A Cisterna

Biblioteca de Véspera · o décimo nono romance

A Cisterna

Soledade vive na casa do alto, a que tem cisterna própria e nunca precisou da fonte do largo, e faz tudo sozinha desde sempre: ao filho emigrado responde sempre está tudo bem, à vizinha que lhe repara no fumo recusa sempre a ajuda. Em pequena, numa noite, foi pedir socorro a uma porta e a porta não abriu, e decidiu nunca mais pedir. Este é o ano em que aprende, aos sessenta, a coisa mais difícil para quem se fechou em cisterna: descer da casa do alto, bater a uma porta antes do desespero, e aguentar o mais difícil de tudo, que é que a porta se abra.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Soledade, dos Serranos, da casa do alto, a que tem cisterna própria, e o nome foi sentença antes de ser nome.

Chamaram-lhe Soledade, solidão, e ela cumpriu o nome à letra, fazendo da solidão não uma desgraça que lhe caiu, mas uma fortaleza que ergueu, uma casa no alto da serra, com água sua, que nunca precisou de descer ao largo, de pedir à fonte, de depender de ninguém, e que teve nisso, a vida inteira, o seu orgulho e a sua condenação.

Os assentos guardam as casas, e o que cada uma tem, e quem desce ao largo a pedir. Não dizem que noite foi aquela, em pequena, que ensinou a uma menina que pedir não era seguro, nem o preço da secura de quem nunca deixa entrar a água de fora, nem o que custa a uma cisterna bater, enfim, a uma porta. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A cisterna própria

Em sessenta anos, Soledade nunca descera à fonte do largo, porque tinha a sua água em casa, e tinha nisso o maior orgulho da vida: a casa do alto dos Serranos, com a sua cisterna, que recolhia a água da chuva e da nascente e não precisava de pedir uma gota a ninguém. E não era só a água. Havia, na casa do alto, uma maneira de viver que era toda ela um não pedir, e que vinha de tão longe que já ninguém na vila se lembrava de a ter visto começar; e quem dizia o nome de Soledade dizia, logo a seguir, sem pensar, a do alto, a que se basta, a que não desce. Era assim que a vila a guardava na boca, e era assim que ela se guardava a si própria por dentro, numa frase de três palavras que era a sua casa e a sua prisão ao mesmo tempo: eu não preciso.

Era manhã de inverno, e Soledade, aos sessenta anos, rachava lenha no quintal. Punha o cepo, levantava o machado por cima da cabeça, e deixava-o cair, e a acha abria-se em duas, e ela punha outra, e outra, com um ritmo que tinha havia quarenta anos, sozinha, ao frio, com o bafo a fumegar-lhe da boca. As costas doíam-lhe, e o machado já lhe pesava mais do que outrora, e havia uma dor no ombro que não passava; mas Soledade rachava a lenha na mesma, porque a lenha não se racha sozinha, e não havia mais ninguém na casa do alto para a rachar, e pedir a um vizinho que lha rachasse era uma coisa que nunca lhe passara pela cabeça, ou que lhe passara e ela enxotara como se enxota uma mosca.

Fazia tudo assim, sozinha, e fizera-o sempre. Cortava a lenha, tratava da horta, arranjava o telhado quando uma telha caía, carregava os sacos, governava a casa, e nunca, em nada, pedia mão a ninguém. Quando lhe ofereciam, recusava. Uma vez, anos antes, um vizinho mais novo, o Felisberto, da casa do moinho, a vê-la carregar um saco de batatas encosta acima, parou a carroça no caminho e ofereceu-se.

— Dê cá, ó Soledade, que eu levo-lho na carroça, que vou mesmo a subir.

— Obrigada, Felisberto. Não é preciso. Eu levo.

— Mas mulher, isso deve pesar bem os trinta quilos, e a subida é a que é.

— Eu levo, eu levo. Tu vai à tua vida.

E levou, com o saco às costas, encosta acima, devagar, com o Felisberto atrás na carroça, ao passo dela, sem perceber porque é que uma mulher daquela idade recusava uma boleia que lhe caía do céu; e foi-se embora a abanar a cabeça, e chegou ao moinho e contou à mulher, a Custódia da Aurora que se lembra dela, contou que a Soledade do alto era de uma teimosia que metia dó, que preferia rebentar com o saco às costas a pôr-mo na carroça que ia vazia. E a mulher do Felisberto disse só, aquilo não é teimosia, homem, aquilo é outra coisa, aquilo é uma mulher que tem qualquer coisa atravessada com pedir. Eu faço. Era a frase da vida dela. Eu faço, eu levo, eu trato, não é preciso, eu cá me arranjo. Dizia-a a tudo o que era ajuda, com uma firmeza educada mas inteira, e fazia, por mais que custasse, por mais velha que fosse, por mais que o corpo já não desse, porque pedir, para Soledade, era a única coisa que não sabia fazer, ou que sabia que não fazia, por uma razão antiga que estava no fundo dela como a água no fundo da cisterna, recolhida e fechada havia cinquenta anos.

