
Biblioteca de Véspera · o décimo oitavo romance
A Estrangeira de Cá
Peregrina é filha da emigração: lá fora foi sempre a portuguesa, a de cá; voltou de vez à vila dos pais e descobriu que cá é a de fora, a turista, a que fala diferente. Tem duas casas e nenhuma, duas línguas e nenhuma inteira, e a mãe, que nunca voltou, não entende quem volta. Este é o ano em que aprende que a pertença não se herda, escolhe-se, e que a casa que procurava lá fora se constrói primeiro dentro, e depois, tijolo a tijolo, numa rua de Véspera onde decide, enfim, enraizar.
Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.
Do registo de Véspera
No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:
Peregrina, filha de gente que partiu, nascida entre uma terra e outra, e o nome foi profecia: a mãe, que emigrou nova e teve a filha já fora, pôs-lhe o nome de quem anda sempre a caminho, de quem peregrina, sem saber que estava a assentar no berço da filha a sina de ter os pés numa terra e o coração noutra e a casa em nenhuma, que é o que acontece aos filhos da emigração, que nascem estrangeiros dos dois lados, de cá por terem nascido lá, de lá por serem de cá.
Os assentos guardam quem chega e quem parte, e em que coluna se escreve cada nome. Não dizem a que terra pertence quem nasceu entre duas, nem onde fica a casa de quem a tem repartida por margens que o rio separa. Para isso são precisos os livros como este.
capítulo um
A de cá e a de fora
Peregrina desfez a mala três vezes na primeira semana, e das três voltou a deixar uma camisola por arrumar, dobrada em cima da cómoda, como quem deixa um pé fora da cama por causa do calor. Não reparou no que fazia. Só muito mais tarde, quando aprendeu a olhar-se de fora, é que percebeu que aquela camisola por arrumar era a mala meio feita, e que a mala meio feita era ela, e que a trouxera consigo de um país para o outro como quem traz uma doença sem saber que a tem.
Chegara à aldeia dos pais num fim de tarde de junho, na camioneta da vila grande, a última, a das cinco e meia. Vinha à janela, com a testa quase no vidro, à espera de sentir uma coisa que toda a vida ensaiara sentir: a chegada a casa. A serra abriu-se à direita, comprida, com a luz a descer-lhe pelas costas, e lá em baixo o rio, mais ouvido do que visto, e as primeiras casas de telha cor de barro, e o largo com a fonte ao meio, e Peregrina esperou pela emoção como se espera por uma visita anunciada. A emoção não veio. Veio outra coisa, mais parecida com a entrada numa casa onde já se viveu e que entretanto mudou de gente: tudo no sítio, e nada seu.
Desceu os degraus da camioneta com a mala na mão, e a camioneta arrancou, e ficou no largo, sozinha, com a mala a seus pés, ao fim da tarde, e ninguém à espera. E foi isso, mais do que tudo, que lhe disse que alguma coisa estava trocada. Porque em criança, nos verões, chegar à aldeia era a avó Aurora à porta, e gente, e festa, e o esta é que é a minha; e agora chegava à mesma aldeia e o largo estava vazio, e ela punha a mala no chão e não havia ninguém para quem correr. Tinha avisado a tia que vinha, mas não dissera a hora certa, de propósito, sem saber bem porquê, e agora percebia: não quisera que a fossem esperar, não quisera a cena da chegada, porque uma chegada com gente à espera é de quem volta a casa, e ela, no fundo, não tinha a certeza de estar a voltar a casa, tinha medo de chegar e a casa não a reconhecer, e mais valia chegar sozinha ao largo vazio do que arriscar uma festa de boas-vindas que lhe soubesse a pouco. Pegou na mala e subiu sozinha o caminho para a casa da família, com a luz a baixar na serra, uma mulher de trinta e oito anos a chegar à terra dos pais como se chega a uma terra estranha: a pé, sozinha, com tudo o que tinha numa mala.
A tia Remédios matou a galinha.
Foi a maneira da família dizer que era festa. Quando uma casa de Véspera mata a galinha do meio da semana, está a dizer uma coisa que não cabe em palavras, e a tia Remédios, que era irmã do pai morto e a única que ainda guardava a chave da casa-mãe, matou-a logo no dia seguinte à chegada, e pôs a mesa comprida, e chamou os filhos, e fez-se almoço. Peregrina entrou na cozinha cheia de gente e foi abraçada por toda a parte, a sobrinha que voltou, a filha do Firmino que Deus tem, e por um bocado, no calor daqueles braços, com o cheiro do refogado e o barulho das vozes todas a falarem por cima umas das outras, acreditou que tinha feito bem. Que tinha voltado para casa.
Durou o tempo de uma palavra.
Estava à mesa, entre os primos, e contava uma coisa, uma coisa pequena, da viagem, e disse uma palavra à maneira de lá, uma daquelas palavras que lhe saíam misturadas sem ela dar por isso, meio numa língua meio noutra, como saem aos filhos da emigração. O Aurélio, o primo mais chegado da idade dela, parou a meio de servir o vinho. Olhou para a Glória, a irmã, do outro lado da mesa. E os dois riram-se. Não foi riso de maldade. Foi pior do que isso: foi riso de quem ouve uma coisa engraçada, leve, sem peso, o riso que se tem com as crianças que ainda dizem mal as palavras.
