A Manta Sem Nome

Biblioteca de Véspera · o vigésimo segundo romance

A Manta Sem Nome

Velada tece as mantas mais belas da região, e meia vila dorme aquecida pelo trabalho dela sem o saber: vende por interposta pessoa, recusa as feiras, não assina. Quando alguém elogia uma manta diante dela, muda de assunto com o coração aos saltos. A única vez que se mostrou, em nova, com um trabalho premiado, a inveja que se seguiu custou-lhe a única amiga, e ela aprendeu que ser vista era perder. Este é o ano em que aprende a mostrar-se sem se perder: a primeira manta assinada, o nome bordado pequenino no canto, e depois menos pequenino, e a descoberta de que o que ela cria merece chegar ao mundo com ela presa ao nome.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Velada, dos Serranos, tecedeira, e o nome foi destino: chamaram-lhe Velada, a coberta, a que está sob o véu, a que se não mostra, e ela cumpriu o nome a vida inteira, escondendo-se, velando-se, fazendo o trabalho mais belo da região e não deixando que ninguém soubesse que era dela; e o nome, que era só um nome, tornou-se a maneira de ela estar no mundo, coberta, atrás do que fazia, sem nunca aparecer.

Os assentos dizem quem fez o quê, e que mãos teceram o quê. Não dizem porque é que essa mão se cobriu, nem o que falta a uma obra bela quando lhe falta, no canto, o nome de quem a fez. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A manta sem nome

A casa de Velada conhecia-se de longe pelo som, não pela mulher.

Quem subia o carreiro dos Serranos, na hora morta da tarde, ouvia primeiro o tear antes de ver o telhado: o bater do pente contra a teia, o arrastar da lançadeira de um lado ao outro, aquele compasso de respiração antiga que vinha da casa de pedra encostada à fraga e que era, para a serra, tão certo como o rio lá em baixo ou os galos de madrugada. Os almocreves que passavam para a vila grande sabiam de cor o som, mas não punham cara nele. Diziam, ao cruzar o carreiro, lá está a tecedeira a trabalhar, e seguiam, e nunca tinham visto a tecedeira, nem ela queria que vissem, porque o tear ficava ao fundo da casa, virado para a fraga e não para o caminho, de propósito, para que a luz lhe entrasse pelas costas e ela ficasse na sombra, e quem espreitasse da porta visse a manta a nascer mas não a mão a fazê-la.

E as mantas de Velada eram uma coisa rara, isso sabia-o a região inteira sem saber de quem falava.

Tinha um olho para as cores que ninguém na serra tinha. Sabia tirar do anil um azul que parecia ter noite por dentro, e da casca da cebola um amarelo cansado e quente, e da garança um vermelho que não gritava, que se demorava, e juntava-os em listas e em xadrezes de uma maneira que parava quem passava. Meia vila dormia aquecida pelas mantas de Velada, e gente da vila grande também, e até, dizia-se, uma família de senhores lá para os lados da cidade que mandara vir três de uma vez; e nenhuma dessas pessoas, ao puxar a manta ao queixo numa noite de geada, sabia que havia uma mulher, sozinha na serra, encostada a uma fraga, que tecera aquele aconchego com as mãos. Compravam-nas a um homem, o Souto, que as ia buscar lá acima e as descia à feira, e o Souto era a cara visível de um trabalho cuja dona ficava escondida no escuro do tear, sem nome, sem rosto, sem que ninguém ligasse aquela beleza àquela mulher.

E o vermelho era o trabalho mais escondido de todos, e o que dela mais tinha.

Velada tirava-o da garança, que semeava ela própria num talhão atrás da casa, virado ao sul, longe da vista de quem passava no carreiro. Arrancava as raízes ao fim do terceiro verão, quando estavam fortes, e secava-as ao fumo, e moía-as num almofariz de pedra que fora da avó, e depois era a parte que ninguém via, a alquimia da tina, em que se ganhava ou se perdia a cor de um inverno inteiro. Punha a água a aquecer sem ferver, que se fervesse o vermelho saía cor de tijolo, ordinário, e o que ela queria não era tijolo, era brasa, era o vermelho que tem cinza por dentro e demora a apagar-se. Mexia a tina com uma vara, horas, ao princípio da manhã, sozinha, com o cheiro a raiz quente a encher o quintal, e havia uma certa volta da cor, num certo ponto da água, em que ela sabia, sem termómetro nenhum, só pelo olho e pelo cheiro, que estava no ponto, e nessa volta mergulhava a lã, e a lã bebia o vermelho devagar, e Velada ficava a vê-la beber com uma alegria que era talvez a única que se dava sem culpa, porque a tina não a podia elogiar nem invejar, a tina só lhe devolvia, calada, a cor exata que ela lhe sabia pedir. Era ali, ao pé da tina, de mãos vermelhas até ao pulso, que Velada era mais ela mesma do que em qualquer outro lado, e era de propósito que ninguém a via fazê-lo, porque até a alegria de tingir Velada a tingia às escondidas.

E Velada queria-o assim, e fazia por isso todos os dias, com método.

