
Biblioteca de Véspera · o décimo terceiro romance
A Despensa Cheia
Fartura nasceu num ano de fome e herdou o medo dela sem nunca a ter à mesa. Tem a despensa mais cheia da vila e a mesa mais pobre: guarda o melhor até apodrecer, e come sempre o pior. Este é o ano em que aprende, tarde, que a abundância não é para se ter, é para se viver.
Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.
Do registo de Véspera
No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:
Fartura, filha de gente da vila, nascida no segundo dos anos da fome, quando a serra não deu e o rio não trouxe e em Véspera se contaram as bocas como se contam as moedas, devagar e com medo.
O nome foi promessa, das mais aflitas que a vila assentou: a mãe, de barriga, com a casa a viver de raízes e de fé, quis que a filha trouxesse no nome a coisa que faltava à mesa, e chamou-lhe Fartura, para que a palavra fizesse o que a terra não fazia, e a menina tivesse, ao menos no batismo, o que a casa não tinha na arca.
Os assentos dizem quem nasceu, em que casa, com que nome. Não dizem porque é que há quem chegue à fartura e nunca a prove, nem que arca é essa que se enche a vida inteira e não se abre, nem o que uma pessoa guarda na despensa quando o que ali guarda é o medo. Para isso são precisos os livros como este.
capítulo um
O melhor para depois
A despensa de Fartura era a mais bem fornecida de Véspera, e ninguém na vila comia pior do que ela.
As duas coisas eram verdade ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo Fartura as carregava, sem ver nelas contradição nenhuma, porque para ela não havia contradição: a despensa era para estar cheia, e a mesa era para se aguentar, e quem confundisse uma coisa com a outra é que não tinha passado o que era preciso passar para aprender a diferença. A despensa enchia-se para o caso de. A mesa punha-se com o que já não dava para guardar. E entre o caso de e o que já não dava havia uma vida inteira de Fartura, sessenta anos quase, a escolher todos os dias, a cada refeição, o pior do que tinha, porque o melhor era para depois.
Tinha-a no fundo da casa, a despensa, uma divisão fresca de paredes grossas que o sogro construíra para o vinho e que ela tomara para si como quem toma um trono. Lá dentro, nas prateleiras que Bento lhe pregara ano após ano à medida que ela pedia mais, estava guardado o que em Véspera se chamava ter as costas quentes: os frascos de compota alinhados por anos, com o ano escrito na tampa pela letra dela, redonda e certa; os enchidos pendurados das varas, a curar e a passar do ponto de curar; o azeite nas garrafas, o mel nos boiões, a farinha nos sacos de pano, os feijões e o grão nos potes de barro com as bocas atadas, as marmeladas escuras de tão velhas, as caixas de bolachas compradas nas festas e nunca abertas, o açúcar, o sal, as conservas que ela própria fazia no verão a suar sobre o lume para encher prateleiras que já não cabiam. Era uma despensa de fartar, à letra, uma despensa que dava o nome à dona, e quem lá entrasse de fora diria que ali morava gente de posses, gente que comia bem e dormia descansada.
Havia nela uma ordem que era só de Fartura e que ninguém mais entendia, nem o Bento, que a respeitava sem a compreender. As coisas tinham lugar por idade e por valor, e os dois critérios cruzavam-se de uma maneira que dava o avesso do que daria a outra dona: o melhor e o mais antigo iam para trás, para o fundo, para o alto, para onde a mão chega com custo e o olho não bate, porque o melhor e o mais antigo eram o que mais havia a proteger do uso; e o pior e o mais recente ficavam à frente, à mão, à luz, porque eram esses os que se comiam, os que se gastavam, os de menos perda. Quem abrisse a despensa de Fartura via primeiro o pior, e julgava-a uma despensa modesta, e era esse o engano que Fartura, sem o pensar, montava: a fartura verdadeira estava escondida atrás de uma frente de coisas a virar, como um avarento que mostra a algibeira furada e cose o ouro no forro.
E à mesa, à frente daquela despensa, Bento comia pão com chouriço do que já estava a secar, e Fartura raspava o fundo do tacho do dia anterior, e o que era fresco e bom e tenro ficava na prateleira a fazer companhia ao medo dela, a engordar a fartura da despensa e a definhar até dar para os porcos, porque a fartura de Fartura não era para se comer: era para se ter. Era um número que ela fazia de cabeça, deitada, antes de dormir, como outras rezam: tantos frascos, tantos enchidos, tantos sacos, e a conta dava-lhe sono, dava-lhe a única paz que ela conhecia, a paz de quem se sabe coberta para o inverno que há de vir, porque Fartura, no fundo de tudo, em cada dia da vida, esperava um inverno que há de vir.
