A Estrada Nova

Biblioteca de Véspera · o décimo primeiro romance

A Estrada Nova

Aurora foi a primeira em tudo e nunca se sentiu chegada: cada vitória vira logo o degrau da seguinte, e a linha de chegada recua sempre. Levou uma vida a correr atrás de uma chegada que não existe ao fim da subida — porque a meta nunca foi dela, foi do pai, do «e agora?» que ele nunca calava. É a história de uma mulher que confundiu subir com chegar, e que só aprende, ao alcançar o maior dos cumes e encontrá-lo vazio, que a chegada não é um sítio que se alcança subindo: é uma decisão de parar e de estar onde se está. A frase do fim, numa manhã sem nada de especial: cheguei. Estou aqui. E aqui é suficiente.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Aurora, filha de Firmino e de gente de Véspera. Foi a primeira em tudo: a melhor da escola da vila, a primeira da sua casa a subir, a primeira mulher de Véspera a chegar a sítios onde mulher nenhuma chegara. Subiu a vida inteira, sem parar, e foi o orgulho da casa e da vila.

O nome foi promessa: a mãe quis-lhe o nome da madrugada, do nascer do dia, sonhando uma filha que se erguesse e fosse longe. E a vida deu uma mulher que esteve sempre na madrugada de uma nova meta e nunca no meio-dia de ter chegado, porque cada vitória, mal a alcançava, se tornava o degrau da seguinte, e a chegada recuava sempre, mais um degrau, mais uma estrada nova.

Os assentos dizem quem nasceu, quem casou de quem, quem partiu. Não dizem o que custa a quem corre a vida toda atrás de uma chegada que recua sempre, nem onde para, se é que para, quem subiu todas as escadas e nunca sentiu que chegou. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A primeira em tudo

No dia em que a vila de Véspera pôs o nome de Aurora numa placa, ao fundo do Largo da Fonte, Aurora sentiu, no meio de toda aquela gente a bater palmas, mais frio do que sentira em toda a sua vida.

Era uma tarde de setembro, e a vila inteira ali estava. Tinham-lhe dado uma placa, uma coisa de pedra com o nome dela e umas palavras escritas em letra de ouro, a primeira mulher de Véspera a, e o resto Aurora já não lia, porque havia sempre um a que abria uma frase que era para a engrandecer e que ela ouvia como mais um degrau. O presidente da junta, o Lucas Ramalho, fez um discurso de papel na mão, a tremer um pouco, e disse, apontando-a com o queixo: aqui está a prova de que de Véspera também sai gente que chega longe. A Aurora chegou. A Aurora é que chegou.

E foi aquele chegou, dito em voz alta no meio do Largo, com a vila toda a aplaudir, que entrou em Aurora como uma lasca de gelo, porque era exatamente o que ela não sentia. Estava de pé ao lado da placa com o seu nome em letra de ouro, e por dentro não havia chegada nenhuma, havia uma mulher cansada que já pensava no comboio da manhã seguinte e na coisa que tinha de tratar à chegada, no degrau a seguir àquele degrau, e que recebia o chegou da vila como quem recebe uma palavra numa língua que não fala. Sorriu. Agradeceu. Apertou as mãos que se lhe estendiam. E o frio ficou.

Quem a via assim, de fora, invejava-lhe a vida, e ninguém imaginava que a mulher mais bem-sucedida de Véspera fosse, por dentro, das mais cansadas e das mais vazias, porque tinha passado a vida a correr para uma chegada que nunca chegava. Há pessoas que correm pelo gosto de correr, da subida, da conquista; e há pessoas que correm porque têm medo de parar, porque parar lhes traz uma angústia que só o movimento abafa. Aurora, embora de fora parecesse das primeiras, era das segundas. A corrida era, para ela, menos um prazer do que uma fuga. Era o seu casaco contra o frio de um vazio que a esperava sempre que ela abrandava, e ela não o tirava nunca, mesmo exausta, porque tirá-lo era sentir o frio. Naquela tarde do Largo, parada ao lado da placa, foi a primeira vez que o frio lhe entrou mesmo com o casaco vestido, e Aurora não soube ainda o que aquilo queria dizer, mas não o esqueceu.