Não era distração nem acanhamento de quem não sabe falar. Velada sabia falar quando era preciso, era seca mas clara, e regateava o preço do fio com o vendedor de Coja melhor do que muito homem. O que ela não fazia era pôr-se ao pé do que tecia. Recusava as feiras, onde teria de estar de pé ao lado das mantas, de as vender ela, de ouvir o que diziam delas com ela ali à frente; preferia o Souto, que a poupava de aparecer. E não bordava o nome no canto, como faziam as outras tecedeiras da serra, a Engrácia do Vale, a falecida tia Romana, que punham as suas iniciais a um canto do trabalho, um R, um E, um sinal pequeno que dizia esta é minha. As mantas de Velada saíam do tear lisas de nome, anónimas, e ela queria-as assim, porque bordar o nome era dizer fui eu, e dizer fui eu era aparecer, e aparecer era a coisa que Velada não fazia, por uma razão antiga que lhe morava no fundo e que tinha, ela sabia-o bem, uma data e um nome.

E o preço de tudo isto, do esconder-se, Velada pagava-o sem se queixar, e era um preço que não se vê e que por isso parece menor e não é.

Vivia sozinha, na serra, com o tear, e a vida era bela em parte, porque o trabalho era belo e ela amava-o, e poucas coisas há tão inteiras como uma mulher ao tear numa manhã de luz boa, com a lançadeira a ir e a vir e a cor a nascer-lhe das mãos. Mas a vida era pobre de uma coisa, e a coisa era grande: do encontro. Velada nunca via a cara de quem dormia aquecido pelas suas mantas. Uma vez, num inverno duro, soube pelo Souto que uma das suas mantas, das grandes, das de mais lã, fora parar a uma casa pobre da serra de baixo, a uma viúva com filhos pequenos que passava o inverno num casebre de pedra solta, e que a mulher, ao receber a manta, comprada de segunda mão a troco de quase nada, chorara, porque era a primeira coisa quente que entrava naquela casa em anos, e dormiram os três filhos debaixo dela, juntos, e a mulher disse ao Souto, agradeça a quem a fez, que Deus lha pague, ela não sabe o bem que me fez. E o Souto, que contava isto como quem conta uma coisa de pouco peso, não percebeu que estava a entregar a Velada, pela boca, o maior pagamento que um ofício pode dar, o de saber que o que fizemos foi calor a quem tinha frio, abrigo a três meninos no escuro; e não percebeu, sobretudo, que esse agradeça a quem a fez não tinha a quem ir, porque quem a fizera estava escondida na serra e não queria ser achada, e o obrigada da viúva ficou no ar, sem destino, como ficavam todos. E Velada, ao ouvir, sentiu a alegria e a tristeza de sempre brigarem-lhe no peito: a alegria de ter aquecido três meninos, e a tristeza de o ter feito de costas, sem cara, sem nome, sem nunca poder ir àquela casa pobre e dizer fui eu, e ficar à porta a ver os meninos quentes, que era a única paga que ela, no fundo, sempre quisera e nunca se deixara ter.

E os outros, que a conheciam de longe, achavam-na humilde, e louvavam-na por isso.

Ai a Velada, dizia a Benvinda da mercearia a quem perguntava por aquelas mantas, faz aquilo e nem se gaba, nem o nome lá põe, é de uma modéstia que já não há. E Velada, quando lhe chegava o eco desses ditos, deixava-os correr, porque era mais cómodo passar por modesta do que mostrar o que estava por baixo, que não era modéstia nenhuma. A modéstia é não dar importância a ser vista. Velada dava-lhe toda a importância. Tinha era pavor dela. O esconder-se de Velada não era o sossego de quem não liga ao olhar dos outros, era a fuga de quem teme esse olhar como se teme um cão à solta, e isso ela escondia também, debaixo da fama de humilde, porque até o medo Velada o velava. Era o nome dela e era o seu ofício: velar. Cobrir. Pôr o pano por cima.

Mas houve uma tarde, no princípio deste livro, em que o pano lhe escorregou, e ela viu o que andava por baixo.

Tinha descido à vila por causa de uma encomenda de lã, coisa rara, que ela mandava quase sempre o Souto tratar-lhe disso também, mas o Souto andava com as febres e a lã não esperava. Estava na mercearia da Benvinda, ao canto, à espera de que lhe pesassem o fio, com o lenço apertado de quem não quer ser falada, quando entraram duas mulheres da vila grande, forasteiras de fim de semana, dessas que sobem à serra ao domingo. Traziam uma manta dobrada ao braço, comprada na feira, e vinham a discuti-la como quem discute uma coisa de estimação.

— Olha a cor disto — dizia uma, abrindo um canto da manta sobre o balcão, mesmo ao lado de Velada, sem fazer ideia. — Vê este vermelho. Isto não é tinta de fora, isto é planta, isto é mão de quem sabe. Eu já vi muita manta e nunca vi assim.

— E o feitio — dizia a outra, passando a palma pela teia. — Repara como as listas não batem certo de propósito, é de propósito, é para o olho não cansar. Quem fez isto não foi para vender. Foi por amor.