Vinha-lhe a teimosia de longe, e dava-se a coisas pequenas, das que ninguém repara mas que vão fazendo a pessoa. Havia uma escada de mão na arrecadação, comprida e velha, com um degrau a meio que abanava, e Soledade subia-a para limpar a goteira da chaminé, no outono, com as folhas a tapar o cano; e cada vez que subia àquele degrau que abanava, sozinha em cima do telhado, com a serra toda à volta e ninguém em baixo a segurar a escada, passava-lhe pela cabeça, num relâmpago, que se caísse dali ninguém saberia, e que era preciso ter cuidado, e segurava-se melhor, e continuava, e nunca, nem por sombras, lhe ocorreu chamar alguém que lhe segurasse a escada. Segurar a escada de quem sobe é a coisa mais antiga e mais simples que um vizinho faz por outro em Véspera; pede-se de uma janela para a outra, ó da casa, vem cá segurar-me isto um instante, e o outro vem, e fica em baixo de mão na escada, e conversa-se enquanto se trabalha lá em cima, e é nessas pequenas seguranças que se faz, sem dar por isso, a teia que segura uma vila inteira. Soledade nunca pedira que lhe segurassem a escada. Subia sozinha a uma escada que abanava, e tinha nisso, também, o seu orgulho calado: o de não precisar nem de uma mão em baixo, nem de um par de olhos que a visse subir.

E a vila respeitava-a por isso, e admirava-a. Aquela é de ferro, diziam. Aquela não precisa de ninguém. Aquela, aos sessenta, faz o que muitos novos não fazem. Aquela basta-se. E Soledade, quando lhe chegavam aos ouvidos estas coisas, gostava de as ouvir, porque o bastar-se era o seu orgulho, era o que ela era, a que não precisa, a cisterna que tem a sua água e não desce à fonte. Cada vez que recusava uma ajuda, que dizia eu faço, que carregava sozinha o que outra pediria que lhe carregassem, sentia uma satisfação funda, a de não dever nada a ninguém, a de se bastar, a de ser independente como a casa do alto, com água sua, sem precisar do largo.

Mas havia, por baixo desse orgulho, uma coisa que Soledade não dizia, e que era o avesso dele. A casa do alto, com a sua cisterna, não precisava da fonte, é verdade; mas também estava longe da fonte. Longe do largo, longe do ajuntar da vila à volta da água, longe da conversa que se faz onde a gente se cruza a encher o cântaro, longe da vida. E Soledade, na casa do alto, bastando-se, estava também sozinha, à parte, fora. A independência que era o seu orgulho era também o seu isolamento, porque quem não precisa da fonte não vai à fonte, e quem não vai à fonte não encontra ninguém; e a cisterna própria, que lhe poupava a descida, poupava-lhe também o encontro. Lá em baixo, no largo, as mulheres da vila enchiam os cântaros e falavam, e riam, e ajudavam-se a pôr o cântaro à cabeça, e sabiam umas das outras; e Soledade, lá em cima, com a sua água, não sabia de ninguém, e ninguém sabia dela, e ela chamava a isso ser livre.

O marido morrera-lhe cedo, havia mais de trinta anos, num acidente na pedreira. Chamava-se Alfredo, e era um homem grande e calado, dos que trabalham a pedra, e morrera como morrem os homens da pedra, debaixo dela, num desabamento de uma frente que cedeu numa manhã de chuva. Soledade tinha então vinte e poucos anos, e o Domingos era um menino de gatas, e ela estava na cozinha a fazer o caldo quando bateram à porta a meio da manhã, fora de horas, e ela soube, antes de abrir, pela hora errada da batida, que era desgraça, porque as batidas têm horas, e a daquela manhã não tinha a hora de nenhuma boa nova. Era o capataz da pedreira, de boné na mão, e atrás dele dois homens, e o capataz disse só, Soledade, e não disse mais, porque não era preciso, e ela ficou à porta com a colher do caldo ainda na mão, e o que lhe veio à cabeça, a primeira coisa, não foi a dor, que essa veio depois e ficou; a primeira coisa foi um cálculo frio, foi a pergunta de quem fica só, e agora, e o menino, e a casa, e quem, e o cálculo deu logo, naquele instante à porta, a resposta que havia de governar trinta anos: eu. Agora sou eu. Eu trato. Eu faço.

