A Casa por Acabar

Biblioteca de Véspera · o décimo quinto romance

A Casa por Acabar

Há vinte anos que o Venturoso anda a acabar a casa nova: quando estiver pronta, casam a sério, vivem a sério, são felizes a sério. Esperança ama esse homem por vir, o desenho dele; ao que existe, adiador e encantador, não pergunta nada. Este é o ano em que olha a casa ao sol, bonita como um esqueleto, e se pergunta quanto da sua vida está ali emparedado.

Um romance · 12 capítulos, terminado. Lê o primeiro aqui em baixo; o livro inteiro está na loja.

Do registo de Véspera

No registo da vila, pela mão das Guardiãs que pelo livro passaram, encontra-se:

Esperança, filha de gente da vila, nascida na primavera, e o nome foi promessa, como quase todos os de Véspera, mas o desta foi de uma espécie particular: a mãe, que vivera uma vida inteira à espera da vida que o marido lhe ia dar para o ano, pôs à filha o nome de Esperança não para a abençoar, embora julgasse que sim, mas porque a esperança era a única coisa que a casa tivera sempre em abundância, e o que se tem em abundância numa casa é o que se passa às filhas, mesmo quando é o que mais lhes faz mal.

Os assentos dizem quem casou de quem, e quando, e guardam, sem o quererem, as datas de princípio sem a data de fim. Não dizem quanto de uma vida fica emparedado numa casa por acabar, à espera de um telhado que há de vir para o ano. Para isso são precisos os livros como este.

capítulo um

Quando a casa estiver pronta

Esperança tinha uma frase que organizava a vida dela como o sino organizava os dias da vila, e a frase era esta: quando a casa estiver pronta.

Quando a casa estiver pronta, casavam a sério. Quando a casa estiver pronta, ela ia viver com o Venturoso. Quando a casa estiver pronta, começava a vida que andava há vinte anos à espera de começar, a vida verdadeira, a tal a sério, a que ainda não tinha podido ser porque a casa não estava pronta. E a casa não estava pronta havia vinte anos, e havia vinte anos que a frase quando a casa estiver pronta adiava tudo, e Esperança dizia-a sem amargura, com uma fé que a vila admirava em voz alta e lamentava em voz baixa, porque a vila, que via de fora, sabia uma coisa que Esperança, que via de dentro, não queria saber: que uma casa que não se acaba em vinte anos não é uma casa que está a demorar; é uma casa que não se vai acabar.

O Venturoso começara a casa quando ficaram noivos, e fora um começo cheio de promessa, dos mais bonitos que a vila vira: ele comprara o terreno mais alto da encosta, com a melhor vista da vila e do rio, e levantara as paredes depressa, com um entusiasmo de quem ergue não uma casa, mas uma vida, e prometera a Esperança que ali fariam a casa mais bonita de Véspera, com uma varanda virada ao nascente para os dois tomarem o café a ver o sol subir, com um quarto para os filhos que haviam de vir, com uma lareira onde envelheceriam juntos. E Esperança, nova, apaixonada, acreditara, e ajudara a sonhar a casa pedra a pedra, e fora das semanas mais felizes da vida dela, aquelas em que a casa subia e a vida com ela.

E depois a casa parou. Não de uma vez, que isso ter-lhe-ia aberto os olhos; parou devagar, com razões, sempre com razões, que era o que tornava o por acabar tão fácil de aguentar. Faltou o dinheiro para o telhado, e esperou-se; veio o dinheiro e faltou o tempo, que o Venturoso tinha o trabalho e a casa só se fazia aos domingos; veio o tempo e o Venturoso achou que afinal a janela ficava melhor do outro lado, e desfez-se o que estava feito para se fazer melhor, e o melhor levou mais um ano; e assim, de razão em razão, de para o ano em para o ano, a casa que ia ser a mais bonita de Véspera ficou no que era, paredes erguidas e telhado a meio, sem portas, sem janelas em metade dos vãos, com o vento a entrar e a erva a crescer no chão de terra batida, uma casa que de longe parecia uma casa e de perto era um esqueleto, bonito, com a melhor vista da vila, e vazio.

