A Chave da Fábrica

Biblioteca de Véspera · o vigésimo primeiro romance

A Chave da Fábrica

Há trinta anos que a chave da Fiandeira é da Preciosa: abre antes de todos, fecha depois de todos, sabe onde tudo está e como tudo se faz. Nunca gozou férias inteiras; adoecer, para ela, é organizar a doença para não faltar. Se eu parar, tudo cai, é a frase que a sustenta e a cerca. Este é o ano em que entrega a chave, por uma semana, e assiste, com terror e depois com espanto, à fábrica a funcionar sem ela, e descobre o que a frase escondia: não era a fábrica que caía sem ela, era ela que não sabia quem fosse sem a fábrica.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Preciosa, filha da vila, e o nome foi profecia e armadilha: chamaram-lhe Preciosa, a que vale, a de preço, e ela cumpriu o nome fazendo-se imprescindível, a que não se pode dispensar, a sem quem nada anda; mas o nome, que parecia uma bênção, foi uma armadilha, porque quem se faz indispensável fica preso à coisa que o torna indispensável, e Preciosa fez-se a chave de uma fábrica.

Os assentos guardam quem segura as casas e os ofícios da vila, e a que coisa cada nome se prendeu. Não dizem quem é uma pessoa sem o que faz, nem o que se descobre, do outro lado do medo, no dia em que se entrega a chave e se vê a fábrica andar sem nós. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

A chave

Preciosa tinha a chave da Fiandeira, e a chave era mais do que uma chave: era ela. Há trinta anos que era a Preciosa a primeira a chegar, de manhã, a abrir o portão, a acender as máquinas, e a última a sair, à noite, a desligar tudo, a fechar; e nesses trinta anos a chave da fábrica colara-se-lhe à mão de tal maneira que já não se sabia onde acabava a Preciosa e onde começava a Fiandeira.

Era uma chave grande, de ferro escuro, com o pé comprido e a cabeça em forma de coração tosco, dessas que já se não fazem, e tinha um peso na mão que as chaves novas não têm. Preciosa trazia-a num molho à parte, separada das outras, presa a um cordel que ela própria mudava quando começava a desfiar, e de manhã, no escuro, sabia-a entre todas só pelo tato, pela frieza do pé e pelo gasto da cabeça, sem precisar de luz. O portão da Fiandeira era de duas folhas, com um cadeado por fora e uma fechadura por dentro, e havia um truque para a abrir que só Preciosa sabia: dar meia volta, puxar a folha para si com o joelho, e só então rodar de vez, porque o portão tinha assentado com os anos e mordia a chave se a gente forçasse à pressa. Quem não soubesse o truque ficava à chuva a praguejar, com a chave entalada, e fora isso, no fundo, que a fizera contente durante trinta anos: haver um truque, e ser ela a sabê-lo.

Eram seis menos um quarto quando chegava, sempre, fizesse frio ou calor, fosse segunda ou véspera de feriado. A vila ainda dormia, a serra era um vulto deitado, e Preciosa descia a rua da fábrica sozinha, com o ruído dos seus próprios passos a fazer-lhe companhia, e a primeira coisa que via, ao virar a esquina, era a chaminé da Fiandeira contra o céu que mal clareava, fria, à espera. Abria o portão com o seu truque, e o som da chave a morder e a ceder era o primeiro som do dia, e era um som que lhe pertencia. Depois entrava no escuro do pavilhão, que cheirava a óleo de máquina e a fio de algodão e a humidade de pedra, e ia acender as máquinas pela ordem certa, uma a uma, e a fábrica ia acordando à volta dela como acorda um corpo, primeiro o coração, depois os membros, e Preciosa, no meio daquele despertar, sentia-se a única pessoa do mundo a quem o mundo precisava.

Havia, no batente do portão, uma risca pequena, gasta no ferro, à altura da mão dela. Fora a Preciosa que a fizera, sem querer, ao longo dos anos, sempre a apoiar a mão no mesmo sítio para puxar a folha com o joelho, e o ferro cedera ao gasto da mão, devagar, como a pedra cede ao pingo, e formara-se ali um brilho liso, uma marca, a marca da mão dela repetida trinta anos. A Preciosa conhecia aquela risca de cor, e às vezes, ao abrir, passava-lhe o polegar por cima, sem pensar, como quem cumprimenta uma coisa sua; e era, aquela risca no batente, a prova mais funda de que ela e a fábrica eram um só, porque até o ferro do portão guardava a forma da mão dela, gravada a custo de madrugadas, e não havia no mundo outra mão que coubesse exatamente naquela risca.