— Quem faria? — disse a primeira, virando a manta à procura de uma marca, de um canto assinado, e não achando nenhum. — Não tem nome. Tão bonito e sem nome. Deve ser uma artista, alguma velha lá da serra que já morreu, se calhar, e ninguém ficou a saber.

Velada estava a meio metro delas, com o coração a dar-lhe na garganta, a ouvir-se chamar artista por bocas que não sabiam que a tinham à frente, a ver as mãos de uma estranha alisarem com ternura o vermelho de garança que ela tirara da raiz com aquelas suas próprias mãos, num lagar de tinta, numa manhã de outubro, sozinha, fervendo a água três vezes para o tom não sair berrante. E sentiu, ali, encostada ao saco de feijão, duas coisas ao mesmo tempo, e a luta entre as duas era tudo o que ela era.

Sentiu, primeiro, uma alegria que lhe subiu do peito como água quente, a alegria pura e secreta de ouvir louvar o que fizera, de saber que aquele aconchego ia aquecer alguém que o estimava, que lhe via a mão e o amor lá dentro. E sentiu, logo a seguir, antes mesmo de a primeira acabar, uma tristeza funda e sem fundo: a de não poder dizer fui eu. A de ter de ficar calada, anónima, encostada ao feijão, a ouvir chamar artista a uma mulher que talvez tivesse morrido, quando a mulher estava ali, viva, a respirar, com o vermelho ainda metido nas unhas. Quis abrir a boca. Sentiu a frase formar-se, fui eu que a fiz, obrigada, fui eu, e sentiu-a chegar aos dentes e não passar dali, porque atrás dos dentes estava uma porta fechada há trinta anos, e a porta não se abriu.

E o pior, para Velada, encostada ao feijão, foi uma coisa que as duas mulheres disseram a seguir, e que lhe ficou. Uma delas dobrou a manta com cuidado, e disse à outra, sabes o que me custa nisto, é não saber a quem agradecer. Comprei-a a um homem na feira, mas o homem não a fez, via-se logo que não percebia nada daquilo; alguém a fez, alguém passou semanas a fazê-la, e eu hei de dormir debaixo dela anos e nunca vou poder dizer àquela pessoa o bem que me faz. É como receber uma carta sem remetente. Fica-se a dever e não se sabe a quem. E a outra concordou, pois é, fica-se a dever a ninguém, e a manta saiu da loja ao braço da forasteira, levando consigo uma dívida de gratidão que não tinha morada, porque a dona da morada estava ali, a um metro, a ouvir dizer que se lhe queria agradecer e não se podia, e calava-se, e deixava a dívida partir sem destino, como deixava partir tudo.

A Benvinda pousou-lhe o fio pesado no balcão e olhou-a, e por um instante, só um, pareceu a Velada que a Benvinda ia dizer qualquer coisa, ia denunciá-la com bondade, ia dizer às forasteiras está aqui a vossa artista, mulheres. Mas a Benvinda era da serra, e a serra respeita os esconderijos dos seus. Disse apenas, baixando os olhos para o fio:

— Cá está o teu, Velada. Pesado e bom.

E o nome de Velada caiu no ar da loja, dito assim, à toa, e nenhuma das duas mulheres o apanhou, nenhuma ligou aquele nome àquela manta, porque ninguém liga um nome a uma manta que não o traz; e Velada pegou no fio, e saiu, e subiu o carreiro com a alegria e a tristeza a brigarem-lhe no peito todo o caminho, e foi sentar-se ao tear no escuro, e não teceu nada nessa tarde. Ficou a olhar para a lançadeira parada na mão.

E ficou a olhar a lançadeira parada na mão, e a lançadeira, que ia e vinha há quarenta anos sem nunca parar, parada parecia outra coisa, parecia uma pergunta. Quanta beleza saíra dali, daquela mão e daquela peça de buxo gasto que fora da avó, e fora-se mundo fora sem levar consigo o nome de quem a fizera. Mantas e mantas, invernos e invernos, camas aquecidas que ela nunca veria, e de tudo isso, de uma vida inteira de fazer beleza, não ficava no mundo uma só linha que dissesse que houve uma Velada. Era como se ela tecesse água: belíssima a correr, e sem deixar marca, e a perder-se. E pela primeira vez aquilo não lhe pareceu modéstia, nem segurança, nem virtude; pareceu-lhe um desperdício, e pior, uma tristeza, a tristeza de quem dá a vida a fazer uma coisa e a entrega ao mundo de costas, sem nunca se deixar ver a dá-la.

Porque é que eu não posso dizer que fui eu. A pergunta veio assim, simples, do fundo, ao fim de quarenta e quatro anos. De que é que eu tenho medo, ainda, ao cabo de tanto tempo, de pôr o meu nome no que faço bem. Não soube responder, nessa tarde. Mas pela primeira vez na vida fez a pergunta em voz alta, sozinha, à casa vazia, e a casa não respondeu, e o tear não respondeu, e lá fora o rio Fundo continuou a dizer o que diz sempre, que tudo corre, que nada fica coberto para sempre, que a água acaba sempre por achar a saída por baixo da pedra.

· fim da amostra ·

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