À saída, a abrir caminho entre a gente, ouviu o que se diz nas costas de quem leva uma placa. Duas mulheres, à beira da fonte, a Idalina das hortas e uma outra, falavam dela à sua passagem, sem maldade, com aquele respeito que tem um bocado de inveja por dentro. Ali vai a Aurora, dizia a Idalina, baixo, mas não tão baixo que Aurora não ouvisse. Aquela é que foi longe. Aquela é que chegou. E a outra, a benzer-se quase: chegou, chegou. Quem me dera a mim metade.

E Aurora seguiu, com a placa que lhe tinham dado para levar a casa debaixo do braço, fria como a pedra que era, e pensou, sem o dizer a ninguém, que daria a placa toda, e o nome em letra de ouro, e o discurso do Lucas Ramalho, por uma única vez sentir o que aquelas mulheres julgavam que ela sentia. Chegou, chegou. Era a palavra que mais a feria, e ninguém sabia, porque era exatamente o que ela não tinha, e ouvir os outros dizê-la era de uma ironia que lhe doía como um dente.

Desde menina que era a primeira. A melhor da escola da vila, a que o mestre Anacleto apontava como exemplo, a que tirava as melhores notas sem esforço aparente e que, quando o esforço era preciso, o fazia melhor do que todos. E não parou na escola: foi a primeira da sua casa, gente humilde, a subir na vida, a primeira a sair da pobreza de onde vinha, a primeira mulher de Véspera a chegar a lugares onde mulher nenhuma chegara. Subiu, Aurora, a vida inteira, degrau a degrau, e cada degrau era mais alto que o anterior, e a vila olhava-a de baixo, com orgulho e com inveja, ai a Aurora, aquela é que venceu.

Mas a admiração da vila era, no fundo, uma forma de a não conhecer. Admiravam a corredora, a vencedora, a figura da placa, e não a pessoa de dentro, que ninguém via porque ela não a mostrava e talvez nem ela própria a conhecesse. Há uma solidão particular nisto, na de ser admirada por uma figura que não se é por dentro, na de receber o amor do que se fez e nunca o do que se é. A admiração pelo que se fez não aquece como o amor pelo que se é; a admiração está lá fora, no pedestal, e a pessoa, no pedestal, está sozinha. E Aurora, no alto do seu pedestal, era das mulheres mais sozinhas de Véspera, porque toda a gente a admirava e quase ninguém a conhecia.

Vencera, era verdade. Pela conta do mundo, era um êxito, uma vida bem-sucedida, um exemplo. Tinha nome, tinha posição, tinha tudo o que a vila considerava ser chegar à vida. Mas há uma conta que o mundo não faz, a conta de dentro, a do que uma pessoa sente, e por essa conta Aurora não chegara a lado nenhum, porque nunca, nem uma vez, em toda a sua vida de vitórias, se sentira chegada. Cada vitória, no instante em que a alcançava, deixava de contar, esvaziava-se, porque a cabeça já estava no degrau seguinte. Ganhava uma coisa e não a saboreava. Chegava a um cume e não o gozava, porque já via, dali, o cume seguinte, mais alto, por conquistar. E assim Aurora vivia, do alto de uma vida de êxitos, numa fome que nenhuma vitória matava, porque a fome não era de vitórias, era de uma coisa que as vitórias prometiam e nunca davam: a sensação de ter chegado, de bastar, de poder parar.

A placa daquela tarde foi parar a uma arrecadação, encostada à parede, com a face para dentro, e Aurora nunca a pendurou. Não soube explicar a si própria porquê, mas não a quis à vista. Anos depois havia de perceber: pendurar a placa era ter de a ver todos os dias a dizer-lhe chegou, e ela não suportava a palavra na parede, como não a suportara na boca do Lucas Ramalho, porque a palavra mentia, e ela sabia que mentia, e uma mentira pregada na parede da própria casa é coisa que ninguém aguenta de manhã à noite.

A passadeira nunca parava. Era assim que Aurora, mais tarde, descreveria a sua vida: uma passadeira que andava sempre, e ela a correr em cima dela sem nunca chegar a sítio nenhum, porque a passadeira trazia-lhe sempre mais chão por baixo dos pés, mais uma meta, mais um degrau, e por mais depressa que corresse nunca chegava ao fim, porque a passadeira não tinha fim. Corria, Aurora, exausta de correr, e não parava, porque parar, na cabeça dela, era falhar, era ficar para trás, era deixar de ser a primeira, e ser a primeira era tudo o que ela sabia ser.