Quando os outros chegavam, às oito, já tudo estava a andar. Encontravam as luzes acesas, as máquinas quentes, o pavilhão pronto, e nunca, em trinta anos, encontraram a porta fechada à hora deles, nem uma vez, porque a Preciosa chegava sempre primeiro, e isso era uma das coisas que a fábrica inteira sabia sem dizer: que a Fiandeira abria porque a Preciosa abria, e que se um dia a porta estivesse fechada às oito, era porque tinha acontecido alguma coisa muito grande, uma desgraça, e ninguém na fábrica sabia bem o quê, porque nunca acontecera.

Era a Preciosa que sabia onde tudo estava, na fábrica. Sabia em que prateleira ficava cada peça, e sabia-o de cor, sem catálogo, porque o catálogo era ela. A Idalina, a tecedeira mais antiga depois dela, com as mãos já de cera e os olhos a falhar mas o ouvido afinado a cada tear como uma mãe ao choro do filho, dizia muitas vezes, quando uma máquina começava a dar um som que não devia: chama a Preciosa, que a Preciosa sabe. E a Preciosa vinha, encostava o ouvido à máquina, punha a mão na engrenagem, e dizia é o terceiro pinhão, está a pedir óleo, ou é a correia, daqui a três dias parte, vou já trocar, e era sempre o terceiro pinhão, era sempre a correia, e a Idalina abanava a cabeça com um respeito que era quase devoção e dizia esta mulher tem as máquinas na cabeça.

O Belmiro, que tratava da manutenção, era um homem dado e prestável, mas a verdade é que vinte anos na fábrica não lhe tinham bastado para aprender o que a Preciosa sabia, e a culpa não era toda dele. Quando avariava a coisa grande, a sério, a caldeira ou o motor central, o Belmiro chamava a Preciosa, e a Preciosa não lhe dizia faz assim, mostro-te; dizia sai daí, deixa-me ver, e fazia ela, depressa, com as mãos dela, e o Belmiro ficava atrás, a ver, e via mal, porque quem só vê nunca aprende, e às tantas desistia de ver e ia fazer outra coisa, e a avaria ficava reparada e o saber ficava com a Preciosa, intacto, como ela queria sem o querer.

A Otília, da contabilidade, do escritório pequeno com a janela para o pátio, sabia os números, mas para saber o que os números queriam dizer ia ter com a Preciosa: que cliente é que paga a trinta dias e qual é o que se atrasa sempre mas paga, qual é o fornecedor que entrega à quinta e qual é o que promete e falha, quanto fio é que faz falta para a encomenda dos lençóis e quanto é que sobra de margem para os imprevistos; e a Otília escrevia nos seus livros o que a Preciosa lhe ditava de cabeça, e os livros pareciam dizer que era a Otília que tratava das contas, mas a Otília sabia, e dizia-o em casa, que a fábrica ia na cabeça da Preciosa e que os livros eram só a sombra dela no papel.

E havia o caderno. Havia um caderno de capa preta, gasto nos cantos, com um elástico que já não esticava, onde a Preciosa apontava as encomendas, os prazos, as manhas dos clientes, e esse caderno andava no bolso do bibe dela e dormia em casa dela, e ninguém mais lhe punha a mão. Quando um cliente telefonava a perguntar pela encomenda, era a Preciosa que tirava o caderno do bolso, folheava com o dedo molhado de saliva, e dizia a sua tela fica pronta quinta-feira, mando-lha de manhã, e desligava, e o cliente ficava descansado porque a palavra da Preciosa valia, e a Otília, no escritório, não sabia onde estava o que a Preciosa acabara de dizer, porque estava no caderno, e o caderno estava no bolso, e o bolso ia para casa.

Houve um dia, em particular, que mostrava bem como tudo se passava, e que era um dia igual a mil. Era uma terça de manhã, e havia três coisas ao mesmo tempo, como sempre: o motor central a dar um ruído novo, um camião do fornecedor à porta a descarregar o errado, e o telefone a tocar com um cliente de feitio. E a Preciosa, como sempre, fazia as três. Dizia ao Belmiro segura aí o motor que eu já vou, e gritava para o camioneiro isso não é o que pedimos, leve de volta, e atendia o telefone com a outra mão, tudo ao mesmo tempo, num tear de coisas que só a cabeça dela conseguia fiar. O Zé Maria, um rapaz dos fardos, ainda novo na casa, ficou a vê-la fazer aquilo e disse, com admiração, mas como é que a senhora dá conta de tudo, Preciosa? E a Preciosa respondeu, sem parar, com um orgulho que lhe saiu antes do pensamento: dou, filho, porque se não desse, isto parava. E o Zé Maria abanou a cabeça, e a Preciosa sentiu-se, naquele instante, no centro do mundo, com o mundo todo a precisar dela ao mesmo tempo, e foi feliz, à maneira dela, que era a única maneira de felicidade que conhecia.

