto.
Depois voltou para a cama, e ficou de olhos abertos no escuro até a luz chegar pela frincha da janela. Levantou-se cansada, com o cansaço de quem velou, e foi a cara dela, ao espelho, que lhe cobrou a noite: tinha cinquenta e muitos anos e a vila dava-lhe mais, porque a falta de sono de uma vida cava uma mulher, e ela tinha os olhos fundos de quem não dorme um sono inteiro há trinta anos. Não era a idade. Era a vigília. Era ter envelhecido antes do tempo por se dar de mais, ter gastado a saúde a velar os filhos, e chegar à velhice gasta não pelos anos mas pela entrega, com o corpo a cobrar-lhe em ossos doridos o preço de uma vida em cima da muralha.
Naquela manhã foi à vila, porque a despensa pedia. Desceu a calçada com o cesto no braço e entrou na Mercearia da Benvinda, que era o centro do mundo de meia Véspera. A Benvinda estava ao balcão, de lápis atrás da orelha, com o caderno das dívidas aberto, e levantou os olhos quando a viu entrar. Custódia não trazia lista, nunca trazia, sabia de cor o que era preciso para encher uma casa, e foi pedindo: um quilo e meio de bacalhau, a Benvinda, e do bom; os ovos todos que tiver frescos; aquele presunto inteiro; o saco grande da farinha; e leite, muito leite, que se gasta. A Benvinda foi pousando tudo no balcão, devagar, e a pilha cresceu até ser quase de cerco, comida para uma semana de gente, e a certa altura parou, de lápis no ar, e olhou para a montanha de coisas e depois para Custódia.
Ó Custódia, disse, sem dureza, com aquela brandura de quem repara, isto que aqui está é comida para seis, e tu és uma. Para quem é tanta coisa, mulher.
Custódia endireitou-se ao balcão. Sentiu o golpe pequeno e arrumou-o como arrumava tudo, por dentro, sem mudar de cara. É para ter, respondeu. Nunca se sabe quando vêm. A Mercês qualquer fim de semana aparece com os pequenos, e o Tobias, se calha vir, não há de encontrar a casa vazia. E a Benvinda baixou os olhos para o caderno, e apontou o que ela levava, e não disse mais, porque já tinha dito o que havia a dizer e Custódia não o ouvira; mas ficou a olhá-la a sair, com o cesto a pesar-lhe no braço, e teve por ela, sem o dizer, uma pena de igual para igual, a pena de quem reconhece numa outra um aperto da mesma família. Ao fundo do largo alguém disse, ao vê-la passar, que mãe que ela foi, deu tudo àqueles filhos, e Custódia ouviu, e endireitou-se outra vez, porque era a única coisa que lhe restava, ter sido uma grande mãe, ter velado, ter dado tudo. Mas vinha logo o coitada, sozinha naquela casa, e esse doía, porque por baixo da muralha de guarda havia uma mulher sozinha numa casa grande, uma sentinela esquecida no posto muito depois de a guarnição ter ido embora.
Ao meio-dia almoçou. Pôs a mesa grande da cozinha, a que cabiam seis, e sentou-se no seu lugar, o de mãe, à cabeceira, com os outros cinco lugares vazios à volta. Comeu sopa de um tacho que dava para uma família, e à frente dela, no lugar onde a Mercês se sentava em pequena, e ao lado, onde se sentava o Tobias, não havia ninguém, só a madeira limpa e o eco da colher contra o prato numa cozinha demasiado grande para o barulho de uma pessoa só a comer. Comeu depressa, como quem cumpre, e o resto da sopa ficou no tacho, e o presunto inteiro foi para a despensa, e o leite, e os ovos, a fazer companhia ao que já lá estava da semana anterior e não chegara a gastar-se.
Foi ao guardar o leite que deu com a outra panela, a do cozido de quinta-feira, esquecida ao fundo da prateleira. Tirou-lhe a tampa e o cheiro subiu, azedo, virado, comida que se estragara por ser de mais para uma boca só. Custódia levou-a ao lava-loiça e deitou-a fora, e doeu-lhe, não pela comida, embora também, mas pelo que a comida a mais lhe dizia ali, na pia, a escorrer pelo ralo: que ela continuava a cozinhar para uma casa cheia que se esvaziara, que punha à mesa para seis e raspava o tacho de uma, que enchia a despensa como se houvesse muitas bocas e depois deitava fora o que sobrava porque não havia bocas nenhumas a não ser a dela.
Foi nessa tarde que a Aurélia, a neta, a filha da Mercês, que ficara em Véspera com a avó enquanto a mãe tratava de uns papéis na vila, lhe largou a pergunta. Andava pela casa a abrir portas, como fazem as crianças, a ver o que havia atrás de cada uma, e parou à porta do quarto do tio Tobias, aquele quarto arrumado e quieto, com a cama feita e os traços a lápis na parede, e perguntou, do alto dos seus sete anos, sem saber o que carregava:
Avó, porque é que fazes a cama do tio Tobias se ele não dorme cá?