Trouxeram-lho ao fim da tarde, e a vila veio, como a vila vem, com as mulheres a encherem a cozinha de comida que ninguém comia e os homens a ficarem no quintal de chapéu na mão; e veio quem havia de vir, as comadres, as vizinhas, gente a oferecer-se, Soledade, o que é que tu precisas, conta connosco, não fiques sozinha com isto. E Soledade agradeceu a todos, de olhos secos, e a todos disse a mesma coisa, obrigada, eu cá me arranjo, vão descansados, e foi enterrando o marido e despachando os pêsames com uma firmeza que a vila tomou por força e que era já a cisterna a fechar-se de vez por cima da viuvez. Houve uma mulher, a Benvinda velha, a mãe da que está hoje ao balcão da mercearia, que ficou para o fim, e que à porta, ao sair, pegou-lhe nas duas mãos e disse-lhe, olha, filha, eu sei o que é, que também enviuvei nova, e digo-te uma coisa: não faças isto sozinha. Ninguém aguenta uma serra inteira aos ombros, e tu vais querer aguentar, que eu vejo-te na cara. Deixa a vila ajudar-te. É para isso que serve. E Soledade ouviu, e agradeceu, e não a deixou. Achou que a Benvinda dizia aquilo por bondade de velha, e que ela era nova e tinha braços, e que a vila que ajudava hoje cobrava amanhã, que toda a ajuda se paga, e que ela não devia nada a ninguém nem queria começar a dever na hora em que estava mais fraca. E fechou a porta atrás da última visita, e ficou sozinha na cozinha com o menino a dormir e o marido na terra, e foi naquela noite, mais do que na da porta dos Fonsecas, que a cisterna se acabou de fazer de pedra; porque uma mulher que fica viúva nova, com um filho a criar e uma casa a segurar na serra, ou pede e depende, ou aperta os dentes e faz tudo sozinha; e Soledade, que desde menina jurara não pedir, apertou os dentes, e criou o filho sozinha, e governou a casa sozinha, e a vila, ao vê-la, em vez de a ajudar, admirou-a, aquela viúva é de ferro, cria o filho sozinha e não se queixa.

E o Domingos cresceu a ver a mãe fazer tudo sozinha, a ouvi-la dizer eu faço, a nunca a ver pedir nada a ninguém; e aprendeu, sem ninguém lho ensinar, que a mãe não precisava de nada, que a mãe se bastava, e levou esse aprendizado para a vida, e foi por isso, em parte, que pôde emigrar sem remorso, porque uma mãe que não precisa de nada é uma mãe que se pode deixar sozinha na serra sem se carregar o peso de a deixar.

O único laço era o filho. O Domingos, emigrado, longe, do outro lado de uma fronteira, que telefonava ao domingo. E mesmo a esse Soledade não deixava entrar.

— Então, mãe, como é que está? — perguntava o Domingos. — Está tudo bem por aí?

— Está tudo bem, filho — respondia Soledade. — Não te preocupes. Está tudo.

— Precisa de alguma coisa? Quer que eu mande?

— Não preciso de nada. Faz a tua vida, que eu cá me arranjo.

E o Domingos, longe, sossegado pelo está tudo bem, não insistia, porque a mãe sempre fora assim, de ferro, de não precisar, e ele crescera a ouvi-la dizer eu faço, e habituara-se a uma mãe que não pedia. E por isso não via, do longe, que o está tudo bem era a maior mentira da casa do alto, a mentira que Soledade dizia a toda a gente, ao filho, à vila, a mentira do bastar-se, que escondia uma mulher que precisava, como toda a gente, e que tinha decidido, havia cinquenta anos, numa noite, não voltar a deixar que se soubesse.