Havia uma palavra que Aurora nunca usava, e era a palavra suficiente, porque para ela nada era suficiente, nunca, e a palavra não cabia no seu vocabulário. Os outros diziam está bom, chega, basta; Aurora não, Aurora dizia pode ser melhor, falta mais, ainda não. O suficiente era, para ela, uma palavra de fracos, de gente sem ambição, de gente que se contenta; e ela não se contentava, nunca, por princípio, porque contentar-se era parar, e parar era falhar. E um mundo sem suficiente é um mundo sem descanso, porque o descanso vem de se sentir que se tem o suficiente, e quem nunca sente que tem o suficiente nunca descansa. Só muito mais tarde Aurora aprenderia a dizer suficiente, e a senti-lo, e descobriria que era a palavra mais libertadora da língua, a que faltava à sua vida inteira, a que, dita e sentida, era a própria chegada.

E ao correr, foi deixando cair pelo caminho tudo o que não era a corrida. Deixou cair as amizades, que não tinham tempo de crescer porque ela estava sempre a partir; deixou cair o amor, que murchava ao lado de uma mulher que estava sempre noutro sítio na cabeça; deixou cair o descanso, o gozo, as pequenas alegrias, porque tudo isso eram paragens, e ela não parava. Chegou ao alto da sua vida de êxitos com as mãos cheias de vitórias e a vida vazia de tudo o resto, sozinha, exausta, rodeada de placas e de ninguém, porque trocara tudo o que não era a corrida pela corrida, e a corrida, no fim, não lhe dera o que prometia, não lhe dera a chegada, só lhe dera mais corrida.

É preciso dizer, para que se entenda Aurora e não se inveje só a sua vida, o que é viver assim por dentro, porque de fora parece invejável e por dentro é uma prisão. Viver assim é nunca descansar, porque o descanso é uma paragem e a paragem é proibida; é nunca celebrar, porque a celebração é uma paragem; é ter sempre, por baixo de qualquer alegria, a sombra do que falta, o degrau por subir, e essa sombra rouba a alegria toda, porque não há alegria que sobreviva à sombra do que ainda falta quando o que falta é infinito. Aurora, a mulher mais bem-sucedida de Véspera, era, por dentro, das mais infelizes, presa numa prisão que ela própria construíra e que tinha a forma de uma escada sem topo.

Tinha, quando esta história começa, os seus bons cinquenta e tal anos, talvez sessenta, uma mulher ainda no auge da sua capacidade, ainda a subir, ainda a vencer; mas era um auge cansado. Porque a vida toda, quando se cansava, Aurora corria mais, e a corrida abafava o cansaço, dava-lhe um novo objetivo, uma adrenalina nova, e o cansaço passava para segundo plano. E chegara, naquela tarde da placa e nas que se seguiram, a um ponto em que a corrida já não abafava o cansaço, em que correr mais já não dava adrenalina nenhuma, só mais cansaço; e Aurora via-se, pela primeira vez, sem a sua ferramenta de sempre, porque a ferramenta com que sempre combatera o cansaço, correr mais, já não funcionava, só o agravava. Há um ponto, na vida de quem corre, em que a corrida deixa de salvar do cansaço e passa a ser a causa dele, e Aurora chegara a esse ponto.

E começou a olhar para trás, para a estrada de vitórias que era a sua vida, e a perguntar-se, com um aperto, para onde é que aquilo tudo a tinha levado; e a resposta, quando se atrevia a vê-la, era assustadora: a lado nenhum, porque ela nunca parara em sítio nenhum, nunca chegara, sempre passara por tudo a correr para o seguinte. E foi essa pergunta, para onde é que isto tudo me levou, que começou, devagar, a abrir em Aurora uma fenda por onde havia de entrar, enfim, a luz que lhe mostraria o que ninguém lhe dissera: que a chegada que perseguia a vida toda não estava no alto de escada nenhuma, e que ela podia correr para sempre que nunca a alcançaria, porque a chegada não era um sítio, era uma coisa que ela teria de aprender a fazer, e que se chamava, simplesmente, parar.

· fim da amostra ·

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