Havia um sinal, na casa, que Esperança aprendera a não ler, e que era o mais claro de todos. À entrada do que havia de ser a cozinha, encostado à parede que dava ao nascente, estava, havia dezanove anos, um portão de ferro novo, comprado para a entrada principal, ainda com a etiqueta do ferreiro atada a um varão, ainda com a tinta de fábrica e dois pontos de ferrugem onde a chuva mais batia. O Venturoso comprara-o num arranque, num daqueles arranques que lhe vinham e que pareciam o princípio de tudo, e trouxera-o à serra no carro do cunhado, e pousara-o ali, encostado, à espera dos gonzos e dos pilares que havia de erguer no domingo seguinte. O domingo seguinte fora há dezanove anos. Esperança lembrava-se do dia em que ele o comprara, lembrava-se de ele lhe ter dito, com aquela luz nos olhos, repara, Esperança, é o portão da nossa casa, por aqui é que vão entrar os nossos filhos, e ela achara-o lindo, e dera-lhe um beijo à frente do ferreiro, que se chamava Aprígio e que era homem de poucas falas. E foi o Aprígio, anos mais tarde, num São João, já com a bebida solta e a língua mais à vontade, quem lhe disse a coisa que ela arrumou na altura e que só agora desdobrava. Esperança, disse-lhe ele, eu fiz aquele portão com gosto, que era para uma casa que ia ser bonita. E ainda hoje me dói lá chegar e vê-lo encostado à parede, com a minha etiqueta a ganhar bolor. Um portão é para se pendurar, mulher. Um portão encostado não é um portão; é um caixão de pé. Esperança rira-se, na altura, e dissera-lhe que estava bêbedo, e fora-se embora ofendida por ele, sem saber porquê; e o portão continuou encostado, com a etiqueta do Aprígio a apodrecer, e tornou-se, como a casa, como o noivado, uma coisa que sempre ali esteve e que se deixou de ver.

E o Venturoso, esse, não mudou nada em vinte anos, e era essa a parte mais difícil de ver. Continuou encantador, continuou a falar da casa com o mesmo entusiasmo do primeiro dia, continuou a dizer este ano acabo-a, Esperança, este ano é que é, e a dizê-lo com tanta verdade na voz que Esperança acreditava, todos os anos, porque ele acreditava, ele não mentia, ele queria mesmo acabar a casa, ele via-a pronta na cabeça com tanta nitidez que a descrevia a Esperança como se já lá morassem, a varanda, o café ao nascente, a lareira, e Esperança ouvia-o descrever a casa que não existia e amava-o, amava-o por aquilo, por ele ver tão bem a casa por vir, por ele prometer tão bonito, e nunca reparava, porque não queria reparar, que estava a amar um homem por uma casa que ele nunca ia construir, por uma vida que ele nunca ia dar, por um Venturoso que só existia no por vir e que o Venturoso real, o de todos os dias, adiava sem fim.

Porque era isso, no fundo, que Esperança amava: não o Venturoso que existia, mas o que ele prometia ser. Amava o desenho dele, o projeto, o homem que ele ia ser quando a casa estivesse pronta, quando ele se decidisse, quando enfim começasse a vida a sério; e a esse homem por vir Esperança era fiel havia vinte anos, esperava-o, guardava-se para ele, punha nele toda a esperança que tinha no nome; e ao homem real, ao que estava à frente dela, ao adiador encantador que nunca acabava nada, a esse Esperança não pedia nada, não cobrava nada, não via quase nada, porque vê-lo seria perder o outro, o por vir, e Esperança preferia amar a promessa a ter de olhar a pessoa.