Custódia, que vinha do corredor com uma braçada de toalhas, parou a meio do gesto, como quem leva uma pedra sem a ver chegar. A Aurélia já tinha passado adiante, já abria outra porta, já se esquecera de ter perguntado, com aquela leveza das crianças que largam as perguntas grandes como largam um brinquedo. Mas Custódia ficou com a pergunta na mão, sem a saber pousar. Faço para o caso de ele vir, disse, baixinho, mais para si do que para a neta que já não a ouvia. Para ele encontrar a cama pronta, para não chegar a uma casa rendida. E mesmo a dizê-lo sentiu o buraco da resposta, porque o Tobias não vinha, telefonava quando podia, mandava notícias, fazia a sua vida ainda mais longe do que a irmã, e aquela cama feita todas as semanas, aqueles lençóis mudados onde ninguém dormia, não eram para ele: eram para ela, eram a prova de que continuava de serviço, de que a mãe não abandonara o posto.
E ali, de toalhas ao peito à porta do quarto do filho, Custódia lembrou-se do Belarmino. Foi assim, sem aviso, como vêm os mortos. Lembrou-se dele vivo, na cama, com os filhos ainda pequenos do outro lado da parede, a vê-la erguer-se pela enésima vez naquela noite. Anda dormir, mulher, dizia ele, com a voz pastosa de sono, os meninos estão bem, não tens de te levantar a cada respiração deles. E estendia-lhe a mão por cima do lençol, a mão grande e quente, vem cá, descansa, fica aqui. Custódia via a mão na escuridão, via-a aberta à espera dela, e mesmo assim levantava-se, ia ver, porque o medo era mais forte do que a mão do marido, e ouvia atrás de si o suspiro do Belarmino, que deixava cair a mão no lugar vazio onde ela devia estar, e talvez se sentisse, também ele, um bocadinho de fora daquela vigília que não tinha lugar para mais ninguém. Ele morreu cedo. E com ele morreu a única voz que alguma vez a chamara de volta da muralha para a cama, e a guarda, sem ninguém que a contestasse, cresceu, tomou conta de tudo, tornou-se a casa inteira.
Porque era isso que Custódia não via, nem nessa tarde nem ainda: que montava guarda a um posto que já ninguém atacava. Criara dois filhos sozinha naquela casa, a Mercês e o Tobias, fora a única muralha entre eles e o mundo, e fora uma boa muralha, os filhos cresceram a salvo, alimentados, vigiados. Mas uma muralha que se habitua a estar de guarda não sabe deixar de o estar quando a guerra acaba, e a guerra de Custódia acabara havia muito. Os filhos tinham saído para as suas próprias casas, como saem os filhos que uma mãe criou bem, e isso, que devia ser a prova do seu êxito, era a ferida que ela não sarava, porque manter o posto, guardar os quartos prontos, deixar a luz acesa, era a sua maneira de recusar que o tempo passara, de fingir que a casa continuava cheia. Largar a guarda era aceitar que a sua vida de mãe a tempo inteiro acabara, e era isso o que ela mais temia no mundo.
A Felizarda, da idade dela, descera da guarda quando os filhos partiram, fizera o luto da casa vazia e voltara a viver, viajava, ria-se, vinha contar à vila os sítios onde estivera. A Idália, ao contrário, murchara de saudade dos filhos idos, deixara-se ir, secara à janela. Custódia não fizera nem uma coisa nem outra: ficara em cima da muralha, de olhos no horizonte, à espera de um inimigo que não vinha porque já não existia, sem nem saber que estava a escolher, todas as noites, não descer.
A Mercês veio buscar a Aurélia ao fim da tarde, e a menina saiu a contar à mãe as portas que abrira na casa da avó, e Custódia ficou à porta a vê-las descer a rua, a neta a saltar de pedra em pedra, a filha a segurá-la pela mão, até dobrarem a esquina. Depois entrou na casa, que ficou outra vez do tamanho de uma só pessoa, com o eco dos seus passos num espaço feito para muitos, e foi acendendo as luzes à medida que escurecia, e deixou a da cozinha acesa, como sempre, para a noite.
Deitou-se cedo, não para dormir, para descansar o corpo enquanto o ouvido continuava de serviço, e adormeceu leve, como quem cochila num posto, à espera das três da manhã, em que voltaria à ronda, à cozinha, ao corredor, aos dois quartos à escuta. Fizera-se tão inteiramente sentinela dos filhos que, tirada a sentinela, não sabia se sobrava alguém, não se lembrava sequer de ter sido, alguma vez, uma mulher que não vivesse de vigia a outros. E assim continuava, noite após noite, de pé na sua muralha, a guardar quartos vazios, a velar uma casa que não dormia, sem ouvir, na vila adormecida lá fora, a voz que a história lhe ia trazer, devagar, e que lhe diria o que ninguém lhe dissera em trinta anos: que a guarda acabara, que os filhos estavam a salvo, que ela podia, enfim, descer da muralha e dormir.
· fim da amostra ·