Era esse o segredo da despensa, e Fartura não o teria dito por nada deste mundo, porque nem a si própria o dizia com palavras: a despensa não estava cheia de comida, estava cheia de medo. Cada frasco era um dia a menos de aflição. Cada vara de enchidos era uma promessa de que, se a serra não desse e o rio não trouxesse, se voltasse o ano em que as bocas se contam, a casa de Fartura tinha com que. E enquanto a despensa estivesse cheia, o inverno podia vir, que ela estava coberta; e por isso a despensa nunca podia estar a menos do que cheia, e por isso o que entrava ficava, e o que ficava guardava-se, e guardar era a religião da casa, e comer o melhor era um pecado que Fartura nunca cometeu.
Naquela manhã foi à vila, como ia às quartas, com o cesto no braço, e a vila já a conhecia: a Fartura, que comprava como quem se abastece para um cerco. Descia a calçada devagar, parava a dar os bons-dias com a medida certa, nem de mais nem de menos, e ia à Mercearia, que era o centro do mundo dela como era o centro do mundo de meia vila. Na Mercearia, a Benvinda pôs-lhe à frente o que era de melhor, as primeiras favas da época, tenras, de um verde que era quase um cheiro, e o queijo no ponto, amanteigado, e Fartura olhou para o melhor com a água na boca e com a aflição no estômago, as duas coisas ao mesmo tempo, como sempre, e perguntou pelo outro, pelo que estava a passar, pelo que a Benvinda ia ter de baixar de preço antes que se perdesse. Levo deste, disse, do que está a virar, que para o que é não preciso do fino. E levou o que virava, as favas já um pouco passadas, o queijo do canto, e pagou-o a prazo, no caderno da Benvinda, não porque lhe faltasse na bolsa, que não lhe faltava, mas porque pagar a pronto era desfazer o montinho, era ver o dinheiro sair da mão, e Fartura preferia dever um pouco a toda a gente do que ver-se de mão vazia uma só vez. Anda fiado, dizia, que se acerta no fim do mês. E no fim do mês acertava, ao tostão, que dever a sério também a apavorava; mas naquele intervalo entre comprar e pagar, naquele bocadinho em que o dinheiro ainda estava na bolsa e a comida já estava no cesto, Fartura tinha as duas coisas, e ter as duas coisas era a única forma de fartura que lhe sabia bem.
A Benvinda, que via tudo do seu lado do balcão e que tinha o seu próprio nó com o dar e o receber, apontou no caderno sem dizer nada, porque já tinha dito, anos atrás, e Fartura não tinha ouvido. Uma vez, só uma, a Benvinda dissera-lhe, com a brandura de quem repara: ó Fartura, tu tens com que pagar à vista, eu sei que tens, para que andas a dever-me migalhas? E Fartura tinha ficado tão aflita com a pergunta, tão exposta, como se a Benvinda lhe tivesse aberto a despensa à frente da vila, que a Benvinda nunca mais perguntou. Cada um tem o seu nó, pensava a Benvinda, eu o meu, que é não saber cobrar, ela o dela, que é não saber gastar; e apontava o fiado de Fartura no caderno onde apontava o de meia vila, e olhava-a a subir a calçada com o cesto das coisas a virar, e tinha por ela, sem o dizer, uma espécie de pena de igual para igual, a pena de quem reconhece num outro um aperto da mesma família que o seu.
À saída da Mercearia, no largo, a fonte estava seca como sempre, e Fartura passou por ela sem a olhar, que a fonte seca era para ela uma coisa certa, uma coisa de família quase: uma fonte que tivesse água era uma fonte que se podia gastar, secar, falhar; uma fonte seca, não, uma fonte seca estava no fundo do medo dela, estava no sítio onde Fartura punha as coisas que confirmavam o que ela sabia, que era que a abundância não era de fiar, que a água ia-se, que a serra não dava sempre, que o que parecia cheio podia ficar vazio numa estação. Atravessou o largo a passo de quem leva peso, embora o cesto fosse leve, porque Fartura levava sempre peso, mesmo de mãos vazias, e havia quem dissesse, ao vê-la passar, que a Fartura andava encurvada como quem carrega a despensa às costas, e não sabiam como tinham razão.
A neta esperava-a em casa. A Alegria tinha sete anos e o nome que a filha lhe pusera contra o costume da família, que era de nomes mais aflitos, e era uma criança que dava razão ao nome: ria à toa, comia com gosto, abria as portas todas da casa só para ver o que havia lá dentro, e tratava o mundo como uma coisa que estava ali para ser provada, cheirada, mexida, sem desconfiar dele, porque ninguém ainda lhe ensinara a desconfiar. Ficava com a avó às quartas, enquanto a Clara trabalhava, e era a única pessoa em Véspera a quem a despensa de Fartura não metia respeito nenhum, porque a Alegria não via nela um tesouro nem um cerco: via comida, e a comida, para a Alegria, era para se comer.