— Ó prima — disse o Aurélio, bem-disposto, a acabar de encher os copos. — Tu falas cá de um jeito. Trazes lá o sotaque agarrado, não há nada a fazer.
— Eu sou daqui — disse Peregrina, e ouviu a própria voz sair mais firme do que queria.
— És, és — disse a Glória, conciliadora, com a boca a sorrir e os olhos já noutro lado. — És filha do tio Firmino, está visto. Mas cresceste lá, coitada, isso marca.
Coitada. A palavra ficou-lhe no prato o resto do almoço, ao lado da galinha que a tia matara por amor. Coitada. E Peregrina, que viera à aldeia fugir exatamente daquilo, do coitada, do de fora, sentiu, no meio do almoço da família que a recebia de braços abertos, a coisa que a perseguia desde sempre e que pensara ter deixado do outro lado da fronteira: sentiu-se estrangeira. Ali. À mesa dos seus.
Porque lá fora, no país onde nascera, Peregrina fora a vida toda a portuguesa. Por mais que falasse a língua de lá sem sotaque nenhum, por mais que a escola fosse a de lá e os amigos os de lá, havia sempre uma coisa que a punha de lado, e essa coisa tinha nomes pequenos: o nome difícil de dizer na chamada, a comida diferente que a mãe punha na marmita, o cheiro de casa nas roupas, que não era o cheiro das casas dos colegas, os domingos passados ao telefone com uma família que ficava num mapa que ninguém na escola sabia abrir. E quando se zangavam com ela, no recreio, ao fim de tudo vinha sempre a frase que a arrumava: vai para a tua terra. A criança Peregrina ia para casa a pensar qual era a sua terra, porque daquela, onde nascera, lhe diziam que não era; e a outra, esta, a de Portugal, mal a conhecia, só das férias; e ficava sem nenhuma, uma menina sem chão, a de cá tratada por de lá.
Pensara, a vida inteira, que o problema era estar lá. Que bastava voltar, pôr os pés na terra do pai, na aldeia de onde ele saíra, para pertencer enfim, para ter uma terra, para deixar de ser a de fora e passar a ser, de uma vez, a de cá. Foi com essa esperança, mais do que com qualquer outra coisa, mais do que com a morte do pai ou o vazio que a vida de lá se tornara, que Peregrina vendera o que tinha, fizera as malas, e descera na camioneta das cinco e meia. Voltava para casa. Ia pertencer.
E ao primeiro almoço, ao primeiro copo de vinho, ao primeiro coitada, percebeu que se enganara de mapa.
À tarde, quando o almoço se desfez e os primos se foram, a tia Remédios ficou a lavar a loiça e a recusar ajuda, mulher, tu vieste de viagem, descansa. Peregrina ficou na cozinha na mesma, a enxugar, porque enxugar a loiça ao lado de alguém é uma maneira de não estar sozinha, e a tia, de costas, com as mãos na água, falou-lhe do pai.
— O teu pai, esse era de cá até à medula — disse a tia Remédios. — Por mais anos que andasse por fora, chegava aqui e era logo o Firmino, o da casa do alto, calçava as botas e ia para os campos como se nunca tivesse saído. A tua mãe é que nunca mais voltou, coitada. Tinha medo, acho eu. Há quem tenha medo de ver a terra mudada. — Esfregou um prato com força. — Tu sais mais à tua mãe ou ao teu pai, menina? Ainda não sei.
E Peregrina não soube responder, porque a pergunta da tia era a pergunta da vida dela posta noutras palavras: de quem é que saíra, de que lado era, do que volta inteiro ou do que nunca mais volta. Disse só, não sei, tia, se calhar de nenhum dos dois, e a tia Remédios riu-se, achando que era graça, e não era.
Peregrina saiu para o largo. Sentou-se na borda da fonte, ao sol que descia, e ficou a ouvir a água. A fonte de Véspera corria como corre há sempre, com aquele som certo, sem pressa, e à roda dela passava a vila ao fim do dia, uma mulher com o cântaro, um homem que vinha dos campos e molhava a cara, dois miúdos que se atiravam água e levavam um raspanete. Peregrina olhava-os e via o que nunca tivera: gente que pertencia a um sítio sem ter de pensar nisso, gente que estava numa terra como se está na própria pele, sem mala nenhuma meio feita.
Passou por ela uma vizinha que não conhecia, uma mulher de idade, com um molho de couves, e parou, com a curiosidade boa das aldeias.
— A menina é cá da terra? Não me lembro de si.
— Sou filha do Firmino — disse Peregrina. — E da Dores. Os que emigraram.
— Ah — disse a mulher.