Viviam cada um em sua casa, ela com uma tia velha de quem cuidava, ele com a mãe, a Sina, e encontravam-se como namorados de vinte anos atrás, aos domingos, à saída da missa, nas festas, e era um noivado que a vila já não comentava de tão antigo, um noivado que se tornara paisagem, como a casa por acabar na encosta, uma coisa que sempre lá esteve e que se deixou de ver. E Esperança, aos quarenta e três anos, era ainda a noiva do Venturoso, a que ia casar quando a casa estivesse pronta, e tinha o enxoval guardado numa arca havia vinte anos, lençóis bordados que amarelavam de guardados, à espera de uma casa que os recebesse, como ela própria, percebê-lo-ia mais tarde, era um enxoval guardado numa arca, a amarelar, à espera de uma vida que a recebesse.

A tia chamava-se Florinda, e era irmã do pai de Esperança, e fora ela quem a recolhera quando a mãe morreu e o pai, viúvo, se afundou de vez na sua véspera permanente, sem cabeça para criar uma menina de dezasseis anos. A Florinda nunca casara. Tivera, em nova, um amor, e o amor partira para o Brasil a prometer mandá-la buscar quando estivesse estabelecido, e ela esperara a carta da passagem dez anos, com a roupa de viagem pronta numa mala em cima do guarda-fato, e a carta nunca veio, e veio antes a notícia de que ele casara lá com outra. A Florinda nunca tirou a roupa da mala. Esperança crescera com aquela mala em cima do guarda-fato da tia, e perguntara-lhe em pequena para que servia, e a tia respondera-lhe, sem se voltar, é para uma viagem que eu já não faço, filha, mas guardo-a para me lembrar de não ser parva duas vezes. E Esperança, nessa altura, não percebera; e haveria de levar vinte anos a perceber que dormia, todas as noites, debaixo do telhado de uma mulher que esperara um homem que não chegou, com a bagagem pronta, e que ela própria, no quarto ao lado, esperava outro, com o enxoval pronto, e que a casa da Florinda era, sem que nenhuma das duas o dissesse, uma casa de duas mulheres à espera, cada uma com a sua mala feita para uma vida que não vinha.

E havia, no chão do que havia de ser a sala, uma coisa que media os vinte anos melhor do que qualquer calendário, e que Esperança via todas as vezes e nunca lia: uma figueira. Nascera sozinha, de uma semente que um pássaro deixou cair, no chão de terra batida da sala, ao pé do que havia de ser a lareira, e fora crescendo ano após ano dentro da casa por acabar, sem que ninguém a plantasse nem a arrancasse, e era agora uma figueira da altura de um homem, com o tronco já grosso, a dar figos no verão dentro da casa que nunca fora casa. E Esperança, em rapariga, no primeiro ano, vira a figueirinha pequena, de dois palmos, e dissera ao Venturoso, a rir, olha, Venturoso, nasceu-nos uma figueira na sala, temos de a arrancar antes de pores o soalho; e o Venturoso rira-se e dissera arranco-a quando puser o soalho, mulher, para o ano; e a figueira ficou, porque o soalho não veio, e cresceu, e Esperança via-a crescer todos os anos, e todos os anos era a mesma piada, temos de arrancar a figueira antes do soalho, e a piada foi envelhecendo com eles, e a figueira foi crescendo, e um dia, sem que nenhum dos dois reparasse, a figueira passou a ser maior do que a piada, tornou-se uma árvore a sério, com sombra, a dar figos, dentro de uma sala que continuava por fazer; e aquilo devia ter dito tudo a Esperança, que uma árvore tivera tempo de nascer e crescer e dar fruto no chão da sala antes de a sala ter um soalho, mas Esperança nunca o leu, porque até a figueira na sala ela arrumara como uma graça do noivado, a nossa figueira, e não como o que era, um relógio vivo a marcar, anel a anel, os anos de uma vida que não começava.