Havia um sítio do caminho, a meio da descida, num cotovelo do carreiro, de onde se via o largo lá em baixo e a fonte ao meio dele. Soledade passava por ali quando descia à vila a tratar do que tinha de tratar, dos papéis, da feira, da missa que ia poucas, e do cotovelo do caminho via, sem parar, porque parar a olhar era coisa que ela não fazia, via as mulheres à volta da fonte. Era de manhã, quase sempre, que era a hora da água, e estavam lá meia dúzia delas, com os cântaros, e a água a correr do cano de pedra para dentro do tanque, e elas à espera da vez, e a falar. Falavam alto, que a água tapava as vozes e era preciso falar por cima dela, e riam-se, e Soledade, do alto do caminho, ouvia o riso a subir, esfarrapado pelo vento, sem perceber de quê. Via a Mariana dos Reis a ajudar a velha Encarnação a pôr o cântaro à cabeça, com aquele jeito que é uma arte, a rodela de pano enrolada na coroa e o cântaro equilibrado por cima sem uma mão a segurá-lo, e a velha a partir já direita com a água na cabeça e o corpo todo numa linha, e a Mariana a gritar-lhe atrás qualquer coisa que a fazia rir. Via a Aurora, às vezes, que também ia à fonte, embora tivesse poço, porque à fonte ia-se também por ir, por estar, por saber das outras. E Soledade ficava um instante no cotovelo do caminho, com o seu cântaro vazio que não precisava de encher porque tinha a sua cisterna em casa, a olhar aquilo lá em baixo como quem olha uma festa de uma janela fechada: de fora, de cima, sem ruído, sem se misturar. E o que sentia, se parasse a senti-lo, que não parava, era uma coisa esquisita, meio orgulho e meio outra coisa sem nome, o orgulho de não ter de descer ali a fazer fila por água, e por baixo dele, escondida, uma falta, a de nunca ninguém lhe ter posto o cântaro à cabeça, a de nunca ter rido por cima do barulho da água, a de passar sempre no cotovelo do caminho de cântaro vazio e seguir para cima, para a sua água, para a sua casa, para a sua solidão com nome de casa que se basta. E seguia. Seguia sempre para cima, e dizia para dentro que era livre, e a fonte ficava-lhe nas costas, cheia de gente, a correr.

E houve uma noite, no princípio do inverno, em que a cisterna deu o primeiro sinal de que podia secar.

Soledade estava sozinha na casa do alto, depois da ceia, a remendar uma camisa à luz do candeeiro, com o lume já baixo na lareira e o silêncio da serra a entrar pelas frinchas, quando sentiu o peito apertar. Foi devagar, ao princípio, um aperto, como uma mão fechada por dentro do peito; e depois uma dor que lhe subiu pelo braço esquerdo, do ombro ao cotovelo, e uma falta de ar, como se o quarto se tivesse ficado sem ar de repente, e um suor frio a brotar-lhe na testa e no lábio, e o coração a bater-lhe descompassado, a saltar e a parar e a saltar. Pousou a camisa no regaço, e a agulha caiu-lhe da mão e ficou pendurada do fio, e ela ficou quieta na cadeira, muito direita, com a mão no peito, à espera, com a frieza de quem já viu morrer e sabe o que isto pode ser. A dor apertou mais, e Soledade pensou, sem alarme, com uma clareza estranha, é o coração, posso estar a morrer aqui, nesta cadeira, esta noite.

E olhou para o telefone, em cima do aparador, a três passos dela, o telefone preto de fio com que falava ao filho aos domingos, e por um instante a mão direita, a que não doía, levantou-se da cadeira e quis ir a ele, ligar a alguém, à Aurora a meia encosta, ao centro de saúde, à camioneta, a quem fosse, dizer venham, estou mal, acudam-me. E a mão ficou no ar, a meio caminho do telefone, a tremer. E não foi. Baixou-se outra vez, pousou-se outra vez no regaço, ao lado da camisa, porque ligar era pedir, e ela não pedia, nem a morrer. Pensou, na cadeira, com a dor a apertar, que se ligasse a Aurora teria de dizer estou mal, vem, e que a Aurora viria, de noite, encosta acima, e a encontraria ali com a camisa no regaço, à mercê, a precisar, e que isso, ser encontrada à mercê, era pior, no fundo dela, do que a própria morte; e ficou na cadeira, sozinha, com a dor, à espera de que passasse ou de que a levasse, e não chamou ninguém, porque na casa do alto, àquela hora, com a porta fechada e a cisterna cheia e ninguém a quem pedir, Soledade preferia arriscar morrer sozinha a fazer a coisa que jurara, há cinquenta anos, não voltar a fazer.

A dor passou, ao fim de uns minutos que lhe pareceram uma hora. Soledade ficou a respirar, devagar, a sentir o coração abrandar, e quando se compôs, e a casa voltou ao silêncio, ficou-lhe um susto, e o susto deixou-lhe uma pergunta, a primeira de muitas: e se um dia não passa? E se um dia caio, aqui, sozinha, e a dor não passa, e não há ninguém, porque eu nunca deixei entrar ninguém? Quem é que dá por mim, na casa do alto, com a porta fechada? Quanto tempo é que eu fico aqui, caída, antes que alguém repare que não há fumo na minha chaminé?

E Soledade, com a pergunta, não mudou logo, que não se muda uma cisterna de cinquenta anos numa noite. Mas a pergunta ficou, a pingar, no fundo dela, e foi a primeira gota de uma água nova: a desconfiança de que o bastar-se, que fora o seu orgulho a vida toda, podia ser, no fim, a sua sentença. A de morrer sozinha na casa do alto, de secura, por nunca ter aprendido a única coisa que faltava à cisterna, a única que a podia salvar de secar: deixar entrar a água de fora, que é, nas pessoas, pedir.

· fim da amostra ·

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