Tu falas muito da mulher que ainda não és.
A que vai ser mais forte, mais clara, mais bonita, mais financeiramente livre, mais qualquer coisa. Trabalhas para chegar lá. Lês livros para chegar lá. Vais a sessões para chegar lá.
Mas o que tu não dizes. e talvez nem saibas. é que tens medo dela.
A versão proibida
A mulher inteira que tu poderias ser não cabe em vários sítios em que tu cabes hoje. Não cabe na relação. Não cabe no escritório. Não cabe na conversa de família ao domingo.
Se tu te tornares essa mulher, vão ter de mudar coisas que tu não queres ainda mudar. Pessoas vão sair. Outras vão ficar mas vão estranhar-te. E tu, que aprendeste muito cedo que ser amada depende de não fazer ondas, sentes que não podes correr esse risco.
Então atrasas-te. Dizes ao mundo que estás em formação, em processo, a trabalhar nisso. E é verdade. Mas também é uma forma de adiar a chegada.
O que ela pede
Aquela mulher não te pede para destruíres a tua vida actual. Pede-te uma coisa muito mais simples: que pares de fingir que ela não existe.
Que a deixes apresentar-se. Em frente ao espelho, primeiro. Depois, talvez, num caderno. Depois, talvez, numa conversa em que tu te ouves a dizer algo que ninguém te ouviu antes a dizer.
A grande revelação não é tornares-te outra coisa. É deixares de fingir que já não és.