Naquele domingo, Esperança subiu à casa, como subia de vez em quando, sozinha, para a ver, e era um costume dela que ninguém entendia, ir ver a casa por acabar, ficar lá um bocado, imaginá-la pronta. Subiu a encosta, e chegou ao alto, e a casa estava como sempre, as paredes ao sol, o telhado a meio, os vãos abertos, a erva crescida lá dentro, e Esperança entrou por onde havia de ser a porta, e andou pelas divisões que só existiam no chão, aqui a cozinha, ali o quarto, e parou no vão que havia de ser a varanda virada ao nascente, e ficou a olhar a vista, a vila lá em baixo, o rio, a melhor vista de Véspera, e imaginou, como sempre, o café da manhã com o Venturoso a ver o sol subir, e foi-lhe, como sempre, bonito.

Mas naquele domingo houve uma coisa diferente, e foi pequena. Ao sair, ao passar pelo vão da porta, Esperança reparou numa coisa em que nunca reparara: na ombreira, na pedra da porta que o Venturoso assentara havia vinte anos, estava gravada uma data, a data em que tinham começado a casa, que ele gravara com orgulho no primeiro dia, este é o princípio da nossa vida, dissera. E Esperança olhou para a data, e fez, pela primeira vez, a conta. Vinte anos. Vinte anos desde aquela data gravada na pedra com orgulho. E olhou da data para a casa, da pedra do princípio para o esqueleto sem telhado, e teve, por um instante, uma coisa que nunca se deixara ter: teve a sensação física do tempo. Vinte anos. A data dizia o princípio, e à volta da data não havia uma casa, havia umas paredes ao vento, e Esperança, de quarenta e três anos, viúva de uma vida que nunca começara, ficou um momento parada à porta da casa por acabar, com a mão na pedra da data, e sentiu, sem ainda o saber dizer, que talvez não fosse a casa que estava por acabar; talvez fosse ela.

Desceu a encosta com aquilo a incomodá-la, e tentou empurrá-lo, como empurrava sempre tudo o que ameaçava a esperança, com o quando a casa estiver pronta, com o este ano é que é, mas a conta dos vinte anos, uma vez feita, não se desfez, ficou, como ficam as contas que se evitam a vida toda e que um dia se fazem sem querer, e Esperança chegou a casa e foi à arca, e abriu-a, e tirou de lá os lençóis do enxoval, os que bordara em nova para a casa nova, e viu-os amarelos, com os vincos marcados de vinte anos dobrados, com um cheiro a guardado, e percebeu, com um aperto, que os lençóis que ela bordara para começar uma vida estavam a envelhecer dentro da arca sem nunca terem ido para uma cama, e que ela, Esperança, estava a fazer o mesmo, a envelhecer dentro de um noivado, sem nunca ter ido para a vida, à espera de uma casa que talvez nunca se acabasse, fiel a uma promessa que talvez nunca se cumprisse, a amar um homem por vir enquanto a mulher que ela era, a real, a de quarenta e três anos, ia ficando, ela também, como os lençóis, como a casa, por estrear.

Voltou a dobrar os lençóis e a guardá-los na arca, porque ainda não sabia fazer outra coisa, mas guardou-os de outra maneira, com uma pergunta nova nas mãos, a pergunta que a casa ao sol e a data na pedra lhe tinham aberto e que ela não conseguia já fechar: e se a casa não se acaba nunca? E se eu estou à espera, há vinte anos, de uma vida que não vem? E se o Venturoso que eu amo, o que vai acabar a casa e começar a viver, não existe, e nunca existiu, e o único Venturoso que há é este, o que adia, e eu passei vinte anos a amar um homem que não existe, à espera de uma casa que não se acaba, com o enxoval a amarelar numa arca como a minha vida? E não soube responder, naquela noite, e foi-se deitar com a pergunta, e foi a primeira noite, em vinte anos, em que o quando a casa estiver pronta não lhe trouxe sono, porque pela primeira vez Esperança ouviu, por baixo da frase, a outra, a que a frase tapava havia vinte anos: e se a casa nunca estiver pronta, Esperança? Então e a tua vida?

· fim da amostra ·

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