Avó, perguntou ela nessa manhã, de pé à porta da despensa que a avó deixara mal fechada, com os olhos a correrem as prateleiras todas, as compotas, os enchidos, as bolachas por abrir, os boiões com o ano na tampa, avó, para quem é isto tudo?
E Fartura, que estava a guardar o que trouxera da Mercearia, parou com o saco da farinha a meio do gesto, e não soube responder.
Era uma pergunta de criança, das que as crianças fazem sem saber o que carregam, e a Alegria já tinha passado adiante, já mexia noutra coisa, já se esquecera de que tinha perguntado, com aquela leveza das crianças que largam as perguntas grandes como largam um brinquedo, sem dar conta do peso do que largaram; mas Fartura ficou com a pergunta na mão como ficara com o saco da farinha, sem a pousar e sem saber onde a pôr. Para quem era aquilo tudo. Fez a conta, como fazia de noite, mas a conta, à luz do dia e à luz da pergunta, deu-lhe outra coisa que não sono: deu-lhe um aperto. Porque a verdade, a verdade que ela nunca se deixava dizer, era que aquilo não era para ninguém. Não era para ela, que não o comia. Não era para o Bento, que comia o que sobrava. Não era para a Clara, que tinha a sua casa e a sua maneira. Era para o inverno. Era para o caso de. Era para uma desgraça que andava a esperar havia sessenta anos e que não vinha, e Fartura, de saco de farinha na mão, no meio da despensa cheia, teve por um instante a sensação de estar a guardar comida para um morto, ou para um fantasma, ou para uma fome que já tinha passado e que só morava nela.
Fechou a porta da despensa, como quem fecha um assunto, e voltou para a cozinha, e pôs ao lume o que havia de pior para o almoço, como sempre, uns restos requentados que estavam no limite de já não prestarem, e disse a si própria que a pergunta da Alegria era uma pergunta de criança, e que as crianças não sabem o que é passar fome, graças a Deus, e que era para isso mesmo, para que a Alegria nunca soubesse, que a despensa estava cheia. Mas a resposta, dita assim, não a sossegou como a costumava sossegar, porque havia nela um buraco que Fartura não via mas sentia: se a despensa estava cheia para que a Alegria nunca passasse fome, então por que é que a Alegria comia, em casa da avó, o pior, e o melhor apodrecia atrás de uma porta fechada? De que servia cobrir a neta de uma fome que já não havia, à custa de a deixar com fome do que estava ali, a um palmo, guardado? Que espécie de proteção era aquela, que negava no presente, todos os dias, o que dizia estar a guardar para um futuro que nunca vinha?
A pergunta não tinha resposta, e Fartura sabia não ter, e por isso fez o que fazia às perguntas sem resposta, que era pô-las na prateleira de cima, no fundo, atrás dos frascos, com as outras coisas que se guardam para depois. Almoçaram o de pior. O Bento comeu calado, como comia havia quarenta anos, e a certa altura olhou para ela por cima do prato, daquela maneira que tinha de a olhar quando queria dizer uma coisa e a deixava por dizer, e não disse nada, e voltou ao prato, e Fartura, que conhecia aquele olhar, fez de conta que não o vira. A tarde correu. A Clara veio buscar a filha ao fim do dia, e a Alegria saiu a contar à mãe as coisas que tinha visto na despensa da avó como quem conta um país descoberto, e Fartura ficou à porta a vê-las descer a rua, a neta a saltar de pedra em pedra na calçada, a filha a segurá-la pela mão, e a fonte seca lá em baixo, no largo, no seu lugar de sempre, a não dar água a ninguém e a estar, mesmo assim, certa, certa do feitio que Fartura sempre lhe reconhecera, o feitio de uma coisa que se poupou tanto que deixou de servir para o que foi feita.
Nessa noite, deitada, Fartura fez a conta da despensa como todas as noites, para chamar o sono. Tantos frascos, tantos enchidos, tantos sacos. Mas a conta não veio limpa como vinha. Veio com a voz da Alegria por cima, para quem é isto tudo, avó, e Fartura, que havia sessenta anos adormecia a contar o que tinha, adormeceu, pela primeira vez, a perguntar-se para que o tinha, e foi um sono mau, um sono de quem deixou a despensa mal fechada, com uma fresta de luz a entrar por onde sempre estivera tudo às escuras. E na fresta, no fio de luz que entrava, viu-se a si própria, ao longe, pequena, uma mulher de mão fechada à frente de uma despensa cheia, a guardar o melhor para um depois que era já, naquela noite, mais passado do que futuro, e teve dela, da mulher pequena da fresta, a primeira pena que tivera de si em sessenta anos, e a pena, ao contrário do medo, não a deixou dormir descansada, mas deixou-a, pela primeira vez, acordada de verdade.
· fim da amostra ·