Há uma palavra que se usa mal. esconder.
Tu não escondes partes de ti porque tens vergonha. Escondes porque um dia, num lugar onde alguém devia ter-te visto, ninguém viu. Ou pior, viram e usaram contra ti. E a tua psique fez o que faz qualquer coisa viva quando há ameaça: cobriu. Pôs um véu por cima do que era demasiado para mostrar.
E esse véu salvou-te. Não é pequeno detalhe. salvou-te. Conseguiste continuar a existir num sítio em que aquela parte de ti não cabia.
Só que depois cresceste, e o véu ficou.
Não é uma máscara
Uma máscara tu sabes que pões. Sentes a aresta dela na cara. Decides quando vais colocar e quando vais tirar.
Um véu é diferente. Já nem te lembras de o pôr. Já não sabes que está. Olhas para o mundo através dele e juras que aquilo é o mundo a sério.
E é por isso que tantos caminhos que pareciam tão claros começam a doer sem motivo. É o véu. Não te protege do mundo. Protege-te de uma versão de ti que já não precisas de esconder, mas que ainda não te deixaste rever.
O que se faz com um véu
Não se rasga. Quem rasga véus magoa-se, e magoa o que estava por baixo a tentar voltar à luz.
Tira-se devagar. Um canto de cada vez. Em sítios seguros, com testemunhas que sabem o que estão a ver.
Atravessar um véu não é violência. É um regresso.