Mas houve, nesse mesmo dia, uma coisa pequena que dizia o resto, e que a Preciosa nem reparou que fazia. Ao fim da tarde, já mais calmo, o Zé Maria, cheio de boa vontade, veio ter com ela e ofereceu-se: Preciosa, ensine-me a tratar dos fornecedores, para a próxima trato eu do camião e a senhora fica livre para o motor. Era uma boa ideia, uma ideia limpa, e a Preciosa olhou o rapaz, e em vez de dizer boa ideia, anda cá que te ensino, disse o que dizia sempre, com um sorriso que abrandava a recusa: deixa, filho, isto dos fornecedores tem manhas, é melhor ser eu, mais depressa faço eu. E o Zé Maria encolheu os ombros e foi-se, e a coisa ficou, mais uma vez, com a Preciosa; e era assim, dia após dia, oferta após oferta recusada com um sorriso, que a fábrica se ia pendurando toda nela, e que ela ia tendo, de cada vez, mais uma corrente que confundia com mais um galardão.

E assim, ano após ano, a fábrica fora-se construindo à volta da Preciosa, dependente dela para tudo, e a Preciosa fora-se tornando a chave sem a qual a Fiandeira não abria, não andava, não fechava. E Preciosa tinha nisso o seu orgulho, o maior da vida dela. Ser indispensável era o que ela era, era o que lhe dava o lugar, a importância, o sentido; chegar de manhã e ser a primeira, ter a chave, abrir a fábrica, pôr tudo a andar, ser procurada o dia inteiro para resolver isto e aquilo, ser a sem quem nada se fazia, era a coisa que a enchia, que a fazia sentir-se alguém, que justificava a vida dela; e cada vez que a Idalina dizia chama a Preciosa, ou o Belmiro lhe entregava a avaria com um deixa-me ver, ou a Otília lhe vinha perguntar pelo cliente, Preciosa sentia uma satisfação funda, a de ser imprescindível, a de valer, a de não se poder dispensar.

Mas havia, por baixo desse orgulho, uma coisa que Preciosa não via e que ia ser o livro: é que ela não se tornara a chave só porque era boa. Tornara-se a chave de propósito, sem o saber, fazendo por que tudo passasse por ela. Não ensinava o Belmiro porque era mais depressa fazer; não ditava as contas todas à Otília porque o caderno era dela; não deixava ninguém abrir a fábrica de manhã porque o truque do portão era dela e não se fiava em mais ninguém. Guardava os saberes, as chaves, os truques, de modo que ninguém na fábrica pudesse fazer o que ela fazia, e que ela fosse, por isso, insubstituível; e essa insubstituibilidade, que ela vivia como mérito, era em parte uma construção, uma muralha que ela erguera à volta de si, pedra a pedra, dia a dia, para que ninguém a pudesse dispensar, para que precisassem sempre dela, porque ser precisada era, para Preciosa, a única maneira de se sentir segura.

E havia, na vida da Preciosa, uma solidão que ela nunca chamara pelo nome, porque a fábrica a tapava, como a fábrica tapava tudo. Vivia sozinha, numa casa que herdara dos pais, e a casa estava sempre arrumada e fria, porque ela quase só lá dormia; e ao domingo, único dia em que a fábrica fechava, a Preciosa não sabia o que fazer de si, e dava por si, muitas vezes, a descer à fábrica fechada só para conferir uma coisa que não precisava de ser conferida, só para estar onde sabia ser. Abria o portão deserto, com o seu truque, ao domingo, e ficava no pavilhão silencioso, sozinha, a passar a mão pelas máquinas paradas, e era ali, no meio das máquinas caladas de um domingo, que a Preciosa se sentia, por estranho que pareça, menos sozinha do que em casa; porque na fábrica era a chave, e em casa não era ninguém. E nunca pensara nisto como uma tristeza, sempre o pensara como dedicação, e era preciso vir um aperto no peito, e uma Guardiã, e uma rapariga frontal, para que a Preciosa começasse a desconfiar de que descer à fábrica ao domingo para não estar sozinha não era amor ao trabalho, era fuga de si.

E o preço dessa muralha era enorme, e Preciosa pagava-o sem se queixar. Nunca tirava férias inteiras, porque se faltasse uma semana a fábrica não andava, ou ela achava que não andava; quando adoecia, organizava a doença para não faltar, ia trabalhar doente, levava trabalho para casa; não tinha vida fora da fábrica, não tinha tempo, não tinha quase relações, porque a fábrica ocupava-lhe tudo, e ela deixava-a ocupar, porque sem a fábrica não saberia o que fazer de si. E os anos foram passando, e Preciosa, aos cinquenta e quatro, dera a vida inteira à Fiandeira, e não tinha mais nada, nem marido, nem filhos, nem vida própria, só a fábrica, só a chave, só o ser indispensável, que era tudo o que ela era.