E nesse ah estava tudo. Estava o és da emigração, és de fora, não és bem daqui. A mulher disse mais umas coisas amáveis, que Deus tivesse o Firmino, que era boa gente, e seguiu o caminho com as couves, e Peregrina ficou na borda da fonte com o ah a pingar dentro dela, devagar, como a água na pedra. Tinha voltado à terra a fugir do és de fora, e ouvia o mesmo és de fora na terra onde julgara que ia ser, enfim, de dentro. Lá, era a portuguesa. Cá, era a da emigração. Lá, faltava-lhe isto. Cá, começava já a faltar-lhe o de lá, os amigos de lá, as ruas de lá, a maneira de viver de lá, que afinal também eram dela e que, agora, daquele lado, lhe doíam como uma falta.
Voltou para a casa da família com a luz a fugir. Era uma boa casa, sólida, de pedra, com as coisas da família lá dentro, os móveis dos avós, as fotografias nas paredes, a loiça da tia, e Peregrina andou pelas divisões a acender as luzes e percebeu, ao acendê-las, que não havia nada ali que fosse seu. Nem um objeto, nem uma cadeira, nem um cheiro que ela reconhecesse como dela. Era a casa dos outros, emprestada à que voltou, e ela ia dormir nela como se dorme num quarto alugado, com a mala ao pé da cama.
Numa das paredes do corredor estava uma fotografia que a fez parar. Era a do pai em rapaz, ali, naquela casa, com a serra atrás, encostado a um carro de bois, de boné, a rir, com a cara de quem está em casa sem ter de pensar nisso. Tinha talvez catorze anos. Peregrina ficou muito tempo diante daquela fotografia, à luz fraca do corredor, e doeu-lhe uma coisa que não sabia nomear. O pai fora dali. O pai pertencera àquele chão, àquela serra, àquele carro de bois, de uma maneira que ela nunca pertenceria a parte nenhuma. Tinha-o nos olhos, na fotografia, o pertencer, e era uma coisa que se herda ou que não se herda, e que a ela não chegara, porque entre ela e aquele chão se metera um oceano e uma vida inteira do outro lado dele. E pensou que era estranho ter vindo morar para a casa onde o pai fora um rapaz de catorze anos que pertencia, ela que aos catorze anos, num verão, aprendera exatamente o contrário, que não era de parte nenhuma. A mesma idade, a mesma casa, e dois destinos ao contrário: o pai a sair de cá inteiro de cá, ela a chegar cá inteira de fora.
Foi essa a primeira noite. Sentou-se na cama, na casa que devia ser a sua, e ao pé da cama estava a mala, com a tampa ainda levantada, e em cima da cómoda a camisola por arrumar, e Peregrina olhou as duas coisas sem perceber ainda que se olhava a si própria. Lá fora, um cão ladrou e calou-se. O rio, ao fundo, que nunca se calava de todo. E Peregrina fez, pela primeira vez, sentada naquela cama, a pergunta que ia atravessar tudo o resto, e fê-la em voz baixa, quase sem dar por isso, como quem repara numa porta que sempre ali esteve e nunca abriu:
— Se não sou de lá, e não sou de cá, de onde é que eu sou?
Não dormiu bem, essa primeira noite. A casa fazia barulhos que ela não conhecia, estalava a madeira a arrefecer, o vento entrava por alguma frincha e mexia uma porta lá ao fundo, e fora, em vez do rumor da cidade a que o corpo dela estava habituado havia trinta e oito anos, o trânsito, as vozes, a vida que nunca pára nas cidades, havia um silêncio enorme, povoado só de coisas da serra, um cão muito longe, um mocho, o rio. E o corpo de Peregrina, deitado naquela cama, não sossegava, porque o corpo não sabia onde estava, esperava os ruídos de casa e não os encontrava, e um corpo que não reconhece os ruídos à sua volta não adormece, fica de sentinela, à espera de um perigo que não vem mas que pode vir, que é o que faz o corpo em terra estranha. E Peregrina percebeu, deitada no escuro a ouvir a casa estalar, que nem o sono ela tinha ali, que até dormir, a coisa mais natural do mundo, lhe era estrangeiro naquela terra; e teve, a meio da noite, a vontade absurda e funda de estar na cama de lá, com os ruídos de lá, na cidade que não era a sua terra mas que o corpo conhecia, e percebeu, com um aperto, que ter saudades da cama de lá na primeira noite na terra dos pais era a prova mais crua de que não pertencia a nenhuma das duas: nem aquela a recebia, nem àquela de onde viera ela pertencia, e estava ali, deitada entre as duas, sem sono, à escuta de uma casa que não a conhecia.
A casa não respondeu. As casas dos outros não respondem. E a mala ficou ali, com a tampa levantada, a noite inteira, no caso de ela mudar de ideias, porque era isso que a mala fazia, era esse o serviço dela: não deixar Peregrina assentar de todo em sítio nenhum, para que, no dia em que a terra a magoasse outra vez, ela pudesse pegar nela e partir, depressa, antes que doesse a sério. Não desfez a mala nessa noite. Não a desfez na seguinte. E a camisola ficou em cima da cómoda, dobrada, à espera, como um pé fora da cama, durante muito mais tempo do que Peregrina, naquela altura, alguma vez teria coragem de confessar.
· fim da amostra ·