Conta quantas vezes dizes desculpa num dia.
Desculpa por chegar. Desculpa por pedir. Desculpa por ter uma opinião. Desculpa por ocupar espaço na fila, na conversa, na sala. Desculpa por existires em voz alta.
Não são desculpas reais. São reflexos. São a forma que o teu corpo encontrou de dizer: eu sei que não devia estar aqui, mas estou, e peço perdão por isso.
De onde vem
Vem de casas onde as meninas eram boas quando eram quietas. Onde ter necessidades era dar trabalho. Onde a mulher que não incomodava era a mulher que era amada.
E tu aprendeste tão bem que agora o desculpa sai antes de pensares. É automático. É muscular. Está no teu corpo como um reflexo de sobrevivência que já não precisas.
O que acontece quando páras
Quando páras de pedir desculpa por existir, abres espaço para outra coisa: presença. Entras numa sala e ficas. Dizes o que pensas e ficas. Ocupas espaço e ficas.
E as pessoas à tua volta não recuam. Alinham-se. Porque uma mulher que não se desculpa por estar é uma mulher que transmite uma coisa rara: eu sei que pertenço aqui.
A mulher que já não pede desculpa por existir não se tornou arrogante. Tornou-se livre.