E o corpo, aos cinquenta e quatro, começava a avisá-la. O cansaço de trinta anos sem férias inteiras pesava-lhe; as dores, a tensão, a exaustão de ser sempre a primeira e a última, de ter a fábrica toda às costas, começavam a cobrar. E houve uma manhã, no princípio do livro, em que o corpo lhe falou a sério. Tinha acabado de acender o motor central, ainda no escuro do pavilhão, sozinha, e ao endireitar-se sentiu o peito apertar-se-lhe como um punho, um aperto que lhe subiu ao braço e à mandíbula, e o pavilhão andou-lhe à roda, e Preciosa teve de se agarrar à borda fria do tear da Idalina para não ir ao chão. Ficou ali, dobrada, a respirar como podia, com a chave ainda na mão, suada de um suor frio, e por um instante, um instante só, não pôde. Não pôde acender o resto das máquinas, não pôde abrir o portão de par em par, não pôde ser a chave. Teve de se sentar no caixote dos restos, ao pé do tear, e esperar que o punho lhe largasse o peito.

E foi nesse instante de não poder, sozinha no escuro, com a fábrica ainda apagada à volta dela e a chave a pesar-lhe na mão como nunca pesara, que Preciosa teve um pensamento que a assustou mais do que o aperto no peito. Não foi vou morrer. Foi: se eu cair, de vez, esta manhã, aqui, o que é feito da fábrica? Quem é que a abre? Quem é que sabe o truque do portão, o terceiro pinhão, o caderno? E logo a seguir, antes de ela o poder travar, veio o outro pensamento, o que o livro lhe vinha a guardar, e que era pior, muito pior, porque não a assustou pela fábrica, assustou-a por ela: e se a fábrica abrir na mesma? E se alguém der com o truque, e acender as máquinas, e a fábrica andar sem mim, esta manhã, sem que eu lá esteja? O que é feito de mim?

Não foi a primeira vez que o corpo lhe falava, mas foi a primeira a que ela teve de o ouvir. Meses antes, a médica nova do centro, ao medir-lhe a tensão num desses exames que a fábrica obrigava, abanara a cabeça e dissera, a senhora anda com isto muito alto, Preciosa, precisa de descansar, de tirar uns dias; e a Preciosa rira-se e dissera a frase, ai doutora, se eu parar tudo cai, e a médica, que era de fora e não conhecia a frase, olhara-a por cima dos óculos e perguntara, séria: e a senhora acha que vale mais a fábrica de pé ou a senhora viva? E a Preciosa não soubera responder, na altura, e arrumara a pergunta, como arrumava tudo o que não cabia no dia. Agora, sentada no caixote dos restos com o punho a largar-lhe o peito, a pergunta da médica voltava-lhe, a fábrica de pé ou a senhora viva, e pela primeira vez a Preciosa percebia que a tinha andado a viver como se fossem a mesma coisa, e que talvez não fossem, e que talvez o dia chegasse em que tivesse de escolher.

O aperto largou-lhe o peito a pouco e pouco. Preciosa levantou-se do caixote, devagar, com as pernas ainda moles, e ficou de pé no escuro, com a mão fechada à volta da chave, e não acendeu logo o resto das máquinas. Ficou ali um bocado, parada, a ouvir o silêncio da fábrica por acender, e percebeu, com um arrepio que não era do frio da manhã, que a frase que dizia há trinta anos, se eu parar tudo cai, talvez não fosse o que sempre julgara que era. Talvez não fosse só sobre a fábrica. Talvez fosse, sobretudo, sobre ela, sobre o medo de descobrir que a fábrica andava sem ela, e que ela, sem a fábrica, sem a chave na mão, sem o truque, sem o caderno, sem ninguém a chamá-la, não sabia, ao certo, quem era.

Depois acendeu as máquinas, uma a uma, pela ordem certa, e abriu o portão de par em par, e quando os outros chegaram às oito estava tudo a andar, como sempre, e ninguém deu por nada. Mas a Preciosa dera. E em Véspera sabe-se, melhor do que em qualquer outro lugar, que há perguntas que, uma vez feitas no escuro de uma manhã, já não voltam a adormecer.

· fim da amostra ·

o livro inteiro

Doze capítulos, a travessia inteira. A Chave da Fábrica está na loja.

PDF imediato após o pagamento, teu para sempre, com garantia de 7 dias.

Ler o livro inteiro · €12

← a biblioteca inteira